Exame Nacional Português 2023 · 2.ª fase

Exame Nacional de Português 2023, 2.ª fase: 13 exercícios com resolução. Temas: Padre António Vieira: Sermão de Santo António. Com correção imediata.

Temas do exame: Padre António Vieira: Sermão de Santo António · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Apreciação crítica de uma imagem

Grupo I - Item 1 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho.

Eu sou um rei

Que voluntariamente abandonei

5 O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calmas entreguei;

E meu cetro e coroa, — eu os deixei

Na antecâmara, feitos em pedaços.

10 Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas, de um tinir tão fútil,

Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma

15 Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2018, p. 57.

OBSERVAÇÃO: As linhas 2 e 3 constituem um único verso.

1. O sujeito poético metaforiza a sua existência definindo-se como um rei.

Caracterize a atitude desse rei ao longo do poema.

Grupo I - Item 2 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho.

Eu sou um rei

Que voluntariamente abandonei

5 O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calmas entreguei;

E meu cetro e coroa, — eu os deixei

Na antecâmara, feitos em pedaços.

10 Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas, de um tinir tão fútil,

Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma

15 Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2018, p. 57.

OBSERVAÇÃO: As linhas 2 e 3 constituem um único verso.

2. Relacione o sentido dos dois últimos versos do poema com a apóstrofe à «noite», presente nos versos 1 e 2.

Grupo I - Item 3 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho.

Eu sou um rei

Que voluntariamente abandonei

5 O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calmas entreguei;

E meu cetro e coroa, — eu os deixei

Na antecâmara, feitos em pedaços.

10 Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas, de um tinir tão fútil,

Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma

15 Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2018, p. 57.

OBSERVAÇÃO: As linhas 2 e 3 constituem um único verso.

3. Considere as afirmações seguintes sobre o poema.

Identifique as duas afirmações falsas.

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Grupo I - Item 4 · Padre António Vieira: Sermão de Santo António

PARTE B

Leia o texto e as notas.

Este excerto, extraído do Sermão de Sto. António (aos peixes), integra-se no capítulo III, no qual Vieira elogia os peixes em geral, constituindo a parte final do elogio ao Santo Peixe de Tobias.

Abria S. António a boca contra os Hereges, e enviava-se a eles 1, levado do fervor e zelo da

Fé e glória divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias 2 e assombravam-se com aquele

homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um Anjo que revelasse

qual é o coração desse homem e esse fel que tanto vos amarga, quão proveitoso e quão

5 necessário vos é! Se vós lhe abrísseis esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo

que havíeis de achar e conhecer claramente nelas que só duas cousas pretende de vós,

e convosco: uma é alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os Demónios fora

de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos Demónios,

perseguis vós?! Só uma diferença havia entre S. António e aquele Peixe 3: que o Peixe abriu

10 a boca contra quem se lavava, e S. António abria a sua contra os que se não queriam lavar.

Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas

entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a

vós, prego aos peixes.

Padre António Vieira, Sermão de Sto. António (aos peixes) e Sermão da Sexagésima, edição de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Seara Nova, 1978, pp. 77-78.

NOTAS

1 enviava-se a eles – investia contra eles.

2 Tobias – personagem bíblica que gritou quando um peixe com poderes curativos investiu contra ele nas margens de um rio.

3 aquele Peixe – referência ao Santo Peixe de Tobias, cujo fel curou a cegueira do pai de Tobias e cujo coração, ao ser queimado, expulsou os demónios de sua casa.

4. Explique as relações estabelecidas, por um lado, entre Santo António e o peixe mencionado no excerto e, por outro lado, entre os «Hereges» (linha 1) e os homens interpelados na linha 3.

Grupo I - Item 5 · Padre António Vieira: Sermão de Santo António

PARTE B

Leia o texto e as notas.

Este excerto, extraído do Sermão de Sto. António (aos peixes), integra-se no capítulo III, no qual Vieira elogia os peixes em geral, constituindo a parte final do elogio ao Santo Peixe de Tobias.

Abria S. António a boca contra os Hereges, e enviava-se a eles 1, levado do fervor e zelo da

Fé e glória divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias 2 e assombravam-se com aquele

homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um Anjo que revelasse

qual é o coração desse homem e esse fel que tanto vos amarga, quão proveitoso e quão

5 necessário vos é! Se vós lhe abrísseis esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo

que havíeis de achar e conhecer claramente nelas que só duas cousas pretende de vós,

e convosco: uma é alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os Demónios fora

de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos Demónios,

perseguis vós?! Só uma diferença havia entre S. António e aquele Peixe 3: que o Peixe abriu

10 a boca contra quem se lavava, e S. António abria a sua contra os que se não queriam lavar.

Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas

entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a

vós, prego aos peixes.

Padre António Vieira, Sermão de Sto. António (aos peixes) e Sermão da Sexagésima, edição de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Seara Nova, 1978, pp. 77-78.

NOTAS

1 enviava-se a eles – investia contra eles.

2 Tobias – personagem bíblica que gritou quando um peixe com poderes curativos investiu contra ele nas margens de um rio.

3 aquele Peixe – referência ao Santo Peixe de Tobias, cujo fel curou a cegueira do pai de Tobias e cujo coração, ao ser queimado, expulsou os demónios de sua casa.

5. Justifique o sentimento evidenciado pelo pregador no final do excerto, bem como o recurso à ironia (linhas 11 a 13).

Grupo I - Item 6 · Padre António Vieira: Sermão de Santo António

PARTE B

Leia o texto e as notas.

Este excerto, extraído do Sermão de Sto. António (aos peixes), integra-se no capítulo III, no qual Vieira elogia os peixes em geral, constituindo a parte final do elogio ao Santo Peixe de Tobias.

Abria S. António a boca contra os Hereges, e enviava-se a eles 1, levado do fervor e zelo da

Fé e glória divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias 2 e assombravam-se com aquele

homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um Anjo que revelasse

qual é o coração desse homem e esse fel que tanto vos amarga, quão proveitoso e quão

5 necessário vos é! Se vós lhe abrísseis esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo

que havíeis de achar e conhecer claramente nelas que só duas cousas pretende de vós,

e convosco: uma é alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os Demónios fora

de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos Demónios,

perseguis vós?! Só uma diferença havia entre S. António e aquele Peixe 3: que o Peixe abriu

10 a boca contra quem se lavava, e S. António abria a sua contra os que se não queriam lavar.

Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas

entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a

vós, prego aos peixes.

Padre António Vieira, Sermão de Sto. António (aos peixes) e Sermão da Sexagésima, edição de Margarida Vieira Mendes, Lisboa, Seara Nova, 1978, pp. 77-78.

NOTAS

1 enviava-se a eles – investia contra eles.

2 Tobias – personagem bíblica que gritou quando um peixe com poderes curativos investiu contra ele nas margens de um rio.

3 aquele Peixe – referência ao Santo Peixe de Tobias, cujo fel curou a cegueira do pai de Tobias e cujo coração, ao ser queimado, expulsou os demónios de sua casa.

6. Selecione a opção que completa corretamente a frase seguinte.

Neste excerto, a estratégia argumentativa usada pelo pregador para cumprir os objetivos da eloquência (« docere », « delectare » e « movere ») desenvolve-se através de recursos variados, nomeadamente

Grupo I - Item 7 · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

PARTE C

7. Eça de Queirós revela nos seus romances um agudo olhar crítico sobre a sociedade do seu tempo.

Escreva uma breve exposição na qual explicite dois aspetos que são objeto de crítica social em Os Maias ou em A Ilustre Casa de Ramires.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual explicite dois aspetos que são objeto de crítica na obra selecionada, fundamentando cada um desses aspetos em, pelo menos, um exemplo significativo;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Comece por indicar, na folha de respostas, o título da obra por si selecionada.

Grupo II - Item 1 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

1.

No parágrafo inicial do texto, o autor apresenta uma tese que retomará no terceiro parágrafo e que consiste em considerar que, relativamente à leitura,

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Grupo II - Item 2 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

2. Ao caracterizar os hábitos de leitura das «nossas cidades civilizadas» (linha 9), o autor adota

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Grupo II - Item 3 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

3. No segundo parágrafo do texto, através do recurso à figura de Gulliver e ao uso da interrogação retórica, o autor pretende

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Grupo II - Item 4 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

4. O autor evoca as revoltas estudantis no final da década de 1960 para confirmar a sua tese de que é importante

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Grupo II - Item 5 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

5. No segundo parágrafo, o autor recorre predominantemente a formas verbais no modo condicional para

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Grupo II - Item 6 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

6. No contexto em que ocorrem, «repositório» (linha 23) e «biblioteca» (linha 24) contribuem para a coesão lexical por substituição, tal como acontece na relação estabelecida entre as expressões

Grupo II - Item 7 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria 1 exclusivos da Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado 2 e o livro lido entra novamente em jogo.

Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos que surpreenderiam esse Gulliver 3 antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura. Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares, edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes, como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.

Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de ler — outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo — é agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente do que uma entidade viva.

Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer uso da Biblioteca de Babel 4; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

NOTAS

1 scriptoria – nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.

2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.

3 Gulliver – protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.

4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

7. O único caso em que a expressão iniciada por «para» desempenha a função sintática de complemento oblíquo é o da expressão

Grupo III · Apreciação crítica de uma imagem

* GRUPO III

Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica da imagem apresentada ao lado.

O seu texto deve incluir:

a descrição da imagem, destacando elementos significativos da sua composição;

um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo;

uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.

Observações:

1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2023/).

2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

– um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

– um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

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Pratica um tema com exercícios dos exames de todos os anos, misturados.

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