Grupo I · Exame Nacional Português 2.ª fase 2025
Tema: Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Do exame 2.ª fase (2025)
Enunciado
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
PARTE A
Leia o poema.
XXXIX
O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
5 E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
10 É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
15 Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
Fernando Pessoa, Poesia de Alberto Caeiro, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 75.
1.
As interrogações retóricas presentes na primeira estrofe estão ao serviço da ironia manifestada no riso do sujeito poético.
Refira os motivos desse riso irónico.
2.
Releia os versos de 6 a 17.
Explicite em que consiste a oposição entre o «eu» e os outros homens, relativamente ao modo como se constrói o conhecimento das «cousas».
3.
As afirmações seguintes referem-se à poesia de Alberto Caeiro.
Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do poema apresentado.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. As interrogações retóricas presentes na primeira estrofe estão ao serviço da ironia manifestada no riso do sujeito poético. Refira os motivos desse riso irónico.
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes: - o sujeito poético questiona-se sobre o alegado «mistério das cousas», que não é visível na natureza («Onde está ele que não aparece / Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?» – vv. 2-3), dando a entender que este não existe; - o riso irónico deve-se ao facto de o sujeito poético se distinguir dos outros homens, que, através do pensamento, atribuem significados ocultos às coisas (vv. 6-7), quando os «sentidos»/as sensações são o único caminho para o conhecimento objetivo do mundo.
2. Releia os versos de 6 a 17. Explicite em que consiste a oposição entre o «eu» e os outros homens, relativamente ao modo como se constrói o conhecimento das «cousas».
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes: O «eu» e os outros homens têm modos distintos de conhecer a natureza: - os outros homens buscam a compreensão do que está além do observável – o «sentido oculto das cousas» (v. 8) – através da imaginação (como é o caso dos poetas), ou do pensamento (como é o caso dos filósofos), pelo que acrescentam sentidos (subjetivos ou simbólicos) às coisas; - o «eu», porém, defende que o conhecimento da natureza advém exclusivamente do que é apreendido pelos sentidos, na medida em que as coisas apenas existem, «não têm significação» (v. 16).
3. Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do poema apresentado.
Resposta: A, D, E
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