Exame Nacional Português 2023 · Época especial
Exame Nacional de Português 2023, Época especial: 11 exercícios com resolução. Temas: Lírica de Camões e Romantismo: Garrett e Camilo. Com correção imediata.
Temas do exame: Lírica de Camões · Romantismo: Garrett e Camilo · Saramago, contos e poesia contemporânea · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião
Grupo I · Saramago, contos e poesia contemporânea
Leia o poema.
SONETO CIENTÍFICO A FINGIR
Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.
5 Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha devastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.
Só não vejo vantagens pela rima.
10 Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro de mais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]
Se me dobro de mais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
15 ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.
E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
20 e depois desviar. Isso é ciência!
Ana Luísa Amaral, O Olhar Diagonal das Coisas,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2022, p. 275.
1.
Nos versos 19 e 20, lê-se «dar o mote ao amor, glosar o tema, / e depois desviar. Isso é ciência!».
Refira dois aspetos que, no poema apresentado, exemplifiquem a transgressão da tradição poética.
2.
Explicite, de acordo com o sentido do poema, as razões pelas quais o sujeito poético transgride algumas regras.
Grupo I - 3 · Saramago, contos e poesia contemporânea
Leia o poema.
SONETO CIENTÍFICO A FINGIR
Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.
5 Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha devastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.
Só não vejo vantagens pela rima.
10 Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro de mais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]
Se me dobro de mais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
15 ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.
E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
20 e depois desviar. Isso é ciência!
Ana Luísa Amaral, O Olhar Diagonal das Coisas,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2022, p. 275.
3. Para reforçar o posicionamento adotado ao longo do poema, o sujeito poético recorre
()
Grupo I · Romantismo: Garrett e Camilo
PARTE B
Leia o texto.
ROMEIRO
Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhuma
evidência: não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso — Deus me ouve —, não
posso criminar ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só
5 lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.
TELMO
Sois injusto.
ROMEIRO
Bem sei o que queres dizer. — E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me
10 procuraram, que por toda a parte... ela mandou mensageiros, dinheiro?
TELMO
Como é certo estar Deus no Céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa
dama que tem Portugal.
ROMEIRO
15 Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais
houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... dos inimigos
desse homem que ela ama... E que sossegue, que seja feliz. — Telmo, adeus!
TELMO
E eu hei de mentir, senhor, eu hei de renegar de vós, como ruim vilão que não sou?
20 ROMEIRO
Hás de, porque eu te mando.
TELMO
(em grande ansiedade)
Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João,
25 meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...
ROMEIRO
O quê?
TELMO
Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...
30 ROMEIRO
E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.
TELMO
Não mo pergunteis.
ROMEIRO
35 Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! — Tiraram-me tudo. (pausa) — E têm um
filho, eles?... — Eu não... — E mais, imagino... Oh, passaram hoje pior noite do que eu. Que
lho leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei já. — Telmo, vai fazer o que te mandei.
TELMO
Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer?
40 ROMEIRO
O que te ordena teu amo. — Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se.) Adeus, adeus, até...
TELMO
(com ansiedade crescente)
Até quando, senhor?
45 ROMEIRO
Até ao dia de juízo.
TELMO
Pois vós?...
ROMEIRO
50 Eu... — Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui
imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê? — D. João de Portugal morreu no dia em
que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele
amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! — Sua mulher que ele já não pode
amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora
55 morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não
há de desonrar a sua viúva. Não: vai; dito por ti terá dobrada força: dize-lhe que falaste com o
romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que quiseres,
mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. De mim já não há senão esse
nome, ainda honrado; a memória dele que fique sem mancha. — Está em tuas mãos, Telmo,
60 entrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa,
edição de Maria João Brilhante, Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 209-214.
4.
Explique a ansiedade manifestada por Telmo, considerando o conteúdo das linhas 1 a 33.
5.
Ao longo da cena, assiste-se à humanização do Romeiro, o que está patente na grandeza moral e no altruísmo manifestados pela personagem.
Justifique esta afirmação com base em dois aspetos presentes no diálogo travado com Telmo a partir da linha 34.
Grupo I - 6 · Romantismo: Garrett e Camilo
PARTE B
Leia o texto.
ROMEIRO
Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhuma
evidência: não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso — Deus me ouve —, não
posso criminar ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só
5 lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.
TELMO
Sois injusto.
ROMEIRO
Bem sei o que queres dizer. — E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me
10 procuraram, que por toda a parte... ela mandou mensageiros, dinheiro?
TELMO
Como é certo estar Deus no Céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa
dama que tem Portugal.
ROMEIRO
15 Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais
houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... dos inimigos
desse homem que ela ama... E que sossegue, que seja feliz. — Telmo, adeus!
TELMO
E eu hei de mentir, senhor, eu hei de renegar de vós, como ruim vilão que não sou?
20 ROMEIRO
Hás de, porque eu te mando.
TELMO
(em grande ansiedade)
Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João,
25 meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...
ROMEIRO
O quê?
TELMO
Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...
30 ROMEIRO
E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.
TELMO
Não mo pergunteis.
ROMEIRO
35 Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! — Tiraram-me tudo. (pausa) — E têm um
filho, eles?... — Eu não... — E mais, imagino... Oh, passaram hoje pior noite do que eu. Que
lho leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei já. — Telmo, vai fazer o que te mandei.
TELMO
Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer?
40 ROMEIRO
O que te ordena teu amo. — Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se.) Adeus, adeus, até...
TELMO
(com ansiedade crescente)
Até quando, senhor?
45 ROMEIRO
Até ao dia de juízo.
TELMO
Pois vós?...
ROMEIRO
50 Eu... — Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui
imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê? — D. João de Portugal morreu no dia em
que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele
amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! — Sua mulher que ele já não pode
amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora
55 morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não
há de desonrar a sua viúva. Não: vai; dito por ti terá dobrada força: dize-lhe que falaste com o
romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que quiseres,
mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. De mim já não há senão esse
nome, ainda honrado; a memória dele que fique sem mancha. — Está em tuas mãos, Telmo,
60 entrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa,
edição de Maria João Brilhante, Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 209-214.
6. Considere as afirmações seguintes sobre o excerto de Frei Luís de Sousa apresentado na prova.
()
Identifique as três afirmações verdadeiras.
Grupo I - 7 · Lírica de Camões
PARTE C
7. Baseando-se na sua experiência de leitura da poesia lírica de Camões, escreva uma breve exposição sobre o modo como o tema do amor é abordado nas redondilhas e nos sonetos camonianos.
A sua exposição deve incluir:
uma introdução ao tema;
um desenvolvimento no qual explicite duas características significativas do amor tal como é representado na poesia lírica camoniana, fundamentando cada uma dessas características em, pelo menos, um exemplo significativo;
uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Grupo II - 1 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
1. De acordo com o referido no texto, a linguagem humana e o pensamento são
()
Grupo II - 2 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
2. No segundo parágrafo do texto, o carácter simbólico da linguagem humana é reforçado
()
Grupo II - 3 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
3. De acordo com o autor do texto, recorre-se aos emoticons para
()
Grupo II - 4 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
4. As orações «talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos» (linhas 29 e 30) e «mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie» (linhas 30 e 31) exprimem
()
Grupo II - 5 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
5. Todos os constituintes sublinhados desempenham a função sintática de complemento do adjetivo, exceto em
()
Grupo II - 6 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
6. Em «de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes» (linhas 10 e 11), o pronome pessoal sublinhado está anteposto ao verbo por estar
()
Grupo II - 7 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A linguagem humana, baseada em símbolos, é inseparável da autoconsciência, pelo menos no sentido de que a única espécie de animais plenamente conscientes de si próprios, a nossa, é também a única espécie simbólica e linguística. Pelo mesmo motivo, ficamos sem resposta à pergunta de saber se pode existir raciocínio sem a linguagem humana (o contrário é impossível). É difícil ir mais longe, mas também é difícil imaginar uma espécie em que as duas propriedades, a comunicação baseada em símbolos e o pensamento racional, não estejam unidas. Pode raciocinar-se sem palavras? Não é o pensamento, precisamente, um monólogo interior?
Todos os animais comunicam entre si, mas só nós é que o fazemos por meio de símbolos, ou seja, de símbolos arbitrários (fruto do capricho e da invenção) que só são entendidos pela comunidade que os usa e que são incompreensíveis para os restantes, porque não são universais como os instintos. O mesmo é válido tanto para os sons (fonemas) que significam alguma coisa (uma palavra falada), como para uma estrela de cinco pontas no código militar, a borla dos doutorados numa cerimónia académica ou a aliança de casamento na vida social (pelo menos no Ocidente). Nenhum destes sinais está inscrito no nosso genoma. Para codificar conceitos, um objeto de adorno é o mesmo que um ritual fúnebre, uma obra de arte ou um idioma (os objetos de adorno e a arte paleolítica não se criaram para causar uma impressão estética no observador, ou não apenas para isso, mas para comunicar e partilhar ideias).
Cada um de nós, seres humanos, utiliza o nosso idioma, o da nossa comunidade linguística, quando mantemos conversas digitais, em chats, mas recorremos com frequência, o que é curioso, aos emoticons para conseguirmos que realmente nos compreendam. E estes ícones são internacionais e valem para todos os países. Não estão em inglês, espanhol, árabe ou chinês. Sem os emoticons perdem-se nuances importantes, como a ironia, o enfado, a simpatia, a cumplicidade, o amor, o humor, o pesar, etc. São os melhores veículos, mais eficazes e mais seguros, para transmitir emoções, mais do que as palavras escritas. Substituem as inflexões do tom de voz e a linguagem corporal que se perdem num chat. Ninguém é capaz de estar a falar durante muito tempo num tom neutro sem mexer um músculo, numa conversa em pessoa.
Olhe, leitor, para um quadro de emoticons. Verá que muitos deles correspondem a expressões faciais. Toda a gente os percebe, talvez por se terem generalizado com o uso dos telemóveis e de outros dispositivos, mas também, seguramente, porque fazem parte do património biológico da espécie e estão, como se costuma dizer, nos nossos genes (todos os seres humanos choram quando estão tristes). Pode ver-se assim como a biologia e a cultura convivem e se complementam nos seres humanos. Cada comunidade fala o seu idioma (a cultura), mas todos usamos os mesmos emoticons (a biologia).
Juan Luis Arsuaga, Vida, a Grande História – Uma Viagem pelo Labirinto da Evolução,
Lisboa, Temas e Debates, 2021, pp. 450-451.
7. As orações iniciadas por «que» na linha 12 e na linha 28 classificam-se como
()
Grupo III · Texto de opinião
GRUPO III
Na sociedade contemporânea, tão frequentemente caracterizada pelo individualismo, será possível o ser humano experienciar um amor em que, espontaneamente, coloca a felicidade do ser amado em primeiro lugar?
Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a questão apresentada.
No seu texto:
explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida;
utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).
Observações:
1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2023/).
2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
Também podes estudar por temas
Pratica um tema com exercícios dos exames de todos os anos, misturados.
- Compreensão de texto não literário · 45 exercícios · 80 % de probabilidade de sair
- Gramática · 40 exercícios · 80 % de probabilidade de sair
- Saramago, contos e poesia contemporânea · 14 exercícios · 55 % de probabilidade de sair
- Texto de opinião · 10 exercícios · 55 % de probabilidade de sair
- Apreciação crítica de uma imagem · 8 exercícios · 45 % de probabilidade de sair
- Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · 16 exercícios · 40 % de probabilidade de sair