Grupo II · Exame Nacional Português Época especial 2026
Tema: Gramática · Do exame Época especial (2026)
Enunciado
Leia o texto.
Evitar o sofrimento é um ato instintivo que integra a experiência humana. Do mesmo modo
que tendemos a fugir daquilo que nos ameaça, procuramos proteger aqueles que amamos
das palavras que anunciam desconforto e das emoções difíceis. Mas, por que razão é que
resistimos aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão? Porque somos
5 confrontados com a vulnerabilidade humana, e esta assusta.
Escutar o sofrimento dos outros é tocar também no nosso, por isso, perante uma história
marcada pela dor, apressamo-nos a oferecer uma espécie de consolo encapsulado em
afirmações ligeiras, na maior parte das vezes com boa intenção, mas que, em vez de provocar
alívio, isola quem ouve. «Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu», ou «Pensa
10 positivo!». Este hábito individual, e social, de fugir às emoções adversas, associado à ideia
de que existe sempre algo bom em tudo o que acontece, abafa as vicissitudes da vida com
a falsa positividade do «Vai ficar tudo bem» e reflete um brilho enganador de uma felicidade
constante que, na verdade, pode conduzir à invalidação da experiência emocional e dificultar a
integração ajustada da mesma.
15 É essencial relembrar que são os sentimentos que nos definem enquanto seres humanos
e sociais, e que, além disso, todos têm um valor e uma função. Contudo, é cada vez mais
notória a dificuldade das pessoas em abraçar aqueles sentimentos que trazem desafios e
constrangimentos — quer sejam nossos quer dos outros. A tristeza, a raiva, a ansiedade, o
medo, a culpa, entre outros, são tão necessários e legítimos quanto a alegria, o amor e a
20 gratidão. Simplesmente, apontam para necessidades emocionais não satisfeitas, limites
não respeitados e feridas. O problema não é sentir raiva, mas, sim, não saber processá-la.
Aprendemos, então, a construir uma fachada emocional sempre positiva, escondendo a dor
para sermos socialmente aceites e não incomodar ninguém. Como resultado, passamos a
fingir constantemente alegria e satisfação, apesar de carregarmos tristeza ou mágoa.
25 Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis, mas
abafa-os apenas e reforça a dificuldade em os expressar e lidar com eles. Evitar sentir e
negar o lugar das emoções nos acontecimentos de vida apenas fornece um alívio temporário,
porque uma emoção não acolhida não desaparece, apenas prolonga o seu eco e perpetua o
sofrimento. [...]
30 Viver sem aceitar que não vamos estar sempre bem é perder a natureza humana. Negar
aquilo que magoa retira-nos a capacidade de empatia, enfraquece a resiliência face às
adversidades, aumenta a intolerância ao desconforto e dificulta o desenvolvimento da
autocompaixão.
Reconhecer, normalizar e acolher o sofrimento como parte de nós não significa renunciar
35 à alegria ou ao otimismo, mas, sim, abrir espaço para que todas as emoções convivam, sem
culpa ou vergonha. É no acolhimento e na aceitação emocional, não no evitamento, que
reside a possibilidade de dar sentido à nossa experiência. Só assim poderemos escutar,
verdadeiramente, as nossas feridas e as dos outros.
Vera Ramalho, «Valorizar os nossos sentimentos (e os dos outros) quando não está tudo bem», Público, 12 de outubro de 2025, p. 22. (Texto adaptado)
5.
As orações «quem ouve» (linha 9) e «que não vamos estar sempre bem» (linha 30) classificam-se como
6.
Associe cada uma das expressões, apresentadas na coluna A, à respetiva função sintática, que consta na coluna B.
A cada letra corresponde apenas um número. Assinale, para cada letra, o número da opção selecionada.
COLUNA A
COLUNA B
(a) «aos sentimentos que incomodam, como a tristeza ou a desilusão» (linha 4)
()
(b) «à invalidação da experiência emocional» (linha 13)
(c) «ao desconforto» (linha 32)
7.
As expressões «“Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu”» (linha 9) e «Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis» (linha 25) exprimem

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
5. As orações «quem ouve» (linha 9) e «que não vamos estar sempre bem» (linha 30) classificam-se como
Resposta: (D) subordinada substantiva relativa, no primeiro caso, e subordinada substantiva completiva, no segundo caso.
6. Associe cada uma das expressões, apresentadas na coluna A, à respetiva função sintática, que consta na coluna B.
Resposta: (a) -> (4) Complemento indireto; (b) -> (5) Complemento oblíquo; (c) -> (2) Complemento do nome
7. As expressões «“Não fiques assim, tenta ver o lado bom do que aconteceu”» (linha 9) e «Certo é que este esconderijo emocional não faz desaparecer os sentimentos difíceis» (linha 25) exprimem
Resposta: (D) a modalidade deôntica com valor de obrigação, no primeiro caso, e a modalidade epistémica com valor de certeza, no segundo caso.
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