Exame Nacional Português 2025 · 1.ª fase

Exame Nacional de Português 2025, 1.ª fase: 13 exercícios com resolução. Temas: Os Lusíadas e Mensagem, Compreensão de texto não literário e Gramática.

Temas do exame: Os Lusíadas e Mensagem · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião

Grupo I - Item 1 · Os Lusíadas e Mensagem

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 51 a 53 do Canto IV de Os Lusíadas, e as notas.

Est. 51

«Não foi do Rei Duarte tão ditoso

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assi vai alternando o tempo iroso

O bem co mal, o gosto co a tristeza.

5 Quem viu sempre um estado deleitoso?

Ou quem viu em Fortuna 1 haver firmeza 2 ?

Pois inda neste Reino e neste Rei

Não usou ela tanto desta lei?

Est. 52

«Viu ser cativo o santo irmão Fernando 3

10 (Que a tão altas empresas aspirava),

Que, por salvar o povo miserando

Cercado, ao Sarraceno 4 se entregava.

Só por amor da pátria está passando

A vida, de senhora feita escrava,

15 Por não se dar por ele a forte Ceita 5.

Mais o público bem que o seu respeita.

Est. 53

«Codro 6, por que o inimigo não vencesse,

Deixou antes vencer da morte a vida;

Régulo 7, por que a pátria não perdesse,

20 Quis mais a liberdade ver perdida.

Este, por que se Espanha não temesse,

A cativeiro eterno se convida!

Codro, nem Cúrcio 8, ouvido por espanto,

Nem os Décios 9 leais, fizeram tanto.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 107-108.

NOTAS

1 Fortuna – Destino; Sorte.

2 firmeza – constância; estabilidade.

3 Fernando – D. Fernando (1402-1443) foi capturado pelos mouros durante o cerco de Tânger, em 1437. Como o seu irmão, o rei D. Duarte, recusou a entrega de Ceuta em troca da sua libertação, o Infante acabou por falecer ao fim de anos de cativeiro.

4 Sarraceno – Mouro.

5 Ceita – Ceuta.

6 Codro – último rei de Atenas, que evitou o triunfo dos dórios quando estes invadiram a Ática, entrando disfarçado no campo inimigo e deixando-se matar.

7 Régulo – cônsul romano que, prisioneiro dos cartagineses, foi por estes enviado a Roma para propor a paz. Heroicamente, aconselhou os romanos a resistirem e voltou a Cartago, onde foi morto.

8 Cúrcio – romano que se atirou a um abismo existente no Fórum, para, com o sacrifício da sua vida, salvar a pátria.

9 Décios – ilustres romanos que se sacrificaram pela pátria.

1. Refira a opinião do narrador sobre o reinado de D. Duarte, tendo em conta duas ideias expressas na estância 51.

Grupo I - Item 2 · Os Lusíadas e Mensagem

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 51 a 53 do Canto IV de Os Lusíadas, e as notas.

Est. 51

«Não foi do Rei Duarte tão ditoso

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assi vai alternando o tempo iroso

O bem co mal, o gosto co a tristeza.

5 Quem viu sempre um estado deleitoso?

Ou quem viu em Fortuna 1 haver firmeza 2 ?

Pois inda neste Reino e neste Rei

Não usou ela tanto desta lei?

Est. 52

«Viu ser cativo o santo irmão Fernando 3

10 (Que a tão altas empresas aspirava),

Que, por salvar o povo miserando

Cercado, ao Sarraceno 4 se entregava.

Só por amor da pátria está passando

A vida, de senhora feita escrava,

15 Por não se dar por ele a forte Ceita 5.

Mais o público bem que o seu respeita.

Est. 53

«Codro 6, por que o inimigo não vencesse,

Deixou antes vencer da morte a vida;

Régulo 7, por que a pátria não perdesse,

20 Quis mais a liberdade ver perdida.

Este, por que se Espanha não temesse,

A cativeiro eterno se convida!

Codro, nem Cúrcio 8, ouvido por espanto,

Nem os Décios 9 leais, fizeram tanto.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 107-108.

NOTAS

1 Fortuna – Destino; Sorte.

2 firmeza – constância; estabilidade.

3 Fernando – D. Fernando (1402-1443) foi capturado pelos mouros durante o cerco de Tânger, em 1437. Como o seu irmão, o rei D. Duarte, recusou a entrega de Ceuta em troca da sua libertação, o Infante acabou por falecer ao fim de anos de cativeiro.

4 Sarraceno – Mouro.

5 Ceita – Ceuta.

6 Codro – último rei de Atenas, que evitou o triunfo dos dórios quando estes invadiram a Ática, entrando disfarçado no campo inimigo e deixando-se matar.

7 Régulo – cônsul romano que, prisioneiro dos cartagineses, foi por estes enviado a Roma para propor a paz. Heroicamente, aconselhou os romanos a resistirem e voltou a Cartago, onde foi morto.

8 Cúrcio – romano que se atirou a um abismo existente no Fórum, para, com o sacrifício da sua vida, salvar a pátria.

9 Décios – ilustres romanos que se sacrificaram pela pátria.

2. Releia as estâncias 52 e 53.

Explicite duas características de D. Fernando, fundamentando a sua resposta em informações presentes nas estâncias mencionadas.

Grupo I - Item 3 · Os Lusíadas e Mensagem

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 51 a 53 do Canto IV de Os Lusíadas, e as notas.

Est. 51

«Não foi do Rei Duarte tão ditoso

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assi vai alternando o tempo iroso

O bem co mal, o gosto co a tristeza.

5 Quem viu sempre um estado deleitoso?

Ou quem viu em Fortuna 1 haver firmeza 2 ?

Pois inda neste Reino e neste Rei

Não usou ela tanto desta lei?

Est. 52

«Viu ser cativo o santo irmão Fernando 3

10 (Que a tão altas empresas aspirava),

Que, por salvar o povo miserando

Cercado, ao Sarraceno 4 se entregava.

Só por amor da pátria está passando

A vida, de senhora feita escrava,

15 Por não se dar por ele a forte Ceita 5.

Mais o público bem que o seu respeita.

Est. 53

«Codro 6, por que o inimigo não vencesse,

Deixou antes vencer da morte a vida;

Régulo 7, por que a pátria não perdesse,

20 Quis mais a liberdade ver perdida.

Este, por que se Espanha não temesse,

A cativeiro eterno se convida!

Codro, nem Cúrcio 8, ouvido por espanto,

Nem os Décios 9 leais, fizeram tanto.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 107-108.

NOTAS

1 Fortuna – Destino; Sorte.

2 firmeza – constância; estabilidade.

3 Fernando – D. Fernando (1402-1443) foi capturado pelos mouros durante o cerco de Tânger, em 1437. Como o seu irmão, o rei D. Duarte, recusou a entrega de Ceuta em troca da sua libertação, o Infante acabou por falecer ao fim de anos de cativeiro.

4 Sarraceno – Mouro.

5 Ceita – Ceuta.

6 Codro – último rei de Atenas, que evitou o triunfo dos dórios quando estes invadiram a Ática, entrando disfarçado no campo inimigo e deixando-se matar.

7 Régulo – cônsul romano que, prisioneiro dos cartagineses, foi por estes enviado a Roma para propor a paz. Heroicamente, aconselhou os romanos a resistirem e voltou a Cartago, onde foi morto.

8 Cúrcio – romano que se atirou a um abismo existente no Fórum, para, com o sacrifício da sua vida, salvar a pátria.

9 Décios – ilustres romanos que se sacrificaram pela pátria.

3. Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando a opção adequada a cada espaço.

No texto, estão presentes vários recursos expressivos, frequentemente utilizados em Os Lusíadas. Por exemplo, na estância 53, o narrador utiliza como estratégia discursiva o recurso à

,

a fim de

.

a)

b)

1. apóstrofe

1. sobrepor os feitos dos heróis da Antiguidade às ações de D. Fernando

2. sinestesia

2. reforçar o carácter extraordinário das ações do Infante D. Fernando

3. enumeração

3. provar que as ações de D. Fernando e as de outros heróis enfatizam a efemeridade da vida humana

Grupo I - Item 4 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE B

Leia o poema e as notas.

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL 1

Deu-me Deus o seu gládio 2, por que eu faça

A sua santa guerra.

Sagrou-me seu 3 em honra e em desgraça,

Às horas em que um frio vento passa

5 Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

A fronte 4 com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

10 Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá

Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

15 Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas Sobre Portugal, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 30.

NOTAS

1 D. Fernando, Infante de Portugal – D. Fernando (1402-1443), irmão do rei D. Duarte.

2 gládio – espada curta, de dois gumes.

3 Sagrou-me seu – Escolheu-me.

4 fronte – testa.

4. Explique em que medida as ações de Deus transformam o sujeito poético num instrumento da vontade divina.

Na sua resposta, comece por indicar as ações de Deus.

Grupo I - Item 5 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE B

Leia o poema e as notas.

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL 1

Deu-me Deus o seu gládio 2, por que eu faça

A sua santa guerra.

Sagrou-me seu 3 em honra e em desgraça,

Às horas em que um frio vento passa

5 Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

A fronte 4 com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

10 Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá

Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

15 Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas Sobre Portugal, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 30.

NOTAS

1 D. Fernando, Infante de Portugal – D. Fernando (1402-1443), irmão do rei D. Duarte.

2 gládio – espada curta, de dois gumes.

3 Sagrou-me seu – Escolheu-me.

4 fronte – testa.

5. Releia os versos de 8 a 15.

Descreva, com base em dois aspetos pertinentes, o estado de espírito do sujeito poético face à vontade divina.

Grupo I - Item 6 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE B

Leia o poema e as notas.

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL 1

Deu-me Deus o seu gládio 2, por que eu faça

A sua santa guerra.

Sagrou-me seu 3 em honra e em desgraça,

Às horas em que um frio vento passa

5 Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me

A fronte 4 com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

10 Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá

Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

15 Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas Sobre Portugal, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 30.

NOTAS

1 D. Fernando, Infante de Portugal – D. Fernando (1402-1443), irmão do rei D. Duarte.

2 gládio – espada curta, de dois gumes.

3 Sagrou-me seu – Escolheu-me.

4 fronte – testa.

6. As afirmações seguintes referem-se à obra Mensagem.

Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do poema «D. Fernando, Infante de Portugal».

Grupo I - Item 7 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE C

7. Embora os textos da Parte A e da Parte B incidam sobre o mesmo herói, existem diferenças significativas no modo como a figura de D. Fernando é apresentada.

Escreva uma breve exposição na qual distinga esses textos, no que diz respeito à predominância de características líricas ou épicas.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema na qual identifique a obra em que predominam características líricas e a obra em que predominam características épicas;

um desenvolvimento no qual explicite um traço distintivo do discurso lírico e um traço distintivo do discurso épico, fundamentando cada um deles com transcrições pertinentes;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - Item 1 · Compreensão de texto não literário

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

1.

Na primeira parte do discurso, José Tolentino Mendonça dirige-se «às mulheres e aos homens do meu país» (linhas 3 e 4), na medida em que são estes que

Grupo II - Item 2 · Compreensão de texto não literário

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

2.

Na opinião do autor, expressa no segundo parágrafo, a poesia

Grupo II - Item 3 · Compreensão de texto não literário

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

3.

Ao afirmar que «Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento» (linhas 31 e 32), o autor associa ao sentido de «desconfinamento» ideias como

Grupo II - Item 4 · Gramática

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

4.

A única frase em que estão presentes deíticos pessoais e temporais é

Grupo II - Item 5 · Gramática

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

5. A única oração subordinada substantiva completiva é

Grupo II - Item 6 · Gramática

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

6. Todas as expressões desempenham a função sintática de complemento do nome, exceto

Grupo II - Item 7 · Gramática

O texto constitui um excerto do discurso «O que é amar um País», proferido por D. José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 10 de junho de 2020.

É uma bela tradição da nossa República, esta de convidar um cidadão a tomar a palavra

neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É

nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às

mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia a dia o constroem, suscitam,

5 amam e sonham, que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território

continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional

ou nas extensas redes da nossa diáspora 1. Se interrogássemos cada um, provavelmente

responderia que está apenas a cuidar da sua parte – a tratar do seu trabalho, da sua família; a

cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança –, mas é importante que se recorde

10 de que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma

expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos

uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade.

E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas

pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela

15 não viveria sem as raízes.

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser

precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos

anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em

concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque

20 iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A

poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica

que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas

sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à Índia, mas nos conduz por

terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a

25 representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o

prodígio da grande literatura – àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas

perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os

limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel

30 central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar

isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um

preclaro 2 mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente ocupar

de novo o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de

forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido

35 de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e

em construção, que a todos diz respeito. É não se conformar com os limites da linguagem,

das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma

inspiração para ousar sonhos grandes.

José Tolentino Mendonça, O Que É Amar Um País, Lisboa, Quetzal, pp. 10-13.

NOTAS

1 diáspora – dispersão de um povo ou de uma comunidade no mundo.

2 preclaro – ilustre.

7. A frase «A poesia é um guia náutico perpétuo» (linhas 20 e 21) apresenta

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Grupo III · Texto de opinião

GRUPO III

Para uns, é o indivíduo que faz a sociedade; para outros, é a sociedade que faz o indivíduo.

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre o conteúdo da afirmação.

No seu texto:

explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;

utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito);

formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida.

Observações:

1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2025/).

2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

Também podes estudar por temas

Pratica um tema com exercícios dos exames de todos os anos, misturados.

Ver os 12 temas

Outras fases de 2025

2.ª fase (2025) · Época especial (2025)