Exame Nacional Português 2025 · 2.ª fase

Exame Nacional de Português 2025, 2.ª fase: 6 exercícios com resolução. Temas: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente. Com correção imediata.

Temas do exame: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente · Padre António Vieira: Sermão de Santo António · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Apreciação crítica de uma imagem

Grupo I · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

PARTE A

PARTE A

Leia o poema.

XXXIX

O mistério das cousas, onde está ele?

Onde está ele que não aparece

Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

5 E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?

Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,

Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas

É elas não terem sentido oculto nenhum.

10 É mais estranho do que todas as estranhezas

E do que os sonhos de todos os poetas

E os pensamentos de todos os filósofos,

Que as cousas sejam realmente o que parecem ser

E não haja nada que compreender.

15 Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —

As cousas não têm significação: têm existência.

As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Fernando Pessoa, Poesia de Alberto Caeiro, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 75.

1.

As interrogações retóricas presentes na primeira estrofe estão ao serviço da ironia manifestada no riso do sujeito poético.

Refira os motivos desse riso irónico.

2.

Releia os versos de 6 a 17.

Explicite em que consiste a oposição entre o «eu» e os outros homens, relativamente ao modo como se constrói o conhecimento das «cousas».

3.

As afirmações seguintes referem-se à poesia de Alberto Caeiro.

Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do poema apresentado.

Grupo I · Padre António Vieira: Sermão de Santo António

PARTE B

Leia o texto e a nota.

Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o verdadeiro louvor, a

primeira que se me oferece aos olhos hoje é aquela obediência, com que chamados acudistes

todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que

ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António. Oh grande louvor verdadeiramente

5 para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a

António, querendo-o lançar da terra e ainda do mundo, se pudessem, porque lhe repreendia

seus vícios, porque lhe não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo

tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos às suas

palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso 1 (como se tiveram

10 entendimento) o que não entendiam! Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra,

e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão

devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em

homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e

não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a

15 razão. Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção que tivestes aos Pregadores

da palavra de Deus, e tanto mais quanto não foi só esta a vez em que assim o fizestes.

Ia Jonas, Pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se levantou aquela

grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os homens

lançaram-no ao mar a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu levou-o às praias de

20 Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens. É possível que os peixes ajudam à

salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os ministros da salvação? Vede, peixes, e

não vos venha vanglória, quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram entranhas

para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.

Padre António Vieira, Sermão de Sto. António (aos peixes) e Sermão da Sexagésima, edição de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Seara Nova, 1978, pp. 71-73.

NOTA

1 assenso – concordância.

4.

«Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão.» (linhas de 13 a 15).

Relacione o sentido da afirmação com o episódio da vida de Santo António evocado nas linhas de 1 a 13.

5.

«Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.» (linhas 22 e 23).

Interprete a afirmação, tendo em conta o jogo entre o sentido literal e o sentido figurado ou metafórico da palavra «entranhas».

6.

Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando a opção adequada a cada espaço.

No excerto do Sermão de Santo António (aos peixes) apresentado, evidenciam-se diversos recursos usados pelo orador quer para deleitar quer para persuadir o auditório.

Observa-se, assim, nas linhas 4 e 5, o recurso a)

para realçar a intenção crítica do orador. Esta intenção é também reforçada pela referência à situação vivida por Jonas (linhas 17 a 20), a qual constitui b)

.

a)

b)

1. à apóstrofe e à metáfora

1. um argumento de autoridade

2. à exclamação e à antítese

2. uma tese a defender pelo orador

3. à anáfora e à personificação

3. um exemplo bíblico

Grupo I - 7 · Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente

PARTE C

7. Leia a cantiga de amigo de Martim Codax.

Ai ondas, que eu vim veer,

se me saberedes dizer

porque tarda meu amigo sem mim?

Ai ondas, que eu vim mirar,

5 se me saberedes contar

porque tarda meu amigo sem mim?

A Lírica Galego-Portuguesa, edição de Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos, 2.ª ed., Lisboa, Editorial Comunicação, 1985, p. 265.

Escreva uma breve exposição na qual compare o modo como a natureza é perspetivada na poesia de Alberto Caeiro e na cantiga de amigo apresentada.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual explicite dois aspetos em que a representação da natureza na poesia de Caeiro se distingue da representação da natureza na cantiga de amigo apresentada;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

Um busto de bronze de um português antigo entre umas rochas num jardim do Extremo Oriente. O que é isto, como se compreende isto? Wenceslau de Moraes deixou-nos uma descrição deste jardim tal como o encontrou em 1890: «Pedras amontoadas sobre pedras, constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito, estendendo as raízes por entre os negros mamelões 1, soberbas árvores seculares; tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões, e que já de longe destaca, na aridez quase uniforme da costa, como um grande ramalhete de verdura.»

Não há grandiloquência neste texto. O Camões-histórico é referido como «um pobre procurador dos defuntos e ausentes» que deambulava por aquelas bandas e se refugiava à sombra de três grandes pedras, a suposta «gruta». A cidade de Macau, «pequenino domínio» português, vê-se reduzida a «uma língua de rocha, apenas percetível nas cartas geográficas». E, no entanto, este jardim tem uma qualquer grandeza, e essa grandeza vem do «encanto natural da posição dominante», dos «horizontes vastos», «da vegetação vigorosa que aqui encontra asilo, conchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões». O texto não é uma apoteose 2 camoniana, e ainda menos um ditirambo 3 imperial; imbuído do espírito japonês, Moraes mostra-se sobretudo tocado pela serenidade de um jardim inesperado, «a face limosa 4 das pedras abruptas», «a solidão das áleas 5 sombreadas», «o encanto dos panoramas» de onde se veem as casas negras, a azáfama do porto, o fogo de artifício. Esta evocação paisagística abdica da faceta «patriótica», mas não deixa de ter o turbulento Camões como improvável patrono daquela tranquilidade, daquela ausência momentânea de amargura, que ele próprio nunca experimentou, e que nos deixa «compenetrados no respeito das coisas».

Três décadas mais tarde, a 10 de junho de 1924, outro grande «asiático» português, Camilo Pessanha, proferiu uma conferência intitulada «Macau e a gruta de Camões». Apesar da ocasião oficial, Pessanha evita igualmente o tom nacionalista. A grande questão que o preocupa é a possibilidade ou impossibilidade de um poeta continuar a ser poeta em terras distantes, uma vez que «a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus 6 do solo natal». Pessanha tem um entendimento bucólico, localista, da poesia, ou da sua origem, e não esconde o seu ceticismo: não há verdadeira capacidade poética quando a pátria está distante. A gruta de Camões suscita-lhe então uma ideia original: a do génio como ilusão de estar em casa.

Pedro Mexia, «Camões em Macau», Lá Fora, Lisboa, Edições Tinta-da-china, 2018, pp. 86-87.

NOTAS

1 mamelões – colinas; outeiros.

2 apoteose – homenagem grandiosa.

3 ditirambo – poesia de carácter elogioso.

4 limosa – coberta de algas.

5 áleas – ruas ladeadas por árvores.

6 húmus – matéria orgânica resultante da decomposição de detritos vegetais e animais.

1.

A designada Gruta de Camões, em Macau, surpreende

2.

No contexto em que ocorre, a sequência «E, no entanto» (linha 12) permite estabelecer uma comparação

3.

Na conferência proferida em 10 de junho de 1924, Camilo Pessanha defende que

Grupo II · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

Um busto de bronze de um português antigo entre umas rochas num jardim do Extremo Oriente. O que é isto, como se compreende isto? Wenceslau de Moraes deixou-nos uma descrição deste jardim tal como o encontrou em 1890: «Pedras amontoadas sobre pedras, constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito, estendendo as raízes por entre os negros mamelões 1, soberbas árvores seculares; tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões, e que já de longe destaca, na aridez quase uniforme da costa, como um grande ramalhete de verdura.»

Não há grandiloquência neste texto. O Camões-histórico é referido como «um pobre procurador dos defuntos e ausentes» que deambulava por aquelas bandas e se refugiava à sombra de três grandes pedras, a suposta «gruta». A cidade de Macau, «pequenino domínio» português, vê-se reduzida a «uma língua de rocha, apenas percetível nas cartas geográficas». E, no entanto, este jardim tem uma qualquer grandeza, e essa grandeza vem do «encanto natural da posição dominante», dos «horizontes vastos», «da vegetação vigorosa que aqui encontra asilo, conchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões». O texto não é uma apoteose 2 camoniana, e ainda menos um ditirambo 3 imperial; imbuído do espírito japonês, Moraes mostra-se sobretudo tocado pela serenidade de um jardim inesperado, «a face limosa 4 das pedras abruptas», «a solidão das áleas 5 sombreadas», «o encanto dos panoramas» de onde se veem as casas negras, a azáfama do porto, o fogo de artifício. Esta evocação paisagística abdica da faceta «patriótica», mas não deixa de ter o turbulento Camões como improvável patrono daquela tranquilidade, daquela ausência momentânea de amargura, que ele próprio nunca experimentou, e que nos deixa «compenetrados no respeito das coisas».

Três décadas mais tarde, a 10 de junho de 1924, outro grande «asiático» português, Camilo Pessanha, proferiu uma conferência intitulada «Macau e a gruta de Camões». Apesar da ocasião oficial, Pessanha evita igualmente o tom nacionalista. A grande questão que o preocupa é a possibilidade ou impossibilidade de um poeta continuar a ser poeta em terras distantes, uma vez que «a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus 6 do solo natal». Pessanha tem um entendimento bucólico, localista, da poesia, ou da sua origem, e não esconde o seu ceticismo: não há verdadeira capacidade poética quando a pátria está distante. A gruta de Camões suscita-lhe então uma ideia original: a do génio como ilusão de estar em casa.

Pedro Mexia, «Camões em Macau», Lá Fora, Lisboa, Edições Tinta-da-china, 2018, pp. 86-87.

NOTAS

1 mamelões – colinas; outeiros.

2 apoteose – homenagem grandiosa.

3 ditirambo – poesia de carácter elogioso.

4 limosa – coberta de algas.

5 áleas – ruas ladeadas por árvores.

6 húmus – matéria orgânica resultante da decomposição de detritos vegetais e animais.

4.

As palavras sublinhadas nas sequências «tal como o encontrou» (linha 3) e «uma qualquer grandeza, e essa grandeza » (linha 12) são mecanismos que contribuem para a coesão

5.

Na expressão «que deambulava por aquelas bandas e se refugiava» (linha 9), exprime-se, simultaneamente,

6.

A única expressão que desempenha a função sintática de complemento oblíquo é

7.

A oração iniciada pela palavra «que» (linha 20) e a oração iniciada pela expressão «uma vez que» (linha 26) são subordinadas

Grupo III · Apreciação crítica de uma imagem

GRUPO III

Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica do cartoon «Reflorestação», da autoria de Victor Solís.

No seu texto, deve incluir:

a descrição da cena apresentada, destacando elementos significativos da composição da imagem;

um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo;

uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.

World Press Cartoon – Caldas da Rainha 2022, p. 143.

Observações:

Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2025/).

Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

Também podes estudar por temas

Pratica um tema com exercícios dos exames de todos os anos, misturados.

Ver os 12 temas

Outras fases de 2025

1.ª fase (2025) · Época especial (2025)