Exame Nacional Português 2021 · Época especial
Exame Nacional de Português 2021, Época especial: 11 exercícios com resolução. Temas: Os Lusíadas e Mensagem e Romantismo: Garrett e Camilo. Grátis.
Temas do exame: Os Lusíadas e Mensagem · Romantismo: Garrett e Camilo · Saramago, contos e poesia contemporânea · Compreensão de texto não literário · Gramática · Apreciação crítica de uma imagem
Grupo I · Saramago, contos e poesia contemporânea
CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
5 nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
10 suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
15 terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
20 até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
25 iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11/6/1961
Jorge de Sena, Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Guimarães, 2010, p. 127.
1.
Explicite duas das acusações que o sujeito poético faz aos seus contemporâneos, de acordo com o conteúdo dos versos de 1 a 11.
2.
«Não importa nada: que o castigo / será terrível» (versos 12 e 13).
Explique o modo como o sujeito poético prevê a concretização do castigo.
Grupo I - 3 · Saramago, contos e poesia contemporânea
CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
5 nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
10 suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
15 terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
20 até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
25 iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11/6/1961
Jorge de Sena, Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Guimarães, 2010, p. 127.
3. Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação abaixo apresentada.
Ao longo do poema, o sujeito poético exprime, entre outros, um sentimento de _______ que é evidenciado por artifícios como _______.
Grupo I · Os Lusíadas e Mensagem
PARTE B
Leia as estâncias de 52 a 55 do canto IX de Os Lusíadas e as notas.
Est. 52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
5 Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália 1, que tudo, enfim, podia.
Est. 53
Mas firme a fez e imóbil, como viu
10 Que era dos Nautas vista e demandada,
Qual ficou Delos 2, tanto que pariu
Latona 3 Febo 4 e a Deusa à caça usada 5.
Pera lá logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia ũa enseada
15 Curva e quieta, cuja branca areia
Pintou de ruivas conchas Citereia 6.
Est. 54
Três fermosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo 7 esmalte 8 se adornavam,
20 Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e límpidas manavam 9
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa 10 fugitiva.
Est. 55
25 Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde ũa mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
30 Como que pronto está pera afeitar-se 11,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE-IC, 2003, p. 236.
NOTAS
1 Acidália – Vénus.
2 Delos – ilha errante que se tornou firme quando nela Latona deu à luz Apolo.
3 Latona – mãe de Apolo.
4 Febo – deus Apolo.
5 Deusa à caça usada – Diana, deusa da caça.
6 Citereia – Vénus.
7 gramíneo – relativo a relva.
8 esmalte – cor.
9 manavam – jorravam; fluíam com abundância.
10 linfa – água.
11 afeitar-se – preparar-se; enfeitar-se.
4.
A representação da Natureza, tal como ela surge nas estâncias transcritas, está de acordo com o modelo clássico.
Justifique esta afirmação com base em duas características da «Ilha».
5.
A linguagem utilizada na descrição da «Ilha» possui um forte carácter sensorial.
Refira dois dos sentidos privilegiados nessa descrição e exemplifique cada um deles com uma transcrição pertinente.
Grupo I - 6 · Os Lusíadas e Mensagem
PARTE B
Leia as estâncias de 52 a 55 do canto IX de Os Lusíadas e as notas.
Est. 52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
5 Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália 1, que tudo, enfim, podia.
Est. 53
Mas firme a fez e imóbil, como viu
10 Que era dos Nautas vista e demandada,
Qual ficou Delos 2, tanto que pariu
Latona 3 Febo 4 e a Deusa à caça usada 5.
Pera lá logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia ũa enseada
15 Curva e quieta, cuja branca areia
Pintou de ruivas conchas Citereia 6.
Est. 54
Três fermosos outeiros se mostravam,
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramíneo 7 esmalte 8 se adornavam,
20 Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Claras fontes e límpidas manavam 9
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa linfa 10 fugitiva.
Est. 55
25 Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras águas ajuntar-se,
Onde ũa mesa fazem, que se estende
Tão bela quanto pode imaginar-se.
Arvoredo gentil sobre ela pende,
30 Como que pronto está pera afeitar-se 11,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE-IC, 2003, p. 236.
NOTAS
1 Acidália – Vénus.
2 Delos – ilha errante que se tornou firme quando nela Latona deu à luz Apolo.
3 Latona – mãe de Apolo.
4 Febo – deus Apolo.
5 Deusa à caça usada – Diana, deusa da caça.
6 Citereia – Vénus.
7 gramíneo – relativo a relva.
8 esmalte – cor.
9 manavam – jorravam; fluíam com abundância.
10 linfa – água.
11 afeitar-se – preparar-se; enfeitar-se.
6. Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.
O discurso camoniano é rico em recursos expressivos. Por exemplo, no verso 31, está presente uma ________ que realça as ideias ________.
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Grupo I - 7 · Romantismo: Garrett e Camilo
PARTE C
7. Manuel de Sousa Coutinho é considerado por alguns autores como a personagem mais forte de Frei Luís de Sousa. Essa força, quer interior quer guerreira, resulta de um compromisso com a sua consciência.
Baseando-se na sua experiência de leitura da peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, escreva uma breve exposição sobre a força interior e/ou guerreira que caracteriza Manuel de Sousa Coutinho.
A sua exposição deve incluir:
uma introdução ao tema;
um desenvolvimento no qual refira dois momentos da ação dramática em que a força interior e/ou guerreira de Manuel de Sousa Coutinho se tenha manifestado;
uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Grupo II - 1 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
1. Segundo o autor, o jardim constitui uma visão «antinatural» (linha 2), na medida em que
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Grupo II - 2 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
2. Independentemente das funções específicas que lhe são atribuídas, através do jardim, o homem continua a desejar, acima de tudo,
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Grupo II - 3 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
3. Na perspetiva do autor, expressa no último parágrafo, o jardim acaba por constituir um espaço contraditório, pois
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Grupo II - 4 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
4. No contexto em que ocorrem, a repetição da palavra «jardim» (linhas 1, 2, 9, 13, 14, 16, 25 e 31), por um lado, e o uso de «Mas» (linha 16) e de «Por isso» (linha 25), por outro lado, contribuem
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Grupo II - 5 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
5. A palavra «olhar» em «representação do olhar do homem» (linha 1) exemplifica o mesmo processo de formação de palavras que se verifica em
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Grupo II - 6 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
6. Todas as orações seguintes são subordinadas adjetivas relativas, exceto a oração
Grupo II - 7 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
35 futuro renascimento.
Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,
Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.
7. Através das expressões «poderá sempre haver» (linha 26) e «arrastará necessariamente» (linha 34), transmite-se uma ideia de
Grupo III · Apreciação crítica de uma imagem
GRUPO III
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica da pintura O banco, da autoria do pintor francês Edouard Manet.
O seu texto deve incluir:
a descrição da imagem apresentada, destacando elementos significativos da sua composição;
um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, três aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo.
Observações:
Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2021/).
Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
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