Exame Nacional Português 2026 · Época especial

Exame Nacional de Português 2026, Época especial: 6 exercícios com resolução. Temas: Os Lusíadas e Mensagem e Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde.

Temas do exame: Os Lusíadas e Mensagem · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Saramago, contos e poesia contemporânea · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião

Grupo I · Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde

GRUPO I

PARTE A

Leia a contextualização, os dois textos e as notas. A fim de facilitar a eventual referência a elementos textuais, as linhas são numeradas sequencialmente.

Contextualização

No excerto de Os Maias a seguir apresentado, o protagonista do romance, Carlos da Maia, regressa a Lisboa dez anos após ter partido para o estrangeiro.

Por seu lado, no excerto de A Ilustre Casa de Ramires selecionado, três amigos do protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, conversam sobre o carácter desta personagem.

Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho

coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua

triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam

nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um

5 lindo sol dourava o lajedo; batedores 1 de chapéu à faia fustigavam as pilecas 2; três varinas, de

canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios

em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios,

de sobrecasaca 3, politicando.

— Isto é horrível, quando se vem de fora! — exclamou Carlos. — Não é a cidade, é a gente.

10 Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...

— Todavia Lisboa faz diferença — afirmou Ega, muito sério. — Oh, faz muita diferença! Hás

de ver a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta à Avenida.

Foram descendo o Chiado. Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma

sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá

15 deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham rugas, tinham

brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas ombreiras, com

colarinhos à moda. Depois, diante da Livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no braço de Carlos:

— Olha quem ali está, à porta do Baltreschi 4 !

Era o Dâmaso. O Dâmaso, barrigudo, nédio 5, mais pesado, de flor ao peito, mamando um

20 grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente embrutecido de um ruminante farto

e feliz. Ao avistar também os seus dois velhos amigos que desciam, teve um movimento para

se esquivar, refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em

frente de Carlos, com a mão aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbraseara.

— Olá, por cá!... Que grande surpresa!

25 Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo também, indiferente e esquecido.

Eça de Queirós, Os Maias, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pp. 697-698.

Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o

coco 6 à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

— Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o

senhor padre Soeiro quem ele me lembra?

30 — Quem?

— Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza,

a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o senhor padre Soeiro... Os fogachos 7 e

entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro 8 quando

se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e

35 sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris 9, não é verdade?... A imaginação

que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre

atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança

constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A

vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço

40 a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança

terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um

herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre 10, há

mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o

mal, sabem vocês quem ele me lembra?

45 — Quem?...

— Portugal.

Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, Edição «Livros do Brasil», Lisboa, pp. 361-362.

NOTAS

1 batedores – pessoas que, na praça de carruagens, tomavam conta dos animais, enquanto o cocheiro descansava.

2 pilecas – cavalos, éguas ou machos muito magros e com mau aspeto.

3 sobrecasaca – casaco do vestuário masculino, de cerimónia, abotoado na cintura e com abas até ao joelho.

4 Baltreschi – pastelaria conceituada no século XIX, onde se reuniam a aristocracia e a alta burguesia lisboetas.

5 nédio – anafado; gordo.

6 coco – chapéu duro, de copa redonda e aba curvada.

7 fogachos – chamas súbitas e pouco duradouras; impulsos.

8 aferro – dedicação; grande apego.

9 pueris – infantis.

10 sua velha Torre – referência à Torre anexa à casa da família Ramires.

1.

Quando Carlos encontra Dâmaso (linhas 18 a 25), este apresenta uma atitude ambivalente, reveladora de impulsos contraditórios. Descreva essa atitude.

2.

Lisboa, através do olhar de Carlos (linhas 1 a 17), e Gonçalo, através do olhar de João Gouveia (linhas 31 a 46), representam Portugal e os portugueses dos finais do século XIX.

Compare a imagem de Portugal e dos portugueses transmitida por cada uma das personagens, com base em duas oposições entre a perspetiva de Carlos e a perspetiva de João Gouveia.

3.

Identifique, de entre as afirmações referentes à obra de Eça de Queirós, as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura dos excertos apresentados.

Grupo I · Saramago, contos e poesia contemporânea

PARTE B

PARTE B

Leia o poema e as notas.

O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país

aonde o puro pássaro é possível

e sobre o leito negro do asfalto da estrada

as profundas crianças desenharão a giz

5 esse peixe da infância que vem na enxurrada

e me parece que se chama sável 1

Mas desenhem elas o que desenharem

é essa a forma do meu país

e chamem elas o que lhe chamarem

10 portugal será e lá serei feliz

Poderá ser pequeno como este

ter a oeste o mar e a espanha a leste

tudo nele será novo desde os ramos à raiz

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

15 e na avenida que houver à beira-mar

pode o tempo mudar será verão

Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz 2

mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, País Possível, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016, p. 30.

NOTAS

1 sável – peixe migratório, que se reproduz em água doce e que desova em alguns rios portugueses, entre março e maio.

2 matriz – igreja principal de uma localidade.

4.

Explique, com base em dois aspetos, o sentido dos dois primeiros versos do poema.

5.

O poema constrói-se sobre uma imagem do país, assente em ações traduzidas por verbos no futuro do indicativo.

Explicite duas características do «portugal futuro», tendo em conta o recurso a este tempo verbal.

6.

Complete o texto seguinte, selecionando a opção adequada a cada espaço.

Assinale, para cada letra, o número da opção selecionada.

Nos três últimos versos, «relógio da matriz» constitui um símbolo associado não só a um tempo de nostalgia, mas também a um tempo (a). Por conseguinte, o sujeito poético (b).

(a)

(b)

()

()

Grupo I - 7 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE C

7. Tal como Eça de Queirós e Ruy Belo, também Luís de Camões refletiu sobre Portugal e os portugueses ao escrever a sua epopeia.

Escreva uma breve exposição na qual comprove a veracidade da afirmação anterior, baseando-se na sua experiência de leitura de Os Lusíadas.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual explicite duas reflexões do Poeta sobre o seu país e os seus contemporâneos, fundamentando cada um dos aspetos referidos em, pelo menos, um exemplo significativo;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - 1 a 4 · Compreensão de texto não literário

Leia o texto.

Evitar o sofrimento é um ato instintivo que integra a experiência humana. Do mesmo modo

que tendemos a fugir daquilo que nos ameaça, procuramos proteger aqueles que amamos

das palavras que anunciam desconforto e das emoções difíceis. Mas, por que razão é que

resistimos aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão? Porque somos

5 confrontados com a vulnerabilidade humana, e esta assusta.

Escutar o sofrimento dos outros é tocar também no nosso, por isso, perante uma história

marcada pela dor, apressamo-nos a oferecer uma espécie de consolo encapsulado em

afirmações ligeiras, na maior parte das vezes com boa intenção, mas que, em vez de provocar

alívio, isola quem ouve. «Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu», ou «Pensa

10 positivo!». Este hábito individual, e social, de fugir às emoções adversas, associado à ideia

de que existe sempre algo bom em tudo o que acontece, abafa as vicissitudes da vida com

a falsa positividade do «Vai ficar tudo bem» e reflete um brilho enganador de uma felicidade

constante que, na verdade, pode conduzir à invalidação da experiência emocional e dificultar a

integração ajustada da mesma.

15 É essencial relembrar que são os sentimentos que nos definem enquanto seres humanos

e sociais, e que, além disso, todos têm um valor e uma função. Contudo, é cada vez mais

notória a dificuldade das pessoas em abraçar aqueles sentimentos que trazem desafios e

constrangimentos — quer sejam nossos quer dos outros. A tristeza, a raiva, a ansiedade, o

medo, a culpa, entre outros, são tão necessários e legítimos quanto a alegria, o amor e a

20 gratidão. Simplesmente, apontam para necessidades emocionais não satisfeitas, limites

não respeitados e feridas. O problema não é sentir raiva, mas, sim, não saber processá-la.

Aprendemos, então, a construir uma fachada emocional sempre positiva, escondendo a dor

para sermos socialmente aceites e não incomodar ninguém. Como resultado, passamos a

fingir constantemente alegria e satisfação, apesar de carregarmos tristeza ou mágoa.

25 Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis, mas

abafa-os apenas e reforça a dificuldade em os expressar e lidar com eles. Evitar sentir e

negar o lugar das emoções nos acontecimentos de vida apenas fornece um alívio temporário,

porque uma emoção não acolhida não desaparece, apenas prolonga o seu eco e perpetua o

sofrimento. [...]

30 Viver sem aceitar que não vamos estar sempre bem é perder a natureza humana. Negar

aquilo que magoa retira-nos a capacidade de empatia, enfraquece a resiliência face às

adversidades, aumenta a intolerância ao desconforto e dificulta o desenvolvimento da

autocompaixão.

Reconhecer, normalizar e acolher o sofrimento como parte de nós não significa renunciar

35 à alegria ou ao otimismo, mas, sim, abrir espaço para que todas as emoções convivam, sem

culpa ou vergonha. É no acolhimento e na aceitação emocional, não no evitamento, que

reside a possibilidade de dar sentido à nossa experiência. Só assim poderemos escutar,

verdadeiramente, as nossas feridas e as dos outros.

Vera Ramalho, «Valorizar os nossos sentimentos (e os dos outros) quando não está tudo bem», Público, 12 de outubro de 2025, p. 22. (Texto adaptado)

1.

Nos dois parágrafos iniciais, a autora defende a ideia de que a tendência humana para consolar os outros

()

2.

A expressão «"Vai ficar tudo bem"» (linha 12) é apresentada como

()

3.

De acordo com o conteúdo do terceiro e do quarto parágrafos, a «fachada emocional sempre positiva» (linha 22) que aprendemos a construir

()

4.

Nos dois últimos parágrafos, a autora conclui a sua reflexão, defendendo que

()

Grupo II · Gramática

Leia o texto.

Evitar o sofrimento é um ato instintivo que integra a experiência humana. Do mesmo modo

que tendemos a fugir daquilo que nos ameaça, procuramos proteger aqueles que amamos

das palavras que anunciam desconforto e das emoções difíceis. Mas, por que razão é que

resistimos aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão? Porque somos

5 confrontados com a vulnerabilidade humana, e esta assusta.

Escutar o sofrimento dos outros é tocar também no nosso, por isso, perante uma história

marcada pela dor, apressamo-nos a oferecer uma espécie de consolo encapsulado em

afirmações ligeiras, na maior parte das vezes com boa intenção, mas que, em vez de provocar

alívio, isola quem ouve. «Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu», ou «Pensa

10 positivo!». Este hábito individual, e social, de fugir às emoções adversas, associado à ideia

de que existe sempre algo bom em tudo o que acontece, abafa as vicissitudes da vida com

a falsa positividade do «Vai ficar tudo bem» e reflete um brilho enganador de uma felicidade

constante que, na verdade, pode conduzir à invalidação da experiência emocional e dificultar a

integração ajustada da mesma.

15 É essencial relembrar que são os sentimentos que nos definem enquanto seres humanos

e sociais, e que, além disso, todos têm um valor e uma função. Contudo, é cada vez mais

notória a dificuldade das pessoas em abraçar aqueles sentimentos que trazem desafios e

constrangimentos — quer sejam nossos quer dos outros. A tristeza, a raiva, a ansiedade, o

medo, a culpa, entre outros, são tão necessários e legítimos quanto a alegria, o amor e a

20 gratidão. Simplesmente, apontam para necessidades emocionais não satisfeitas, limites

não respeitados e feridas. O problema não é sentir raiva, mas, sim, não saber processá-la.

Aprendemos, então, a construir uma fachada emocional sempre positiva, escondendo a dor

para sermos socialmente aceites e não incomodar ninguém. Como resultado, passamos a

fingir constantemente alegria e satisfação, apesar de carregarmos tristeza ou mágoa.

25 Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis, mas

abafa-os apenas e reforça a dificuldade em os expressar e lidar com eles. Evitar sentir e

negar o lugar das emoções nos acontecimentos de vida apenas fornece um alívio temporário,

porque uma emoção não acolhida não desaparece, apenas prolonga o seu eco e perpetua o

sofrimento. [...]

30 Viver sem aceitar que não vamos estar sempre bem é perder a natureza humana. Negar

aquilo que magoa retira-nos a capacidade de empatia, enfraquece a resiliência face às

adversidades, aumenta a intolerância ao desconforto e dificulta o desenvolvimento da

autocompaixão.

Reconhecer, normalizar e acolher o sofrimento como parte de nós não significa renunciar

35 à alegria ou ao otimismo, mas, sim, abrir espaço para que todas as emoções convivam, sem

culpa ou vergonha. É no acolhimento e na aceitação emocional, não no evitamento, que

reside a possibilidade de dar sentido à nossa experiência. Só assim poderemos escutar,

verdadeiramente, as nossas feridas e as dos outros.

Vera Ramalho, «Valorizar os nossos sentimentos (e os dos outros) quando não está tudo bem», Público, 12 de outubro de 2025, p. 22. (Texto adaptado)

5.

As orações «quem ouve» (linha 9) e «que não vamos estar sempre bem» (linha 30) classificam-se como

6.

Associe cada uma das expressões, apresentadas na coluna A, à respetiva função sintática, que consta na coluna B.

A cada letra corresponde apenas um número. Assinale, para cada letra, o número da opção selecionada.

COLUNA A

COLUNA B

(a) «aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão» (linha 4)

()

(b) «à invalidação da experiência emocional» (linha 13)

(c) «ao desconforto» (linha 32)

7.

As expressões «“Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu”» (linha 9) e «Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis» (linha 25) exprimem

Grupo III · Texto de opinião

GRUPO III

Para uns, a mudança é a essência da vida; para outros, a mudança é fonte de intranquilidade e de desassossego.

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a afirmação apresentada.

No seu texto:

explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;

utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito);

formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida.

Observações:

Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2026/).

Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

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