Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2021
Tema: Saramago, contos e poesia contemporânea · Do exame Época especial (2021)
Enunciado
CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
5 nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
10 suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
15 terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
20 até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
25 iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11/6/1961
Jorge de Sena, Antologia Poética, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Guimarães, 2010, p. 127.
1.
Explicite duas das acusações que o sujeito poético faz aos seus contemporâneos, de acordo com o conteúdo dos versos de 1 a 11.
2.
«Não importa nada: que o castigo / será terrível» (versos 12 e 13).
Explique o modo como o sujeito poético prevê a concretização do castigo.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. Explicite duas das acusações que o sujeito poético faz aos seus contemporâneos, de acordo com o conteúdo dos versos de 1 a 11.
Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: – de praticarem plágio, por se apropriarem de ideias, temas, motivos, palavras, imagens, metáforas e símbolos utilizados na sua poesia; – de lhe negarem a primazia e a ousadia, nomeadamente na inovação linguística (causadora de sofrimento), no «entendimento de outros» e na «coragem de combater»; – de o votarem ao desprezo, na medida em que não o citam, rejeitam a sua poesia e aclamam outros.
2. «Não importa nada: que o castigo / será terrível» (versos 12 e 13). Explique o modo como o sujeito poético prevê a concretização do castigo.
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: – o sujeito poético permanecerá na memória de todos, tal como a sua obra, enquanto os seus contemporâneos serão esquecidos (até pelos familiares mais próximos); – o sujeito poético não só recuperará a autoria da totalidade da obra roubada, mas também prevê que lhe venha a ser atribuída a autoria do «pouco e miserável» (v. 20) produzido pelos seus contemporâneos; – o sujeito poético será homenageado após a sua morte num túmulo onde repousarão os restos mortais de outrem.
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