Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2023
Tema: Saramago, contos e poesia contemporânea · Do exame Época especial (2023)
Enunciado
Leia o poema.
SONETO CIENTÍFICO A FINGIR
Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.
5 Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha devastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.
Só não vejo vantagens pela rima.
10 Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro de mais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]
Se me dobro de mais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
15 ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.
E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
20 e depois desviar. Isso é ciência!
Ana Luísa Amaral, O Olhar Diagonal das Coisas,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2022, p. 275.
1.
Nos versos 19 e 20, lê-se «dar o mote ao amor, glosar o tema, / e depois desviar. Isso é ciência!».
Refira dois aspetos que, no poema apresentado, exemplifiquem a transgressão da tradição poética.
2.
Explicite, de acordo com o sentido do poema, as razões pelas quais o sujeito poético transgride algumas regras.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. Nos versos 19 e 20, lê-se «dar o mote ao amor, glosar o tema, / e depois desviar. Isso é ciência!». Refira dois aspetos que, no poema apresentado, exemplifiquem a transgressão da tradição poética.
Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - a subversão deliberada e consciente das regras do soneto/desrespeito pela estrutura formal do soneto: opção por cinco quadras em vez de duas quadras e dois tercetos; ausência de rima; - a associação do soneto, que é uma forma clássica e da tradição poética, ao tema do amor, que não chega a desenvolver/à ideia de experimentação, evidente no uso do adjetivo «científico»; - recurso a um registo de língua coloquial que se afasta do habitual numa forma clássica («coxo» - v. 17; «Pois que seja: também o mundo é e ainda existe.» - vv. 7-8; «Se me dobro de mais, dizia eu» - v. 13).
2. Explicite, de acordo com o sentido do poema, as razões pelas quais o sujeito poético transgride algumas regras.
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - a reivindicação da liberdade criativa, ao experimentar outras formas de expressão poética; - a defesa da ideia de que, para ser fiel a si mesma, enquanto mulher, e para conseguir exprimir livremente a sua subjetividade/encontrar a sua voz, nem sempre obedece às regras formais.
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