Exame Nacional Português 2022 · 2.ª fase
Exame Nacional de Português 2022, 2.ª fase: 6 exercícios com resolução. Temas: Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde. Com correção imediata.
Temas do exame: Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Saramago, contos e poesia contemporânea · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião
Grupo I · Saramago, contos e poesia contemporânea
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Leia o texto.
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, colecionar colheres do século XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstrata, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstrata.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode dizer-se que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distração pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distração. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é ótima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exatamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Sophia de Mello Breyner Andresen, «Retrato de Mónica», in Contos Exemplares, Porto, Porto Editora, 2013, pp. 105-106.
1.
O retrato de Mónica adquire contornos de caricatura ao serviço da crítica social.
Explicite dois aspetos significativos da construção desse retrato.
2.
Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.
Com a expressão «qualquer distração pode causar a morte do artista» (linhas 19 e 20), o narrador pretende evidenciar que a perfeição perseguida por Mónica a obriga a uma
()
3.
«Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exatamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio.» (linhas 27 a 29).
Explique as afirmações do narrador acima transcritas.
Grupo I · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde
PARTE B
Leia o poema e as notas.
Vaidosa
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
5 Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas 1,
10 A déspota, a fatal, o figurino 2,
E afirmam que és um molde alabastrino 3,
E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio 4
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
15 E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes 5
20 E possuis muito amor... muito amor-próprio.
Cesário Verde, Obra Completa, edição de Joel Serrão, Lisboa, Livros Horizonte, 1988, p. 77.
NOTAS
1 fátuas – vaidades.
2 figurino – modelo; exemplo de moda.
3 alabastrino – de alabastro, mármore branco e translúcido.
4 martirológio – narrativa do martírio dos mártires e santos.
5 messes – searas maduras.
4.
Refira dois efeitos de sentido provocados pela utilização de verbos na terceira pessoa do plural (versos 1, 5, 9, 11, 13 e 15) na construção do retrato da figura feminina.
5.
Explicite, com base em dois aspetos significativos, o modo como o sujeito poético perspetiva a relação que se estabelece entre si e a mulher representada no poema.
6.
Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.
A mulher «fatal» (v. 10) descrita no poema é caracterizada como insensível e cruel, ao ser associada, respetivamente, a expressões como
Grupo I - 7 · Saramago, contos e poesia contemporânea
PARTE C
7. Baseando-se na leitura dos textos apresentados nas Partes A e B desta prova, escreva uma breve exposição na qual compare as duas figuras femininas neles retratadas.
A sua exposição deve incluir:
uma introdução ao tema;
um desenvolvimento no qual explicite um aspeto em que as figuras femininas se aproximam e um outro em que se distinguem;
uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Grupo II · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A experiência mostrou-nos que, regra geral, não são apenas os juízos estéticos e éticos
que diferem de uma cultura para outra mas também os juízos de verdade e, por vezes, a
própria noção de verdade. [...]
Esta consciência da relatividade dos sistemas de valores e da contingência dos juízos
5 influencia hoje numerosos estudos históricos e culturais. Ela ajuda-nos a libertarmo-nos um
pouco do nosso provincialismo natural. Permite igualmente retificar a nossa visão deturpada
pelo imperialismo europeu de que somos filhos e que nos leva a crer que o ponto de vista
ocidental é o único razoável. Ajuda-nos a compreender que aquilo que é verdadeiro, belo
e justo para nós não o é forçosamente para os outros. Se a própria ciência não consegue
10 dar-nos certezas, seríamos completamente obtusos se tomássemos por ouro puro aquilo que
somos os únicos a acreditar ser verdadeiro.
Saudável e importante, essa consciência do outro é, no entanto, por vezes, caricaturada
numa relativização completa de todos os valores: a conclusão de que todas as opiniões
são igualmente verdadeiras; que todos os juízos éticos e morais devem ser considerados
15 equivalentes; que falar de certo e de errado, ou falar de «verdade», não tem qualquer sentido.
[...] Este relativismo caricatural é a consequência de um equívoco profundo.
Levar a sério ideias diferentes das nossas não equivale a afirmar que todas as ideias são
iguais. Reconhecer que podemos estar errados não significa que as noções de certo e de
errado não façam sentido. Percebermos que um juízo não se forma senão no seio de um
20 complexo ambiente cultural, e que está ligado a muitos outros juízos implícitos, não significa,
de modo algum, que não possamos perceber que estamos errados.
Aprofundando um pouco mais, o problema principal deste relativismo cultural radical é que
ele se contradiz a si mesmo. É certo que não existem valores de verdade absolutos, a-históricos
e aculturais. Nenhum discurso está fora da sua cultura e dos seus sistemas de valores e de
25 verdade. Mas, precisamente por isso, estamos sempre dentro de um sistema cultural, e, dentro
desse sistema, não podemos prescindir de escolhas e de juízos. [...]
Não poderia ser de outra forma, porque pensar é julgar. Viver é decidir, a cada momento.
Não existe noção de verdade fora do nosso universo de discurso, e é precisamente por isso
que nós não podemos senão permanecer dentro de um sistema e não podemos prescindir
30 da noção de verdade. Pensamos e falamos sempre e unicamente em termos dessa noção,
mesmo quando tentamos negá-la.
Por outro lado, isso não implica que devamos assumir que os nossos critérios estéticos,
éticos e de verdade são absolutos e universais, ou que são os melhores. E isso não implica que
devamos preferi-los às variantes que as outras culturas, ou que a própria natureza, ou que a
35 evolução interna do nosso pensamento nos propõem. Porquê? Porque é um aspeto estrutural
do nosso universo linguístico estar aberto ao encontro com outros universos linguísticos. As
diferentes culturas não são bolhas separadas, são vasos comunicantes.
Carlo Rovelli, Anaximandro de Mileto ou o Nascimento do Pensamento Científico,
tradução de Jorge Melícias, Lisboa, Edições 70, 2021, pp. 129-131.
1. Segundo o autor do texto, a diversidade cultural põe em evidência
2. De acordo com o terceiro e o quarto parágrafos, qualquer que seja o contexto cultural em causa,
3. No texto, o autor defende que, independentemente da consciência de relativismo,
4. No contexto em que ocorre, a expressão «ouro puro» (linha 10) constitui
Grupo II · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A experiência mostrou-nos que, regra geral, não são apenas os juízos estéticos e éticos
que diferem de uma cultura para outra mas também os juízos de verdade e, por vezes, a
própria noção de verdade. [...]
Esta consciência da relatividade dos sistemas de valores e da contingência dos juízos
5 influencia hoje numerosos estudos históricos e culturais. Ela ajuda-nos a libertarmo-nos um
pouco do nosso provincialismo natural. Permite igualmente retificar a nossa visão deturpada
pelo imperialismo europeu de que somos filhos e que nos leva a crer que o ponto de vista
ocidental é o único razoável. Ajuda-nos a compreender que aquilo que é verdadeiro, belo
e justo para nós não o é forçosamente para os outros. Se a própria ciência não consegue
10 dar-nos certezas, seríamos completamente obtusos se tomássemos por ouro puro aquilo que
somos os únicos a acreditar ser verdadeiro.
Saudável e importante, essa consciência do outro é, no entanto, por vezes, caricaturada
numa relativização completa de todos os valores: a conclusão de que todas as opiniões
são igualmente verdadeiras; que todos os juízos éticos e morais devem ser considerados
15 equivalentes; que falar de certo e de errado, ou falar de «verdade», não tem qualquer sentido.
[...] Este relativismo caricatural é a consequência de um equívoco profundo.
Levar a sério ideias diferentes das nossas não equivale a afirmar que todas as ideias são
iguais. Reconhecer que podemos estar errados não significa que as noções de certo e de
errado não façam sentido. Percebermos que um juízo não se forma senão no seio de um
20 complexo ambiente cultural, e que está ligado a muitos outros juízos implícitos, não significa,
de modo algum, que não possamos perceber que estamos errados.
Aprofundando um pouco mais, o problema principal deste relativismo cultural radical é que
ele se contradiz a si mesmo. É certo que não existem valores de verdade absolutos, a-históricos
e aculturais. Nenhum discurso está fora da sua cultura e dos seus sistemas de valores e de
25 verdade. Mas, precisamente por isso, estamos sempre dentro de um sistema cultural, e, dentro
desse sistema, não podemos prescindir de escolhas e de juízos. [...]
Não poderia ser de outra forma, porque pensar é julgar. Viver é decidir, a cada momento.
Não existe noção de verdade fora do nosso universo de discurso, e é precisamente por isso
que nós não podemos senão permanecer dentro de um sistema e não podemos prescindir
30 da noção de verdade. Pensamos e falamos sempre e unicamente em termos dessa noção,
mesmo quando tentamos negá-la.
Por outro lado, isso não implica que devamos assumir que os nossos critérios estéticos,
éticos e de verdade são absolutos e universais, ou que são os melhores. E isso não implica que
devamos preferi-los às variantes que as outras culturas, ou que a própria natureza, ou que a
35 evolução interna do nosso pensamento nos propõem. Porquê? Porque é um aspeto estrutural
do nosso universo linguístico estar aberto ao encontro com outros universos linguísticos. As
diferentes culturas não são bolhas separadas, são vasos comunicantes.
Carlo Rovelli, Anaximandro de Mileto ou o Nascimento do Pensamento Científico,
tradução de Jorge Melícias, Lisboa, Edições 70, 2021, pp. 129-131.
5. Todas as expressões abaixo transcritas ilustram a coesão gramatical referencial, exceto a expressão
6. A expressão «de verdade» (linha 2) e a expressão «de “verdade”» (linha 15) desempenham a função sintática
7. Na frase «Reconhecer que podemos estar errados não significa que as noções de certo e de errado não façam sentido.» (linhas 18 e 19), a palavra «que» introduz
Grupo III · Texto de opinião
GRUPO III
Ao longo da vida, o ser humano é sistematicamente confrontado com a necessidade de tomar decisões, exercendo o direito de as tomar livremente.
Mas será que, em todas as situações, a liberdade de decisão é absoluta?
Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a questão apresentada.
No seu texto:
explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida;
utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2022/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
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