Grupo II - 1 · Exame Nacional Português 2.ª fase 2024

Tema: Compreensão de texto não literário · Do exame 2.ª fase (2024)

Enunciado

Leia o texto.

É-nos dito e repetido que o tempo bem aproveitado é um contínuo, tendencialmente

ininterrupto, que devemos esticar e levar ao limite. A maioria de nós vive nessa linha de fronteira,

em esforçada e insatisfeita cadência, a desejar, no fundo, que a vida seja o que ela não é: que

as horas do dia sejam mais e maiores, que a noite não adormeça nunca, que os fins de semana

5 cheguem para nos salvar a face diante de tudo o que fica adiado.

Quantas vezes damos por nós a concordar automaticamente com o lugar-comum:

«precisava que o dia tivesse quarenta e oito horas» ou «precisava de meses de quarenta dias».

Desconfio que não seja disso exatamente que precisamos. Bastaria, aliás, reparar nos efeitos

colaterais das nossas vidas sobreocupadas, no que fica para trás, no que deixámos por dizer

10 ou acompanhar. Sem darmos bem conta, à medida que os picos de atividade se agigantam, as

nossas casas vão-se assemelhando a casas devolutas, esvaziadas de verdadeira presença;

a língua que falamos torna-se incompreensível como uma língua sem falantes no mundo mais

próximo; e, mesmo que habitemos a mesma geografia e as mesmas relações, parece que, de

repente, isso deixou de ser para nós uma pátria e se tornou uma espécie de terra de ninguém.

15 O ponto de sabedoria é aceitar que o tempo não estica, que ele é incrivelmente breve

e que, por isso, temos de o viver com o equilíbrio possível. Não nos podemos iludir com a

lógica das compensações: que o tempo que roubamos, por exemplo, às pessoas que amamos

procuraremos devolvê-lo de outra maneira, organizando um programa ou comprando-lhes isto

e aquilo; ou que o que retiramos ao repouso e à contemplação vamos tentar compensar numas

20 férias extravagantes. A gestão do tempo é uma aprendizagem que, como indivíduos e como

sociedade, precisamos de fazer.

Nisto do tempo, por vezes, é mais importante saber acabar do que começar, e mais vital

suspender do que continuar. [...] Isso implica, não raro, um exercício de desprendimento e de

pobreza. Aceitar que não atingimos todos os objetivos a que nos tínhamos proposto. Aceitar

25 que aquilo aonde chegamos é ainda uma versão provisória, inacabada, cheia de imperfeições.

Aceitar que nos faltam as forças, que há uma frescura de pensamento que não obtemos

mecanicamente pela mera insistência. Aceitar porventura que amanhã teremos de recomeçar

do zero e pela enésima vez.

Creio que o momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado,

30 não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas como condição inescusável do próprio

ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo.

José Tolentino Mendonça, «A arte do inacabado», in Que Coisa São as Nuvens, Paço de Arcos, Expresso | Impresa Publishing, 2015, pp. 35-36.

1. Na perspetiva do autor, a dificuldade sentida pela «maioria de nós» (linha 2) em aproveitar bem o tempo provoca, geralmente, uma reação de

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Enunciado: Grupo II - 1 · Exame Nacional Português 2.ª fase 2024

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. Na perspetiva do autor, a dificuldade sentida pela «maioria de nós» (linha 2) em aproveitar bem o tempo provoca, geralmente, uma reação de

Resposta: (C) frustração.

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