Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2023
Tema: Romantismo: Garrett e Camilo · Do exame Época especial (2023)
Enunciado
PARTE B
Leia o texto.
ROMEIRO
Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhuma
evidência: não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso — Deus me ouve —, não
posso criminar ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só
5 lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.
TELMO
Sois injusto.
ROMEIRO
Bem sei o que queres dizer. — E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me
10 procuraram, que por toda a parte... ela mandou mensageiros, dinheiro?
TELMO
Como é certo estar Deus no Céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa
dama que tem Portugal.
ROMEIRO
15 Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais
houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... dos inimigos
desse homem que ela ama... E que sossegue, que seja feliz. — Telmo, adeus!
TELMO
E eu hei de mentir, senhor, eu hei de renegar de vós, como ruim vilão que não sou?
20 ROMEIRO
Hás de, porque eu te mando.
TELMO
(em grande ansiedade)
Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João,
25 meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...
ROMEIRO
O quê?
TELMO
Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...
30 ROMEIRO
E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.
TELMO
Não mo pergunteis.
ROMEIRO
35 Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! — Tiraram-me tudo. (pausa) — E têm um
filho, eles?... — Eu não... — E mais, imagino... Oh, passaram hoje pior noite do que eu. Que
lho leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei já. — Telmo, vai fazer o que te mandei.
TELMO
Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer?
40 ROMEIRO
O que te ordena teu amo. — Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se.) Adeus, adeus, até...
TELMO
(com ansiedade crescente)
Até quando, senhor?
45 ROMEIRO
Até ao dia de juízo.
TELMO
Pois vós?...
ROMEIRO
50 Eu... — Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui
imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê? — D. João de Portugal morreu no dia em
que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele
amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! — Sua mulher que ele já não pode
amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora
55 morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não
há de desonrar a sua viúva. Não: vai; dito por ti terá dobrada força: dize-lhe que falaste com o
romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que quiseres,
mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. De mim já não há senão esse
nome, ainda honrado; a memória dele que fique sem mancha. — Está em tuas mãos, Telmo,
60 entrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa,
edição de Maria João Brilhante, Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 209-214.
4.
Explique a ansiedade manifestada por Telmo, considerando o conteúdo das linhas 1 a 33.
5.
Ao longo da cena, assiste-se à humanização do Romeiro, o que está patente na grandeza moral e no altruísmo manifestados pela personagem.
Justifique esta afirmação com base em dois aspetos presentes no diálogo travado com Telmo a partir da linha 34.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
4. Explique a ansiedade manifestada por Telmo, considerando o conteúdo das linhas 1 a 33.
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: – a ansiedade de Telmo decorre da ordem dada pelo seu antigo amo (dizer que a presença do Romeiro resulta de uma armadilha montada pelos inimigos de D. Manuel), o que equivale a renegar D. João e, por consequência, a agir como vilão que, de facto, não é; – a ansiedade da personagem intensifica-se (torna-se «grande»), na medida em que a ordem recebida agudiza o conflito interior de Telmo, ao tomar consciência de que a afeição que sente por «uma outra filha minha» (que criou como criara D. João) se sobrepõe ao amor que sente pelo seu antigo amo/à fidelidade que deve ao seu antigo amo.
5. Ao longo da cena, assiste-se à humanização do Romeiro, o que está patente na grandeza moral e no altruísmo manifestados pela personagem. Justifique esta afirmação com base em dois aspetos presentes no diálogo travado com Telmo a partir da linha 34.
Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: – quando ordena a Telmo que vá dizer ao casal que o Romeiro era um impostor que pretendia prejudicar Manuel de Sousa Coutinho, D. João autoaniquila-se e coloca a felicidade de Madalena acima do desejo de vingança/D. João abdica da sua identidade para não desonrar Madalena; – consciente de que Madalena e Manuel de Sousa Coutinho têm uma filha em comum, o Romeiro compadece-se perante o sofrimento que causou com a sua chegada; – o Romeiro roga a Deus que perdoe Madalena e Manuel de Sousa Coutinho, porque ele já o fez.
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