Exame Nacional Português 2021 · 2.ª fase

Exame Nacional de Português 2021, 2.ª fase: 6 exercícios com resolução. Temas: Lírica de Camões e Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde. Grátis.

Temas do exame: Lírica de Camões · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Saramago, contos e poesia contemporânea · Compreensão de texto não literário · Gramática · Apreciação crítica de uma imagem

Grupo I - Parte A · Lírica de Camões

PARTE A

Leia o soneto e as notas.

Correm turvas as águas deste rio,

que as do Céu e as do monte as enturbaram 1;

os campos florecidos se secaram,

intratável 2 se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio 3,

ũas cousas por outras se trocaram;

os fementidos 4 Fados já deixaram

do mundo o regimento 5, ou desvario 6.

Tem o tempo sua ordem já sabida;

o mundo, não; mas anda tão confuso,

que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura 7 e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.

Luís de Camões, Rimas, edição de Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994, p. 168.

NOTAS

1 enturbaram – tornaram turvas.

2 intratável – inacessível; intransitável.

3 estio – tempo quente e seco.

4 fementidos – enganosos.

5 regimento – governo.

6 desvario – loucura; inquietação; excesso.

7 natura – natureza humana.

1.

Explique o modo como a passagem do tempo é representada nas duas primeiras estrofes.

2.

«Tem o tempo sua ordem já sabida; / o mundo, não» (versos 9 e 10).

Explicite a oposição presente nestes versos, tendo em conta a globalidade do poema.

3.

Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.

Neste soneto, além do tema da mudança, também se destaca o tema __________. Perante a realidade que perceciona, o sujeito poético evidencia um sentimento de __________.

Grupo I - Parte B · Saramago, contos e poesia contemporânea

PARTE B

Leia o texto.

Quando cheguei à rua do Fonseca, notei logo que as janelas do quarto andar estavam todas fechadas – hum! A porta da rua trancada. Mau sinal. Ao sol puro e claro da manhã, a fachada reluzia na frescura da pedra branca, dos estuques rosados e novos. O próprio prédio parecia dormir, sereno, sorrindo ao sol, com as pálpebras das cortinas todas descidas. À beira do passeio o Chevrolet do Fonseca, consideravelmente empoeirado, esperava. Mas que silêncio nesta rua nova! A calçadinha do passeio estalava-me debaixo das solas dos sapatos. Não havia remédio senão tocar a campainha. Mas tocariam as campainhas? Outro dia não funcionavam. Há sempre alguma complicação nestes prédios novos: ou falta a água porque a Câmara ainda não abriu as canalizações, ou é o trinco que não funciona, ou não há corrente, ou cortaram o gás.

Enquanto esperava que de cima abrissem a porta (devia estar tudo a postos, era para largarmos às sete, imagine-se!) fui examinar o carro: já teria o pneu cheio? Isso sim: o Chevrolet descaía tristemente sobre um pneu vazio, à retaguarda, como um cavalo sobre uma pata cansada. O Fonseca (tornei a olhar para as janelas: fechadas) ainda não tinha saído da toca. A coisa estava bonita. Se ele já teria metido gasolina? Fui buscar um pauzinho à obra ao lado, desatarraxei o tampão do tanque, e meti o pauzinho para medir o nível: saiu seco. E o radiador, provavelmente, como sempre, não tem pinga de água. Mudar o pneu, meter gasolina, água... Temos para meia hora ou mais. E aqui perto não há uma garagem.

Lá de cima continuavam a não abrir a porta. Ó senhor, passa das oito, e esta gente... Fui-me à campainha e carreguei-lhe furiosamente: nada. Deviam estar mergulhados num sono de chumbo, de morte. À ideia de morte estremeci: quem sabe se não estariam envenenados com o gás da cozinha! Senti-me verdadeiramente inquieto. Se não fosse ali o Chevrolet, havia de julgar que já tinham saído. E era às sete que isto... Ah, mas lá vinha um padeiro, com a toalha branca do cabaz cheia de sol festivo. Ora bom dia! Felizmente há sempre um vizinho que se levanta cedo ao domingo, e come pão fresco ao pequeno-almoço. (Também havia padeiros ao domingo!)

Entrei atrás dele e subi ao último andar. Diante da porta detive-me um momento a escutar: silêncio. Então, quase capaz de me ir embora, de voltar para a minha Umbelina e para o meu domingo, e em todo o caso com uma vontade cruel de fazer violências, carreguei demoradamente no botão da campainha que fazia vibrar a porta de alto a baixo. Aquilo não era campainha, era um motor de avião. Até parecia que as paredes tremiam, e aquela gente sem acordar! Então, danado por me terem forçado a deitar-me tarde e a sair da cama ao cantar do galo, assentei quatro murros na porta, fenomenais. Fiquei com as mãos dormentes.

José Rodrigues Miguéis, «Uma Viagem na Nossa Terra», in Léah e Outras Histórias, 7.ª ed., Lisboa, Estampa, 1982, pp. 46-47.

4.

Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.

Na descrição da fachada e do prédio (linhas 2 a 4), são utilizados alguns recursos expressivos, nomeadamente, a ________, presente em «O próprio prédio parecia dormir, sereno, sorrindo ao sol». Através deste recurso, o narrador transmite ideias ________.

5.

Analise a evolução do estado de espírito do narrador ao longo do excerto.

6.

Refira duas marcas linguísticas que comprovem o uso de um registo que se aproxima da oralidade. Transcreva, para cada uma delas, um exemplo significativo.

Grupo I - Parte C · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

PARTE C

7. Tal como no excerto do conto que acabou de ler o narrador repara na figura do «padeiro» que distribui «pão fresco», também no poema «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, o olhar do sujeito poético se detém, frequentemente, naqueles que trabalham.

Escreva uma breve exposição sobre a «Dor humana» sentida por aqueles que trabalham, no poema «O Sentimento dum Ocidental».

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual refira de que modo duas das personagens observadas pelo sujeito poético comprovam o sofrimento daqueles que trabalham;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - Compreensão · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto.

Um dos filósofos mais originais e discretos do século XX, o russo Pavel Florenskij, escreveu:

«A nossa vida escapa-nos como um sonho, e é possível não chegar a tempo de fazer coisa

alguma neste breve instante que é a vida. Por isso, é necessário aprender a arte de viver, a

mais difícil e a mais importante das artes: a capacidade de conferir a cada hora um conteúdo

5 substancial, conscientes de que aquela hora não tornará jamais.» Pode, de facto, acontecer-nos

«não chegar a tempo» até porque, precisamente, o tempo é uma alta febre que nos toma e que,

não raro, nos atira borda fora da nossa própria embarcação. Desde que ganhámos consciência

de que estamos dentro do tempo, de que somos seres amassados na argila do tempo, deixámos

de ter tempo. A nossa vida, quase por completo, está destinada ao fazer e ao produzir, a essa

10 luta certamente áspera, monótona ou dilacerante, mas também apaixonada, envolvente e, à

sua maneira, vital. Na verdade, não há, à partida, nenhum problema com a vida ativa da qual

dependemos, e não só para garantir a basilar luta pela sobrevivência. O coágulo forma-se

quando a atividade se torna o fim e nós os instrumentos; quando, manhã após manhã, o espelho

testemunha como nos estamos a transformar em elementos puramente instrumentais de uma

15 vida que já não quer saber de nós. Muitas vezes, a esse lampejo de consciência, reagimos

pressionando ainda com mais força o pé contra o acelerador, deixando-nos ir, aceitando que não

nos resta outra forma de aceitar a temporalidade. E tentamo-nos consolar dizendo: «não tenho

vida, mas tenho coisas», «não tenho tempo para nada, mas adquiro poder de compra».

Às nossas sociedades falta uma reflexão séria sobre a completude da experiência humana e

20 sobre as reivindicações – a maior parte delas sufocada – por um estilo de vida mais equilibrado.

O dever ou o direito de fazer não tem de se construir sacrificando a toda a linha o dever ou o

direito de ser. A estimulação para o ativismo não tem de ser tão brutal que insista em queimar

– com a rapidez com que arde um fósforo – todos os recursos, exteriores e interiores, que

alguém possui para viver. A pressa não pode ignorar por completo a lentidão. A vida ativa não

25 tem necessariamente de suprimir a necessidade que cada um de nós sente de contemplação.

Vêm-me ao pensamento os versos do «Canto Noturno de Um Pastor Errante da Ásia», do

poeta Giacomo Leopardi: «Que fazes tu no céu, ó lua? Diz-me / que fazes, silenciosa lua? [...] /

Diz-me ó lua, afinal / que vale ao pastor a sua vida, / ou para que te serve a ti a tua? Diz-me para

que direção / caminha este meu breve vagar / e para onde se dirige o teu curso imortal?» Na

30 composição, o pastor errante contempla a lua. Com que necessidade? Em busca de quê? Em

busca de uma profundidade que porventura nunca conseguiremos atingir completamente, mas

na qual precisamos de nos sentir imersos. Há um horizonte mais amplo, para lá da resolução

individual da minha existência: ficarei incompleto, alguma porção essencial de mim ficará por

se desenvolver, se nunca tiver chegado verdadeiramente a confrontar o «meu breve vagar»

35 com o «curso imortal». Na língua latina, a palavra contemplação deriva da junção de dois

termos: cum e templum, que indicava na antiguidade o espaço aberto nas cúpulas para que se

interpretassem os sinais do futuro. Contemplar é não apenas introduzir uma benéfica lentidão

no nosso olhar. É também colher o tempo da vida como um tecido relacional, uma intersecção

dialógica que dilata ao infinito o sentido da nossa existência.

José Tolentino Mendonça, «Que fazes tu no céu, ó lua?», in E – A Revista do Expresso, 18 de julho de 2020, p. 90.

1.

No primeiro parágrafo, o autor cita Pavel Florenskij com a intenção de

2.

Ao longo do texto, o autor defende que a azáfama da vida ativa

3.

De acordo com o texto, o ser humano, por norma, coloca em primeiro lugar

4.

Do ponto de vista do autor, a arte de saber viver consiste em

5.

Ao recorrer às expressões «alta febre» (linha 6) e «nos atira borda fora da nossa própria embarcação» (linha 7), o autor utiliza

Grupo II - Gramática · Gramática

GRUPO II

Leia o texto.

Um dos filósofos mais originais e discretos do século XX, o russo Pavel Florenskij, escreveu:

«A nossa vida escapa-nos como um sonho, e é possível não chegar a tempo de fazer coisa

alguma neste breve instante que é a vida. Por isso, é necessário aprender a arte de viver, a

mais difícil e a mais importante das artes: a capacidade de conferir a cada hora um conteúdo

5 substancial, conscientes de que aquela hora não tornará jamais.» Pode, de facto, acontecer-nos

«não chegar a tempo» até porque, precisamente, o tempo é uma alta febre que nos toma e que,

não raro, nos atira borda fora da nossa própria embarcação. Desde que ganhámos consciência

de que estamos dentro do tempo, de que somos seres amassados na argila do tempo, deixámos

de ter tempo. A nossa vida, quase por completo, está destinada ao fazer e ao produzir, a essa

10 luta certamente áspera, monótona ou dilacerante, mas também apaixonada, envolvente e, à

sua maneira, vital. Na verdade, não há, à partida, nenhum problema com a vida ativa da qual

dependemos, e não só para garantir a basilar luta pela sobrevivência. O coágulo forma-se

quando a atividade se torna o fim e nós os instrumentos; quando, manhã após manhã, o espelho

testemunha como nos estamos a transformar em elementos puramente instrumentais de uma

15 vida que já não quer saber de nós. Muitas vezes, a esse lampejo de consciência, reagimos

pressionando ainda com mais força o pé contra o acelerador, deixando-nos ir, aceitando que não

nos resta outra forma de aceitar a temporalidade. E tentamo-nos consolar dizendo: «não tenho

vida, mas tenho coisas», «não tenho tempo para nada, mas adquiro poder de compra».

Às nossas sociedades falta uma reflexão séria sobre a completude da experiência humana e

20 sobre as reivindicações – a maior parte delas sufocada – por um estilo de vida mais equilibrado.

O dever ou o direito de fazer não tem de se construir sacrificando a toda a linha o dever ou o

direito de ser. A estimulação para o ativismo não tem de ser tão brutal que insista em queimar

– com a rapidez com que arde um fósforo – todos os recursos, exteriores e interiores, que

alguém possui para viver. A pressa não pode ignorar por completo a lentidão. A vida ativa não

25 tem necessariamente de suprimir a necessidade que cada um de nós sente de contemplação.

Vêm-me ao pensamento os versos do «Canto Noturno de Um Pastor Errante da Ásia», do

poeta Giacomo Leopardi: «Que fazes tu no céu, ó lua? Diz-me / que fazes, silenciosa lua? [...] /

Diz-me ó lua, afinal / que vale ao pastor a sua vida, / ou para que te serve a ti a tua? Diz-me para

que direção / caminha este meu breve vagar / e para onde se dirige o teu curso imortal?» Na

30 composição, o pastor errante contempla a lua. Com que necessidade? Em busca de quê? Em

busca de uma profundidade que porventura nunca conseguiremos atingir completamente, mas

na qual precisamos de nos sentir imersos. Há um horizonte mais amplo, para lá da resolução

individual da minha existência: ficarei incompleto, alguma porção essencial de mim ficará por

se desenvolver, se nunca tiver chegado verdadeiramente a confrontar o «meu breve vagar»

35 com o «curso imortal». Na língua latina, a palavra contemplação deriva da junção de dois

termos: cum e templum, que indicava na antiguidade o espaço aberto nas cúpulas para que se

interpretassem os sinais do futuro. Contemplar é não apenas introduzir uma benéfica lentidão

no nosso olhar. É também colher o tempo da vida como um tecido relacional, uma intersecção

dialógica que dilata ao infinito o sentido da nossa existência.

José Tolentino Mendonça, «Que fazes tu no céu, ó lua?», in E – A Revista do Expresso, 18 de julho de 2020, p. 90.

6.

A oração «que aquela hora não tornará jamais» (linha 5) é

7.

A utilização da expressão «de facto» (linha 5) e do pronome «tua» (linha 28) contribui para a coesão

Grupo III · Apreciação crítica de uma imagem

GRUPO III

Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica da pintura A Engomadeira, da autoria de José de Almada Negreiros.

O seu texto deve incluir:

a descrição da imagem apresentada, destacando elementos significativos da sua composição;

um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo.

José de Almada Negreiros, A Engomadeira, 1938, in www.gulbenkian.pt (consultado em outubro de 2020).

Observações:

Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2021/).

Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

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