Exame Nacional Português 2021 · 1.ª fase

Exame Nacional de Português 2021, 1.ª fase: 11 exercícios com resolução. Temas: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente. Com correção imediata.

Temas do exame: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente · Romantismo: Garrett e Camilo · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos · Compreensão de texto não literário · Gramática · Texto de opinião

Grupo I - 1 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

Leia o poema.

O meu olhar azul como o céu

É calmo como a água ao sol.

É assim, azul e calmo,

Porque não interroga nem se espanta...

5 Se eu interrogasse e me espantasse

Não nasciam flores novas nos prados

Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo.

(Mesmo se nascessem flores novas no prado

E se o sol mudasse para mais belo,

10 Eu sentiria menos flores no prado

E achava mais feio o sol...

Porque tudo é como é e assim é que é,

E eu aceito, e nem agradeço,

Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro, Poesia, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed.,

Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 57.

1.

Relacione as comparações presentes nos dois primeiros versos com o sentido do quarto verso.

Grupo I - 2 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

Leia o poema.

O meu olhar azul como o céu

É calmo como a água ao sol.

É assim, azul e calmo,

Porque não interroga nem se espanta...

5 Se eu interrogasse e me espantasse

Não nasciam flores novas nos prados

Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo.

(Mesmo se nascessem flores novas no prado

E se o sol mudasse para mais belo,

10 Eu sentiria menos flores no prado

E achava mais feio o sol...

Porque tudo é como é e assim é que é,

E eu aceito, e nem agradeço,

Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro, Poesia, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed.,

Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 57.

2.

Selecione a opção de resposta adequada para completar a afirmação abaixo apresentada.

No âmbito da argumentação desenvolvida ao longo da segunda e da terceira estrofes, o recurso à __________, nos versos de 8 a 11, evidencia a ideia de que é pela visão que se pode __________.

Grupo I - 3 · Fernando Pessoa: ortónimo e heterónimos

Leia o poema.

O meu olhar azul como o céu

É calmo como a água ao sol.

É assim, azul e calmo,

Porque não interroga nem se espanta...

5 Se eu interrogasse e me espantasse

Não nasciam flores novas nos prados

Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo.

(Mesmo se nascessem flores novas no prado

E se o sol mudasse para mais belo,

10 Eu sentiria menos flores no prado

E achava mais feio o sol...

Porque tudo é como é e assim é que é,

E eu aceito, e nem agradeço,

Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caeiro, Poesia, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed.,

Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 57.

3.

Explique a aparente contradição presente nos versos de 12 a 14.

Grupo I · Romantismo: Garrett e Camilo

PARTE B

Leia os dois textos e as notas. Na resposta aos itens de 4. a 6., tenha em consideração ambos os textos.

O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos; posto que o trato das armas, o rigor das

estações, e o selo visível dos cuidados que trazia estampado no rosto, acentuassem já mais

fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa

5 um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra

desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar – espécie de great-coat 1

inglês que a imitação das modas britânicas tinha tornado familiar nos nossos bivaques 2. Trazia-o

desabotoado e descaído para trás, porque a noite não era fria; e via-se por baixo elegantemente

cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus característicos alamares 3

10 pretos e avivada de encarnado...

Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações – que essas gentes,

prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram 4 do

exército... por muito português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins 5 da alfândega,

reformaram-no em uniforme da bicha 6 !

15 Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela

o meu retrato.

Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou como aqueles

pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças, fitas

lavradas de moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e atitudes

20 expressão bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena de suplemento

e ilustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...

Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retrato.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa, denunciavam o

25 talento, a mobilidade do espírito – talvez a irreflexão... mas também a nobre singeleza de um

carácter franco, leal e generoso, fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender de leve,

mas impossível de esquecer uma injúria verdadeira.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, 2.ª ed., Lisboa, Portugália, 1963, pp. 148-149.

– Meu pai! Não meta este senhor em maiores trabalhos! – disse Mariana.

– Não tem dúvida, menina – atalhou Simão; – eu é que não quero meter ninguém em

30 trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei de eu lutar sozinho.

João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se enobrecia,

disse:

– Senhor Simão, Vossa Senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça

aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não

35 lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia

que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar 7. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem

com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de

um homem botar a perder 8. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco,

que mergulha uma, e aparecem quatro à tona d'água. Um homem rico e fidalgo como Vossa

40 Senhoria, onde quer, topa uma com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o

olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ela, se tiver de ser sua, à mão lhe há de vir dar, e

tanto faz andar pra trás como pra diante, é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo;

tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita a olhar o sete-estrelo 9,

mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo,

45 e a um regimento, se for necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta

com quatro homens, que são quatro dragões.

Simão fitara os olhos chamejantes nos do ferrador, e Mariana exclamara, ajuntando as

mãos sobre o seio:

– Meu pai! não lhe dê esses conselhos!...

50 – Cala-te aí, rapariga! – disse mestre João. – Vai tirar o albardão 10 à égua, amanta-a, e

bota-lhe seco. Não és aqui chamada.

– Não vá aflita, senhora Mariana – disse Simão à moça, que se retirava amargurada. – Eu

não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que quer

o meu bem; mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselhar.

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, edição de Aníbal Pinto de Castro, Porto, Caixotim, 2006, pp. 194-195.

NOTAS

1 great-coat – espécie de sobretudo; casaco comprido.

2 bivaques – modalidade de estacionamento de tropas em que estas se alojam em tendas de campanha ou abrigos improvisados.

3 alamares – cordões metálicos que guarnecem, pela frente, uma peça de vestuário, de um lado ao outro da abotoadura.

4 proscreveram – baniram; afastaram.

5 beleguins – oficiais de justiça.

6 uniforme da bicha – uniforme de aspirante a oficial.

7 alveitar – referência a alguém cujo conhecimento assenta na experiência de vida; aquele que trata de doenças de animais, sem diploma legal.

8 botar a perder – deitar a perder.

9 sete-estrelo – grupo de estrelas na constelação das Plêiades; as estrelas.

10 albardão – sela grande; assento grosseiro que se coloca no dorso da cavalgadura para a montar.

4.

O «oficial» e Simão apresentam características que permitem defini-los como heróis românticos.

Explique o modo como uma dessas características, comum a ambas as personagens, se manifesta em cada uma delas.

Na sua resposta, comece por identificar a característica comum às personagens.

5.

O narrador, num caso, e João da Cruz, no outro, exprimem opiniões sobre o que observam no mundo em que vivem.

Explicite uma opinião defendida por cada um deles.

Grupo I - 6 · Romantismo: Garrett e Camilo

PARTE B

Leia os dois textos e as notas. Na resposta aos itens de 4. a 6., tenha em consideração ambos os textos.

O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos; posto que o trato das armas, o rigor das

estações, e o selo visível dos cuidados que trazia estampado no rosto, acentuassem já mais

fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa

5 um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra

desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar – espécie de great-coat 1

inglês que a imitação das modas britânicas tinha tornado familiar nos nossos bivaques 2. Trazia-o

desabotoado e descaído para trás, porque a noite não era fria; e via-se por baixo elegantemente

cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus característicos alamares 3

10 pretos e avivada de encarnado...

Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações – que essas gentes,

prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram 4 do

exército... por muito português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins 5 da alfândega,

reformaram-no em uniforme da bicha 6 !

15 Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela

o meu retrato.

Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou como aqueles

pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças, fitas

lavradas de moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e atitudes

20 expressão bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena de suplemento

e ilustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...

Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retrato.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa, denunciavam o

25 talento, a mobilidade do espírito – talvez a irreflexão... mas também a nobre singeleza de um

carácter franco, leal e generoso, fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender de leve,

mas impossível de esquecer uma injúria verdadeira.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, 2.ª ed., Lisboa, Portugália, 1963, pp. 148-149.

– Meu pai! Não meta este senhor em maiores trabalhos! – disse Mariana.

– Não tem dúvida, menina – atalhou Simão; – eu é que não quero meter ninguém em

30 trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei de eu lutar sozinho.

João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se enobrecia,

disse:

– Senhor Simão, Vossa Senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça

aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não

35 lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia

que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar 7. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem

com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de

um homem botar a perder 8. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco,

que mergulha uma, e aparecem quatro à tona d'água. Um homem rico e fidalgo como Vossa

40 Senhoria, onde quer, topa uma com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o

olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ela, se tiver de ser sua, à mão lhe há de vir dar, e

tanto faz andar pra trás como pra diante, é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo;

tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita a olhar o sete-estrelo 9,

mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo,

45 e a um regimento, se for necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta

com quatro homens, que são quatro dragões.

Simão fitara os olhos chamejantes nos do ferrador, e Mariana exclamara, ajuntando as

mãos sobre o seio:

– Meu pai! não lhe dê esses conselhos!...

50 – Cala-te aí, rapariga! – disse mestre João. – Vai tirar o albardão 10 à égua, amanta-a, e

bota-lhe seco. Não és aqui chamada.

– Não vá aflita, senhora Mariana – disse Simão à moça, que se retirava amargurada. – Eu

não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que quer

o meu bem; mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselhar.

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição, edição de Aníbal Pinto de Castro, Porto, Caixotim, 2006, pp. 194-195.

NOTAS

1 great-coat – espécie de sobretudo; casaco comprido.

2 bivaques – modalidade de estacionamento de tropas em que estas se alojam em tendas de campanha ou abrigos improvisados.

3 alamares – cordões metálicos que guarnecem, pela frente, uma peça de vestuário, de um lado ao outro da abotoadura.

4 proscreveram – baniram; afastaram.

5 beleguins – oficiais de justiça.

6 uniforme da bicha – uniforme de aspirante a oficial.

7 alveitar – referência a alguém cujo conhecimento assenta na experiência de vida; aquele que trata de doenças de animais, sem diploma legal.

8 botar a perder – deitar a perder.

9 sete-estrelo – grupo de estrelas na constelação das Plêiades; as estrelas.

10 albardão – sela grande; assento grosseiro que se coloca no dorso da cavalgadura para a montar.

6. Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.

Nos excertos transcritos, é possível identificar características das narrativas do Romantismo.

Por exemplo, no excerto de Viagens na Minha Terra, o narrador interrompe o retrato da personagem para introduzir reflexões. Terminadas essas reflexões, afirma «Voltemos ao nosso retrato.» (linha 23), expressão através da qual se dirige ________.

Por seu lado, no excerto de Amor de Perdição, é percetível a diferença de classe social das personagens, entre outros aspetos, através ________.

Grupo I - 7 · Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente

PARTE C

7. «O que coloca Fernão Lopes fora de toda a comparação na nossa literatura e talvez em todas as literaturas é o modo como ele dá vida às multidões alvoroçadas.»

M. Rodrigues Lapa, Lições de Literatura Portuguesa – Época Medieval, 9.ª ed., Coimbra, Coimbra Editora, 1990, p. 410.

Baseando-se na sua experiência de leitura da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, escreva uma breve exposição sobre a emergência de uma consciência coletiva do povo português.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução ao tema;

um desenvolvimento no qual refira dois momentos em que as «multidões alvoroçadas» revelem o desabrochar de uma consciência coletiva;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Grupo II - 1 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

1. De acordo com o texto, a marca distintiva do modernismo português consiste no culto

Grupo II - 2 · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

2. Quando o autor afirma que «Almada Negreiros é um ator» (linha 5), pretende evidenciar as ideias de

Grupo II · Compreensão de texto não literário

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

3.

No terceiro parágrafo, o autor do texto pretende

4.

De acordo com o quarto parágrafo, a conceção de Poesia defendida por Almada Negreiros

Grupo II - 5 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

5. Todas as orações abaixo transcritas são subordinadas substantivas completivas, exceto a oração

Grupo II - 6 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

6. As expressões «por tapeçarias decorativas» (linha 28) e «de um livro» (linha 32) desempenham as funções sintáticas de

()

Grupo II - 7 · Gramática

GRUPO II

Leia o texto e a nota.

Se é verdade que os «Modernistas» portugueses são todos singulares, que não têm uma

poética comum e se movem entre uma vanguarda sem decálogo e um simbolismo requintado,

essa singularidade é sobretudo evidente em Almada Negreiros.

Se Mário de Sá-Carneiro é um autor, Fernando Pessoa, vários autores, e Santa Rita Pintor,

5 uma personagem, Almada Negreiros é um ator. Ele toma diferentes posições, corresponde a

diferentes lógicas estéticas, é cada vez mais, ao longo da sua obra, «aquele que representa»,

sem se concretizar num género ou numa arte única. Cito uma descrição de Rui Mário

Gonçalves: «Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi

também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista,

10 tapeceiro, gravador e geómetra.» 1 E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo,

a arte do espetáculo, a unidade do ator.

Almada Negreiros é tão importante na história da literatura como na da pintura em Portugal,

e cada uma das artes é nele apenas um aspeto. Porque, quando diz de si que é um pintor,

a palavra quer dizer poeta, e vice-versa. Sucede isso no Orpheu 1, em que assina os seus

15 poemas em prosa como «desenhador», e depois em A Invenção do Dia Claro, que é, além de

uma conferência proferida em Lisboa em 1921, um livro de poemas e um conjunto de «ensaios

para a iniciação de portugueses na revelação da pintura». Tudo ao mesmo tempo, e sem que a

escolha seja exclusiva. Outros exemplos são a configuração da conferência como um género

teatral e do desenho como uma espécie de filosofia, como manifesta com toda a evidência

20 o painel Começar no átrio da Fundação Gulbenkian. Muda os materiais, troca de lugar as

fronteiras, redistribui os signos, deixa correr a mesma energia por entre os frescos nas Gares

Marítimas, as páginas escritas e desenhadas da Histoire du Portugal par Cœur, as ilustrações

de dezenas de livros e artigos de jornal em Portugal e em Espanha, as cenas de teatro em

espaços imaginários mas construídos com exatidão, como no caso da edição de Deseja-se

25 Mulher, as suas narrativas com uma vocação realista exemplar, e todas dedicadas ao jogo

dos efeitos de surpresa, entre as quais se conta um romance de dimensão única na ficção

portuguesa moderna: Nome de Guerra, longa viagem ao interior da cabeça de um homem que

aprende a viver. Passa ainda por tapeçarias decorativas como quem experimenta rimas, e os

seus arlequins conhecem Picasso como as próprias mãos.

30 Dizemos, com ele, que a poesia não se confunde com a história das formas poéticas: «Os

versos são um modo de perpetuação de um dos modos da criação que se chama Poesia.»

(Conferência Poesia É Criação, de 1962). Assim sendo, a ilustração de um livro, a banda

desenhada num jornal, o diálogo, o conto, o artigo, a entrevista são poesia também. Tal como é

poesia, num certo sentido almadiano da palavra, a coreografia de um espetáculo ou um painel

35 em baixo-relevo.

Fernando Cabral Martins, «Almada Negreiros», in O Cânone, edição de António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, Lisboa, Tinta da China, 2020, pp. 67-68.

NOTA

1 Verbete sobre a obra de Almada Negreiros, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenação de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, p. 515.

7. Tal como em «são» (linha 33), o valor aspetual genérico está presente em

Grupo III · Texto de opinião

GRUPO III

Quando se pensa no futuro da humanidade, a primeira ideia que ocorre a muitas pessoas é a importância do progresso científico e tecnológico.

Mas não será que o progresso implica também a valorização das artes, enquanto dimensão fundamental de uma formação de base humanista?

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a questão apresentada.

No seu texto:

explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos, cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;

utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).

Observações:

1. Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência delimitada por espaços em branco, mesmo quando esta integre elementos ligados por hífen (ex.: /dir-se-ia/). Qualquer número conta como uma única palavra, independentemente do número de algarismos que o constituam (ex.: /2021/).

2. Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados – entre duzentas e trezentas e cinquenta palavras –, há que atender ao seguinte:

– um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;

– um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

Também podes estudar por temas

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Outras fases de 2021

2.ª fase (2021) · Época especial (2021)