Exame Nacional Português 2024 · 1.ª fase
Exame Nacional de Português 2024, 1.ª fase: 15 exercícios com resolução. Temas: Romantismo: Garrett e Camilo e Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos.
Temas do exame: Romantismo: Garrett e Camilo · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião
Exercício 1 · Romantismo: Garrett e Camilo
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Leia o texto e as notas.
Tal como em outras obras do século XIX, também na novela Coração, Cabeça e Estômago se caricatura a sensibilidade e o modo de vida românticos. No excerto que vai ler, são visíveis as transformações operadas pelo protagonista com o intuito de se aproximar da imagem de um herói romântico.
Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção, e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar 1 os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas 2; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço, e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletreadas 3 da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada 4 que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada, e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato 5; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos 6, uma formal estupidez de espírito, e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio me estava dando em espetáculo. A cara mantinha-se na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roixa 7 com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz «olheiras». Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis 8, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroixada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido, que até o próprio médico chegou a persuadir-se, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico.
Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony 9 e o trágico de Fausto 10. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema 11 azulado. Era a natureza a vingar-se.
Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago, edição de Cristina Sobral e Ariadne Nunes, Lisboa, IN-CM, 2019, pp. 39-40.
NOTAS
1 calamistrar – tornar crespo ou frisado.
2 espáduas – ombros.
3 deletreadas – repartidas.
4 escampada – ampla; larga.
5 charutos do contrato – referência ao facto de o tabaco ser vendido por particulares através de um contrato estabelecido com a Coroa, que detinha o monopólio deste produto.
6 tubérculos – nódulos arredondados, nos pulmões, característicos da tuberculose.
7 roixa – o mesmo que «roxa».
8 cútis – pele da face.
9 Antony – personagem de um drama romântico da autoria do romancista francês Alexandre Dumas (1802-1870).
10 Fausto – protagonista de uma obra de Goethe, escritor romântico alemão (1749-1832).
11 diadema – faixa semicircular no alto da testa.
1. Ao referir a «farsa em que eu a mim próprio me estava dando em espetáculo» (linha 16), o protagonista revela a sua intenção de criar uma imagem de si que não corresponde à realidade.
Explicite em que consiste essa imagem.
Exercício 2 · Romantismo: Garrett e Camilo
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Leia o texto e as notas.
Tal como em outras obras do século XIX, também na novela Coração, Cabeça e Estômago se caricatura a sensibilidade e o modo de vida românticos. No excerto que vai ler, são visíveis as transformações operadas pelo protagonista com o intuito de se aproximar da imagem de um herói romântico.
Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção, e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar 1 os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas 2; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço, e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletreadas 3 da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada 4 que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada, e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato 5; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos 6, uma formal estupidez de espírito, e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio me estava dando em espetáculo. A cara mantinha-se na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roixa 7 com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz «olheiras». Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis 8, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroixada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido, que até o próprio médico chegou a persuadir-se, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico.
Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony 9 e o trágico de Fausto 10. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema 11 azulado. Era a natureza a vingar-se.
Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago, edição de Cristina Sobral e Ariadne Nunes, Lisboa, IN-CM, 2019, pp. 39-40.
NOTAS
1 calamistrar – tornar crespo ou frisado.
2 espáduas – ombros.
3 deletreadas – repartidas.
4 escampada – ampla; larga.
5 charutos do contrato – referência ao facto de o tabaco ser vendido por particulares através de um contrato estabelecido com a Coroa, que detinha o monopólio deste produto.
6 tubérculos – nódulos arredondados, nos pulmões, característicos da tuberculose.
7 roixa – o mesmo que «roxa».
8 cútis – pele da face.
9 Antony – personagem de um drama romântico da autoria do romancista francês Alexandre Dumas (1802-1870).
10 Fausto – protagonista de uma obra de Goethe, escritor romântico alemão (1749-1832).
11 diadema – faixa semicircular no alto da testa.
2. O texto constitui um retrato humorístico do herói romântico.
Refira dois aspetos significativos que evidenciem a dimensão cómica desse retrato.
Exercício 3 · Romantismo: Garrett e Camilo
GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
PARTE A
Leia o texto e as notas.
Tal como em outras obras do século XIX, também na novela Coração, Cabeça e Estômago se caricatura a sensibilidade e o modo de vida românticos. No excerto que vai ler, são visíveis as transformações operadas pelo protagonista com o intuito de se aproximar da imagem de um herói romântico.
Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção, e aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar 1 os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas 2; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço, e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletreadas 3 da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada 4 que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada, e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato 5; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos 6, uma formal estupidez de espírito, e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio me estava dando em espetáculo. A cara mantinha-se na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roixa 7 com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz «olheiras». Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis 8, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroixada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido, que até o próprio médico chegou a persuadir-se, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico.
Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony 9 e o trágico de Fausto 10. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema 11 azulado. Era a natureza a vingar-se.
Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago, edição de Cristina Sobral e Ariadne Nunes, Lisboa, IN-CM, 2019, pp. 39-40.
NOTAS
1 calamistrar – tornar crespo ou frisado.
2 espáduas – ombros.
3 deletreadas – repartidas.
4 escampada – ampla; larga.
5 charutos do contrato – referência ao facto de o tabaco ser vendido por particulares através de um contrato estabelecido com a Coroa, que detinha o monopólio deste produto.
6 tubérculos – nódulos arredondados, nos pulmões, característicos da tuberculose.
7 roixa – o mesmo que «roxa».
8 cútis – pele da face.
9 Antony – personagem de um drama romântico da autoria do romancista francês Alexandre Dumas (1802-1870).
10 Fausto – protagonista de uma obra de Goethe, escritor romântico alemão (1749-1832).
11 diadema – faixa semicircular no alto da testa.
3. Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando a opção adequada a cada espaço.
No primeiro parágrafo, o narrador recorre a expressões como «Comecei» (linha 2), «todos os dias» (linha 4), «depois» (linha 5), «a pouco e pouco» (linha 9) e «até que» (linha 9) para a).
No final do excerto, ao afirmar «Era a natureza a vingar-se.» (linhas 29 e 30), o narrador b).
a)
b)
Exercício 4 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos
PARTE B
Leia o poema.
Depus a máscara e vi-me ao espelho...
Era a criança de há quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
5 É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor.
10 Assim sou a máscara.
E volto à normalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 514.
4. Explique a importância da máscara na construção da dualidade do sujeito poético, tal como é apresentada ao longo do poema.
Exercício 5 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos
PARTE B
Leia o poema.
Depus a máscara e vi-me ao espelho...
Era a criança de há quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
5 É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor.
10 Assim sou a máscara.
E volto à normalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 514.
5. Depois de tirar a máscara, o sujeito poético opta por tornar a pô-la.
Justifique essa opção, com base em dois aspetos significativos.
Exercício 6 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos
PARTE B
Leia o poema.
Depus a máscara e vi-me ao espelho...
Era a criança de há quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
5 É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor.
10 Assim sou a máscara.
E volto à normalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 514.
6. Considere as afirmações seguintes sobre o poema.
Exercício 7 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos
PARTE C
7. Nos textos apresentados na Parte A e na Parte B desta prova, o protagonista, no primeiro caso, e o sujeito poético, no segundo caso, apresentam uma determinada imagem de si próprios.
Escreva uma breve exposição na qual compare esses textos quanto às ideias expressas.
A sua exposição deve incluir:
uma introdução ao tema;
um desenvolvimento no qual explicite um aspeto em que os textos se aproximam e um aspeto em que se distinguem quanto à imagem que cada sujeito de enunciação apresenta de si próprio;
uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Exercício 1 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
1. Segundo o autor, é impossível ser indiferente à beleza,
Exercício 2 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
2. As interrogações utilizadas, no segundo e no terceiro parágrafos, constituem uma estratégia argumentativa que visa
Exercício 3 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
3. De acordo com o texto, a «atual "crise das humanidades"» (linhas 22 e 23) é motivada pela
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Exercício 4 · Compreensão de texto não literário
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
4. Nas expressões «qual voz de um amigo íntimo» (linha 3) e «alicerces racionais» (linha 24) está presente
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Exercício 5 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
5. Todos os vocábulos e expressões abaixo apresentados contribuem para a coesão interfrásica, exceto
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Exercício 6 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
6. Todos os constituintes sublinhados desempenham a função sintática de complemento do adjetivo, exceto em
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Exercício 7 · Gramática
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
7. Os vocábulos «que», na linha 12 e na linha 19, são
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GRUPO III · Texto de opinião
GRUPO III
Afirma-se, frequentemente, que as redes sociais são usadas pelas pessoas, quer para se mostrarem ao mundo, quer para se esconderem por detrás de uma imagem falsa, e que isso são formas igualmente questionáveis de comunicação.
Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a afirmação apresentada.
No seu texto:
explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).
Observações:
Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2024/).
Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:
um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.
Contagem de palavras aproximada:
Texto submetido com sucesso! Consulte os critérios oficiais de avaliação detalhados na secção de solução.
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