Exame Nacional Português 2022 · Época especial
Exame Nacional de Português 2022, Época especial: 6 exercícios com resolução. Temas: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente. Com correção imediata.
Temas do exame: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Apreciação crítica de uma imagem
Grupo I · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Leia o poema.
Leia o poema.
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
5 Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono,
Como à força de sentir, fico só a pensar.
Se, de noite, deitado mas desperto
10 Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
15 Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.
20 Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
25 De várias cores.
11/5/1934
Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, pp. 491-492.
1.
Relacione o conteúdo do verso 7 com o dos primeiros seis versos do poema.
2.
Na segunda estrofe, o sujeito poético manifesta o desejo de sonhar algo diferente da realidade.
Explicite o contexto em que ocorre a manifestação desse desejo, bem como a razão pela qual o sujeito poético não o consegue concretizar.
3.
Tanto no verso 8 como no verso 22, são enunciados processos de transformação no sujeito poético, ambos associados a uma ideia de intensificação.
Explicite esses processos de transformação.
4.
Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.
De entre os vários processos que contribuem para imprimir ritmo ao poema, destaca-se a presença, em simultâneo,
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Grupo I · Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente
PARTE B
Leia o excerto de Quem tem farelos?, a contextualização apresentada e as notas.
Contextualização
Neste excerto, é reproduzido o diálogo entre dois criados, Apariço e Ordoño, este último de nacionalidade castelhana. Ambos servem escudeiros.
ORDOÑO – Quién es tu amo? 1 Di, hermano 2.
APARIÇO – É o demo que me tome. 3
Morremos ambos de fome
e de lazeira 4 todo ano.
5 ORDOÑO – Con quién vive?
APARIÇO – Que sei eu?!
Vive assi per i, pelado
coma podengo 5 escaldado.
ORDOÑO – De qué sirve?
10 APARIÇO – De sandeu 6.
Pentear e jejuar
tod’o dia sem comer,
cantar e sempre tanger 7,
sospirar e bocijar.
15 Sempre anda falando só.
Faz ũas trovas tam frias,
tam sem graça, tam vazias,
que é cousa pera haver dó.
E presume d’embicado 8,
20 que com isto raivo 9 eu.
Três anos há que sam 10 seu
e nunca lhe vi cruzado 11.
Mas, segundo nós gastamos,
um tostão nos dura um mês.
25 ORDOÑO – Cuerpo de san! Qué coméis?
APARIÇO – Nem de pão nam nos fartamos.
ORDOÑO – Y el caballo?
APARIÇO – Está na pele,
que lhe fura já a ossada.
30 Nam comemos quasi nada,
eu e o cavalo nem ele.
E se o visses brasonar 12
e fingir mais d’esforçado!
E todo o dia aturado
35 se lhe vai em se gabar.
Gil Vicente, Quem tem farelos?, edição de José Camões, in www.ceteatro.pt (consultado em 17 de junho de 2022).
NOTAS
1 Quién es tu amo? – Quem é o teu amo?
2 Di, hermano – Diz, irmão.
3 É o demo que me tome. – O diabo que me leve.
4 lazeera – miséria.
5 podengo – raça de cães.
6 sandeu – parvo; louco.
7 tanger – tocar.
8 presume d’embicado – tem-se na conta de inspirado.
9 raivo – irrito-me.
10 sam – sou.
11 e nunca lhe vi cruzado – e nunca fui pago.
12 brasonar – fazer ostentação; gabar-se.
5.
Através do diálogo transcrito, é possível construir um retrato do escudeiro, amo de Apariço.
Caracterize o escudeiro, explicitando três traços da sua personalidade.
6.
Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.
Tal como se comprova no excerto transcrito, este texto de Gil Vicente foi escrito
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Grupo I - 7 · Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente
PARTE C
7.
Tal como em Quem tem farelos?, também na Farsa de Inês Pereira e no Auto da Feira está patente uma visão crítica e satírica do autor sobre a sociedade do seu tempo.
Escreva uma breve exposição na qual comprove a afirmação anterior, baseando-se na sua experiência de leitura da Farsa de Inês Pereira ou do Auto da Feira.
A sua exposição deve incluir:
uma introdução ao tema;
um desenvolvimento no qual explicite dois aspetos que são objeto de crítica na obra selecionada, fundamentando cada um desses aspetos em, pelo menos, um exemplo significativo;
uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Comece por indicar, na folha de respostas, o título da obra por si selecionada.
Grupo II · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto e a nota.
Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, tem de ser considerado como um «conjunto de recursos herdados do passado», testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a História e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante «pedras vivas», já que as «pedras mortas» dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como um primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade.
Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e das diversas expressões da criatividade e da tradição, estamos a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o «choque de civilizações», mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento. Impõe-se, deste modo, o reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem no continente e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações. E não esqueçamos o contributo do património cultural para a sociedade e o desenvolvimento humano, no sentido de incentivar o diálogo intercultural, o respeito mútuo e a paz, a melhoria da qualidade de vida e a adoção de critérios de uso durável dos recursos culturais do território. Daí a importância da «cooperação responsável» na sociedade contemporânea, através da ação conjugada dos poderes públicos, do mundo da economia e da solidariedade voluntária.
Perante a exigência do reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem e de uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações, realizamos um exercício prático, em que, a propósito da herança cultural e da salvaguarda de marcos de memória, descobrimos a importância do diálogo entre valores e factos, entre ideais e interesses, entre autonomia e heteronomia. O certo é que os valores, quando reconhecidos socialmente, adquirem um carácter de permanência, tornam-se expressão da memória e do movimento, da tradição e da criação e aliam-se às constantes e invariáveis axiológicas 1 numa relação complexa em que o património e a herança culturais se tornam fatores de liberdade, de responsabilidade, de emancipação, de respeito mútuo e de afirmação da dignidade humana. Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialetos, as obras dos artesãos, a culinária ancestral – eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a História e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz.
Guilherme d’Oliveira Martins, Património Cultural – Realidade Viva, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020, pp. 7-9.
NOTA
1 axiológicas – que dizem respeito à axiologia ou à filosofia dos valores.
1.
As palavras de Rabelais, transcritas no texto, confirmam a ideia defendida pelo autor de que o património cultural se caracteriza pela
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2.
No segundo parágrafo, o autor defende a ideia de que
()
3.
De acordo com o desenvolvimento das ideias do autor ao longo do terceiro parágrafo, a enumeração presente nas linhas 33 a 35 exemplifica o modo como
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4.
No contexto em que ocorre, o vocábulo «capital» (linha 9) remete para a ideia de
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Grupo II · Gramática
GRUPO II
Leia o texto e a nota.
Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, tem de ser considerado como um «conjunto de recursos herdados do passado», testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a História e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante «pedras vivas», já que as «pedras mortas» dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como um primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade.
Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e das diversas expressões da criatividade e da tradição, estamos a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o «choque de civilizações», mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento. Impõe-se, deste modo, o reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem no continente e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações. E não esqueçamos o contributo do património cultural para a sociedade e o desenvolvimento humano, no sentido de incentivar o diálogo intercultural, o respeito mútuo e a paz, a melhoria da qualidade de vida e a adoção de critérios de uso durável dos recursos culturais do território. Daí a importância da «cooperação responsável» na sociedade contemporânea, através da ação conjugada dos poderes públicos, do mundo da economia e da solidariedade voluntária.
Perante a exigência do reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem e de uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações, realizamos um exercício prático, em que, a propósito da herança cultural e da salvaguarda de marcos de memória, descobrimos a importância do diálogo entre valores e factos, entre ideais e interesses, entre autonomia e heteronomia. O certo é que os valores, quando reconhecidos socialmente, adquirem um carácter de permanência, tornam-se expressão da memória e do movimento, da tradição e da criação e aliam-se às constantes e invariáveis axiológicas 1 numa relação complexa em que o património e a herança culturais se tornam fatores de liberdade, de responsabilidade, de emancipação, de respeito mútuo e de afirmação da dignidade humana. Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialetos, as obras dos artesãos, a culinária ancestral – eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a História e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz.
Guilherme d’Oliveira Martins, Património Cultural – Realidade Viva, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2020, pp. 7-9.
NOTA
1 axiológicas – que dizem respeito à axiologia ou à filosofia dos valores.
5.
A frase iniciada por «E não esqueçamos» (linha 18) e a frase iniciada por «O certo é que» (linhas 28-29) exprimem
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6.
No contexto em que ocorre, o recurso à expressão «[d]as primeiras» (linha 7) contribui para a coesão
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7.
Na expressão «incentivo à criatividade» (linhas 10-11), «à criatividade» desempenha a mesma função sintática que
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Grupo III · Apreciação crítica de uma imagem
GRUPO III
Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, faça a apreciação crítica do cartoon abaixo apresentado, da autoria de John Holcroft.
https://artesemfronteiras.com (consultado em 14 de fevereiro de 2022).
O seu texto deve incluir:
a descrição do objeto apresentado, destacando elementos significativos da composição da imagem;
um comentário crítico, fundamentando a sua apreciação em, pelo menos, träs aspetos relevantes e utilizando um discurso valorativo;
uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.
Observações
Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequéncia delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma ónica palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2022/).
Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte: um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
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