Grupo II - 7 · Exame Nacional Português Época especial 2021

Tema: Gramática · Do exame Época especial (2021)

Enunciado

GRUPO II

Leia o texto.

Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem

sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas

formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida

pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,

5 são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que

durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais

da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas

vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.

A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A

10 ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem

dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão

ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente

é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores

e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que

15 acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.

Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão

do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar

fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida

social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,

20 como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo

que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o

tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu

curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada

primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.

25 Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de

perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,

mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,

juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre

transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha

30 igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória

esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende

o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações

que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo

que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um

35 futuro renascimento.

Nuno Júdice, Camões – Por Cantos Nunca Dantes Navegados,

Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.

7. Através das expressões «poderá sempre haver» (linha 26) e «arrastará necessariamente» (linha 34), transmite-se uma ideia de

Enunciado: Grupo II - 7 · Exame Nacional Português Época especial 2021

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

7. Através das expressões «poderá sempre haver» (linha 26) e «arrastará necessariamente» (linha 34), transmite-se uma ideia de

Resposta: (C) possibilidade, no primeiro caso, e certeza, no segundo caso.

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