Exame Nacional Português 2022 · 1.ª fase

Exame Nacional de Português 2022, 1.ª fase: 11 exercícios com resolução. Temas: Os Lusíadas e Mensagem, Compreensão de texto não literário e Gramática.

Temas do exame: Os Lusíadas e Mensagem · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião

Grupo I · Os Lusíadas e Mensagem

Leia o poema.

D. Sebastião

'Sperai! Caí no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.

5 Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura,

É Esse que regressarei.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas sobre Portugal, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 102.

1.

No poema, está presente um «eu», D. Sebastião, que se dirige a um «vós», os Portugueses.

Explicite o apelo feito na primeira estrofe e, com base nesse apelo, infira os sentimentos desse «eu» e desse «vós».

2.

Evidencie a presença do herói histórico e a presença do herói mítico na segunda estrofe do poema, fundamentando a resposta com a referência a um elemento textual para cada um dos tipos de herói.

Grupo I - 3 · Os Lusíadas e Mensagem

Leia o poema.

D. Sebastião

'Sperai! Caí no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.

5 Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura,

É Esse que regressarei.

Fernando Pessoa, Mensagem e Outros Poemas sobre Portugal, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 102.

3. Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.

Na primeira estrofe, o uso do vocábulo «intervalo» remete para um antes e um depois, correspondendo a um tempo

Grupo I · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE B

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 15 a 18 do Canto I de Os Lusíadas, e as notas.

Est. 15

E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

5 Comecem a sentir o peso grosso

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras e do Oriente os mares.

Est. 16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

10 Em quem vê seu exício 1 afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo 2 já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio 3

Tem pera vós por dote aparelhado 4,

15 Que, afeiçoada ao gesto 5 belo e tenro,

Deseja de comprar-vos pera genro.

Est. 17

Em vós se vêm 6, da Olímpica morada,

Dos dous avós 7 as almas cá famosas;

Ũa, na paz angélica dourada,

20 Outra, pelas batalhas sanguinosas.

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos têm lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.

Est. 18

25 Mas, enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Pera que estes meus versos vossos sejam,

E vereis ir cortando o salso argento 8

30 Os vossos Argonautas 9, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 4-5.

NOTAS

1 exício – destruição; ruína; mortandade.

2 jugo – peça de madeira que une os bois de uma junta; domínio; força repressiva; sujeição.

3 cerúleo senhorio – domínio do mar de cor azul-celeste.

4 aparelhado – preparado.

5 gesto – aspeto; aparência; rosto.

6 vêm – veem.

7 dous avós – D. João III, pai do príncipe D. João, e Carlos V, pai da princesa D. Joana.

8 salso argento – mar da cor da prata.

9 Os vossos Argonautas – referência aos navegadores portugueses.

4.

Releia a estância 15.

Explicite o modo como se desenvolve a estratégia argumentativa usada pelo poeta nessa estância para incitar o rei D. Sebastião à ação gloriosa.

5.

Nas estâncias 16 e 17, o poeta confere ao rei D. Sebastião uma dimensão excecional.

Comprove esta afirmação, recorrendo a dois exemplos pertinentes mencionados nessas estâncias.

Grupo I - 6 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE B

Leia o texto seguinte, constituído pelas estâncias 15 a 18 do Canto I de Os Lusíadas, e as notas.

Est. 15

E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

5 Comecem a sentir o peso grosso

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras e do Oriente os mares.

Est. 16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

10 Em quem vê seu exício 1 afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo 2 já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio 3

Tem pera vós por dote aparelhado 4,

15 Que, afeiçoada ao gesto 5 belo e tenro,

Deseja de comprar-vos pera genro.

Est. 17

Em vós se vêm 6, da Olímpica morada,

Dos dous avós 7 as almas cá famosas;

Ũa, na paz angélica dourada,

20 Outra, pelas batalhas sanguinosas.

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos têm lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.

Est. 18

25 Mas, enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Pera que estes meus versos vossos sejam,

E vereis ir cortando o salso argento 8

30 Os vossos Argonautas 9, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, pp. 4-5.

NOTAS

1 exício – destruição; ruína; mortandade.

2 jugo – peça de madeira que une os bois de uma junta; domínio; força repressiva; sujeição.

3 cerúleo senhorio – domínio do mar de cor azul-celeste.

4 aparelhado – preparado.

5 gesto – aspeto; aparência; rosto.

6 vêm – veem.

7 dous avós – D. João III, pai do príncipe D. João, e Carlos V, pai da princesa D. Joana.

8 salso argento – mar da cor da prata.

9 Os vossos Argonautas – referência aos navegadores portugueses.

6. Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação.

A par do louvor aos feitos dos navegadores cantados n’ Os Lusíadas, na estância 18, está subjacente

Grupo I - 7 · Os Lusíadas e Mensagem

PARTE C

7. Baseando-se na sua experiência de leitura de Mensagem, de Fernando Pessoa, e de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, escreva uma breve exposição sobre o modo como o sebastianismo emerge em cada uma das obras.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual compare as duas obras, referindo uma manifestação significativa do sebastianismo em cada uma delas;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - 1 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

1. No primeiro parágrafo, com as referências a autores e a obras consagrados, Mário de Carvalho pretende, sobretudo,

Grupo II - 2 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

2. No segundo parágrafo, o recurso às expressões «Não», «Nem tampouco» e «Nem sequer» contribui para a coesão interfrásica, exprimindo uma ideia de

Grupo II - 3 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

3. Através do recurso à expressão «De facto» (linha 25), o autor

Grupo II - 4 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

4. A partir da leitura do texto, deduz-se que o autor defende

Grupo II - 5 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

5. Ao longo do texto, predomina um tom

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Grupo II - 6 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

6. Tal como em «vale-me» (linha 34), o pronome pessoal com função de complemento indireto está presente em

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Grupo II - 7 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e as notas.

As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me, como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima, acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a «questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices 1, alinhados por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente 2 do meu desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me, quando se altaneiram 3 resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses 4 sábias sobre Thomas Mann. E o D. Quixote de la Mancha ? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira 5 do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E Gogol? Ah, inacessível Gogol…

Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele «só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum «eu nem isso sei», aposto num vezo 6 retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que eu não sei mesmo absolutamente nada.

E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta, saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.

No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca. Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum, de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se. E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos, ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de defesa.

Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta, com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me. Graças lhes dou.

Mário de Carvalho, «As Vascas. Da Ignorância. Redenção», in A Visagem do Cronista – Antologia de Crónica Autobiográfica Portuguesa (Séculos XIX-XXI), Vol. II, edição de Carina Infante do Carmo, Lisboa, Arranha-céus, 2020, pp. 163-164.

NOTAS

1 códices – livros manuscritos, organizados em cadernos cosidos e encadernados.

2 alvarmente – estupidamente; grosseiramente.

3 se altaneiram – se elevam orgulhosamente.

4 exegeses – análises, interpretações ou explicações detalhadas de uma obra ou de um texto.

5 veleira – ligeira.

6 vezo – vício; costume.

7. Todas as frases abaixo transcritas exemplificam a modalidade apreciativa, exceto a frase

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Grupo III · Texto de opinião

GRUPO III

Para muitas pessoas, o heroísmo exige percorrer um caminho árduo, que implica renúncia e sofrimento.

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a conceção de heroísmo apresentada.

No seu texto:

explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;

formule uma conclusão adequada à argumentação desenvolvida;

utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).

Observações:

Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2022/).

Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

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