Grupo II · Exame Nacional Português 2.ª fase 2025
Tema: Gramática · Do exame 2.ª fase (2025)
Enunciado
GRUPO II
Leia o texto e as notas.
Um busto de bronze de um português antigo entre umas rochas num jardim do Extremo Oriente. O que é isto, como se compreende isto? Wenceslau de Moraes deixou-nos uma descrição deste jardim tal como o encontrou em 1890: «Pedras amontoadas sobre pedras, constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito, estendendo as raízes por entre os negros mamelões 1, soberbas árvores seculares; tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões, e que já de longe destaca, na aridez quase uniforme da costa, como um grande ramalhete de verdura.»
Não há grandiloquência neste texto. O Camões-histórico é referido como «um pobre procurador dos defuntos e ausentes» que deambulava por aquelas bandas e se refugiava à sombra de três grandes pedras, a suposta «gruta». A cidade de Macau, «pequenino domínio» português, vê-se reduzida a «uma língua de rocha, apenas percetível nas cartas geográficas». E, no entanto, este jardim tem uma qualquer grandeza, e essa grandeza vem do «encanto natural da posição dominante», dos «horizontes vastos», «da vegetação vigorosa que aqui encontra asilo, conchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões». O texto não é uma apoteose 2 camoniana, e ainda menos um ditirambo 3 imperial; imbuído do espírito japonês, Moraes mostra-se sobretudo tocado pela serenidade de um jardim inesperado, «a face limosa 4 das pedras abruptas», «a solidão das áleas 5 sombreadas», «o encanto dos panoramas» de onde se veem as casas negras, a azáfama do porto, o fogo de artifício. Esta evocação paisagística abdica da faceta «patriótica», mas não deixa de ter o turbulento Camões como improvável patrono daquela tranquilidade, daquela ausência momentânea de amargura, que ele próprio nunca experimentou, e que nos deixa «compenetrados no respeito das coisas».
Três décadas mais tarde, a 10 de junho de 1924, outro grande «asiático» português, Camilo Pessanha, proferiu uma conferência intitulada «Macau e a gruta de Camões». Apesar da ocasião oficial, Pessanha evita igualmente o tom nacionalista. A grande questão que o preocupa é a possibilidade ou impossibilidade de um poeta continuar a ser poeta em terras distantes, uma vez que «a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e com profundas raízes, no húmus 6 do solo natal». Pessanha tem um entendimento bucólico, localista, da poesia, ou da sua origem, e não esconde o seu ceticismo: não há verdadeira capacidade poética quando a pátria está distante. A gruta de Camões suscita-lhe então uma ideia original: a do génio como ilusão de estar em casa.
Pedro Mexia, «Camões em Macau», Lá Fora, Lisboa, Edições Tinta-da-china, 2018, pp. 86-87.
NOTAS
1 mamelões – colinas; outeiros.
2 apoteose – homenagem grandiosa.
3 ditirambo – poesia de carácter elogioso.
4 limosa – coberta de algas.
5 áleas – ruas ladeadas por árvores.
6 húmus – matéria orgânica resultante da decomposição de detritos vegetais e animais.
4.
As palavras sublinhadas nas sequências «tal como o encontrou» (linha 3) e «uma qualquer grandeza, e essa grandeza » (linha 12) são mecanismos que contribuem para a coesão
5.
Na expressão «que deambulava por aquelas bandas e se refugiava» (linha 9), exprime-se, simultaneamente,
6.
A única expressão que desempenha a função sintática de complemento oblíquo é
7.
A oração iniciada pela palavra «que» (linha 20) e a oração iniciada pela expressão «uma vez que» (linha 26) são subordinadas

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
4. As palavras sublinhadas nas sequências «tal como o encontrou» (linha 3) e «uma qualquer grandeza, e essa grandeza» (linha 12) são mecanismos que contribuem para a coesão
Resposta: (D) gramatical referencial, no primeiro caso, e lexical por reiteração, no segundo caso.
5. Na expressão «que deambulava por aquelas bandas e se refugiava» (linha 9), exprime-se, simultaneamente,
Resposta: (C) uma situação habitual e um valor imperfetivo.
6. A única expressão que desempenha a função sintática de complemento oblíquo é
Resposta: (D) «da faceta "patriótica"» (linha 19).
7. A oração iniciada pela palavra «que» (linha 20) e a oração iniciada pela expressão «uma vez que» (linha 26) são subordinadas
Resposta: (B) adjetiva relativa explicativa, no primeiro caso, e adverbial causal, no segundo caso.
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