Exame Nacional Português 2024 · 2.ª fase

Exame Nacional de Português 2024, 2.ª fase: 10 exercícios com resolução. Temas: Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde. Com correção imediata.

Temas do exame: Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião

Grupo I · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

No excerto de A Cidade e as Serras a seguir apresentado, o narrador encontra-se em Paris, no palácio do seu amigo Jacinto, situado nos Campos Elísios, número 202.

No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas,

penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado,

envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda

de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim,

5 prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto

sumptuário 1 da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada

dia, o meu regalo e o meu espanto – porque as havia largas como a roda maciça de um carro

sabino 2; estreitas e mais recurvas que o alfange 3 de um mouro; côncavas, em forma de telha

aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas 4 de javali; macias que

10 nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo,

se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,

permanecia este Príncipe passando pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.

No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas 5,

manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório – que era apenas um resumo

15 das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes

mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as

duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo

borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos,

cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos

20 mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim

o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpa, a uma toalha de linho, a outra

de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a

pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto,

estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam 6, inscritas pelo Grilo ou por ele,

25 as ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas 7.

Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a

interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente

comunhão com todas as funções da Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do clube

da Espada e Alvo; comanditário 8 do jornal «O Boulevard»; diretor da Companhia dos

30 Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do

Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia

porém aprazível ao meu amigo – porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,

frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem livre, aquela agenda

que o escravizava.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, Porto, Livros do Brasil, 2016, pp. 41-42.

NOTAS

1 sumptuário – em que há grande luxo e sofisticação.

2 carro sabino – carro com detalhes dourados, usado pelo povo sabino, que vivia na região do Lácio, em Itália.

3 alfange – espada curta, larga e curva.

4 cerdas – pelos grossos e ásperos.

5 lavradas – bordadas.

6 arrolavam – inventariavam.

7 laudas – páginas.

8 comanditário – sócio capitalista, que não intervém na administração.

1.

Entre as linhas 2 e 23, o narrador descreve o complexo ritual matutino do seu amigo Jacinto.

Explicite duas características do modo de vida de Jacinto que motivam a admiração do narrador.

2.

Jacinto parece ter uma relação ambígua com a civilização.

Justifique esta afirmação.

Grupo I - 3 · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

No excerto de A Cidade e as Serras a seguir apresentado, o narrador encontra-se em Paris, no palácio do seu amigo Jacinto, situado nos Campos Elísios, número 202.

No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas,

penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado,

envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda

de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim,

5 prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto

sumptuário 1 da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada

dia, o meu regalo e o meu espanto – porque as havia largas como a roda maciça de um carro

sabino 2; estreitas e mais recurvas que o alfange 3 de um mouro; côncavas, em forma de telha

aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas 4 de javali; macias que

10 nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo,

se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,

permanecia este Príncipe passando pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.

No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas 5,

manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório – que era apenas um resumo

15 das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes

mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as

duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo

borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos,

cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos

20 mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim

o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpa, a uma toalha de linho, a outra

de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a

pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto,

estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam 6, inscritas pelo Grilo ou por ele,

25 as ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas 7.

Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a

interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente

comunhão com todas as funções da Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do clube

da Espada e Alvo; comanditário 8 do jornal «O Boulevard»; diretor da Companhia dos

30 Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do

Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia

porém aprazível ao meu amigo – porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,

frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem livre, aquela agenda

que o escravizava.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, Porto, Livros do Brasil, 2016, pp. 41-42.

NOTAS

1 sumptuário – em que há grande luxo e sofisticação.

2 carro sabino – carro com detalhes dourados, usado pelo povo sabino, que vivia na região do Lácio, em Itália.

3 alfange – espada curta, larga e curva.

4 cerdas – pelos grossos e ásperos.

5 lavradas – bordadas.

6 arrolavam – inventariavam.

7 laudas – páginas.

8 comanditário – sócio capitalista, que não intervém na administração.

Considere as afirmações seguintes sobre o texto.

.

Identifique as três afirmações verdadeiras.

Grupo I · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

PARTE B

Leia o poema e as notas.

As rosas amo dos jardins de Adónis 1,

Essas volucres 2 amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem,

Em esse dia morrem.

5 A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apolo 3 deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,

10 Inscientes 4, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após

O pouco que duramos.

Ricardo Reis, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 13-14.

NOTAS

1 Adónis – jovem da mitologia grega, símbolo de beleza masculina.

2 volucres – efémeras.

3 Apolo – deus grego do sol.

4 Inscientes – ignorantes.

4.

Explicite a importância da referência aos elementos da natureza para o desenvolvimento do pensamento do sujeito poético.

5.

Explique os quatro últimos versos do poema, tendo em conta o ideal de vida defendido pelo sujeito poético.

Grupo I - 6 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

PARTE B

Leia o poema e as notas.

As rosas amo dos jardins de Adónis 1,

Essas volucres 2 amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem,

Em esse dia morrem.

5 A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apolo 3 deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,

10 Inscientes 4, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após

O pouco que duramos.

Ricardo Reis, Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 13-14.

NOTAS

1 Adónis – jovem da mitologia grega, símbolo de beleza masculina.

2 volucres – efémeras.

3 Apolo – deus grego do sol.

4 Inscientes – ignorantes.

Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando a opção adequada a cada espaço.

No poema apresentado, constata-se o classicismo da poesia de Ricardo Reis, nomeadamente através do recurso à

, nos versos 7 e 8.

O carácter moralista da poesia deste heterónimo pessoano é indiciado pelo uso de verbos conjugados na primeira pessoa do modo conjuntivo, como ocorre

.

Grupo I - 7 · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

No excerto de A Cidade e as Serras a seguir apresentado, o narrador encontra-se em Paris, no palácio do seu amigo Jacinto, situado nos Campos Elísios, número 202.

No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas,

penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado,

envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda

de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim,

5 prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto

sumptuário 1 da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada

dia, o meu regalo e o meu espanto – porque as havia largas como a roda maciça de um carro

sabino 2; estreitas e mais recurvas que o alfange 3 de um mouro; côncavas, em forma de telha

aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas 4 de javali; macias que

10 nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo,

se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,

permanecia este Príncipe passando pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.

No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas 5,

manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório – que era apenas um resumo

15 das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes

mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as

duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo

borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos,

cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos

20 mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim

o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpa, a uma toalha de linho, a outra

de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a

pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto,

estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam 6, inscritas pelo Grilo ou por ele,

25 as ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas 7.

Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a

interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente

comunhão com todas as funções da Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do clube

da Espada e Alvo; comanditário 8 do jornal «O Boulevard»; diretor da Companhia dos

30 Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do

Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia

porém aprazível ao meu amigo – porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,

frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem livre, aquela agenda

que o escravizava.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, Porto, Livros do Brasil, 2016, pp. 41-42.

NOTAS

1 sumptuário – em que há grande luxo e sofisticação.

2 carro sabino – carro com detalhes dourados, usado pelo povo sabino, que vivia na região do Lácio, em Itália.

3 alfange – espada curta, larga e curva.

4 cerdas – pelos grossos e ásperos.

5 lavradas – bordadas.

6 arrolavam – inventariavam.

7 laudas – páginas.

8 comanditário – sócio capitalista, que não intervém na administração.

PARTE C

7. Observe a pintura de René Magritte a seguir apresentada, tendo em vista o estabelecimento de uma comparação com o texto narrativo que integra a Parte A desta prova.

René Magritte, Valores Pessoais, 1952, Museu de Arte Moderna de São Francisco.

Escreva uma breve exposição na qual compare os elementos que compõem a pintura com as ideias expressas no excerto de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual explicite dois aspetos que permitam estabelecer uma comparação, por semelhança e/ou por contraste, entre o quadro de Magritte e o excerto de A Cidade e as Serras apresentado na Parte A;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - 1 · Compreensão de texto não literário

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

1. Na perspetiva do autor, a dificuldade sentida pela «maioria de nós» (linha 2) em aproveitar bem o tempo provoca, geralmente, uma reação de

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Grupo II - 2 · Compreensão de texto não literário

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

2. Como estratégia para lidar com os «efeitos colaterais das nossas vidas sobreocupadas» (linhas 8 e 9), o autor recomenda ao leitor que

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Grupo II - 3 · Compreensão de texto não literário

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

3. Em «parece que, de repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém» (linhas 13 e 14), o autor recorre

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Grupo II - 4 · Compreensão de texto não literário

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

4. Através da reflexão desenvolvida ao longo do texto, o autor pretende sobretudo

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Grupo II - 5 · Gramática

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

5. No contexto em que ocorre, a expressão «devemos esticar e levar ao limite» (linha 2) exprime

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Grupo II · Gramática

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

6.

A expressão «do tempo» (linha 20) e o pronome «nos» (linha 16) desempenham as funções sintáticas

7.

Todas as orações abaixo identificadas são subordinadas substantivas completivas, exceto

Win

Grupo III · Texto de opinião

GRUPO III

Se para uns a felicidade consiste em saber viver com simplicidade e desapego dos bens materiais, para outros a acumulação e a ostentação de riqueza constituem o objetivo primordial da vida.

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre o modo como a felicidade pode ser alcançada.

No seu texto:

explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;

utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).

Observações:

Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2024/).

Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

Também podes estudar por temas

Pratica um tema com exercícios dos exames de todos os anos, misturados.

Ver os 12 temas

Outras fases de 2024

1.ª fase (2024) · Época especial (2024)