Grupo I - Parte B · Exame Nacional Português 2.ª fase 2021
Tema: Saramago, contos e poesia contemporânea · Do exame 2.ª fase (2021)
Enunciado
PARTE B
Leia o texto.
Quando cheguei à rua do Fonseca, notei logo que as janelas do quarto andar estavam todas fechadas – hum! A porta da rua trancada. Mau sinal. Ao sol puro e claro da manhã, a fachada reluzia na frescura da pedra branca, dos estuques rosados e novos. O próprio prédio parecia dormir, sereno, sorrindo ao sol, com as pálpebras das cortinas todas descidas. À beira do passeio o Chevrolet do Fonseca, consideravelmente empoeirado, esperava. Mas que silêncio nesta rua nova! A calçadinha do passeio estalava-me debaixo das solas dos sapatos. Não havia remédio senão tocar a campainha. Mas tocariam as campainhas? Outro dia não funcionavam. Há sempre alguma complicação nestes prédios novos: ou falta a água porque a Câmara ainda não abriu as canalizações, ou é o trinco que não funciona, ou não há corrente, ou cortaram o gás.
Enquanto esperava que de cima abrissem a porta (devia estar tudo a postos, era para largarmos às sete, imagine-se!) fui examinar o carro: já teria o pneu cheio? Isso sim: o Chevrolet descaía tristemente sobre um pneu vazio, à retaguarda, como um cavalo sobre uma pata cansada. O Fonseca (tornei a olhar para as janelas: fechadas) ainda não tinha saído da toca. A coisa estava bonita. Se ele já teria metido gasolina? Fui buscar um pauzinho à obra ao lado, desatarraxei o tampão do tanque, e meti o pauzinho para medir o nível: saiu seco. E o radiador, provavelmente, como sempre, não tem pinga de água. Mudar o pneu, meter gasolina, água... Temos para meia hora ou mais. E aqui perto não há uma garagem.
Lá de cima continuavam a não abrir a porta. Ó senhor, passa das oito, e esta gente... Fui-me à campainha e carreguei-lhe furiosamente: nada. Deviam estar mergulhados num sono de chumbo, de morte. À ideia de morte estremeci: quem sabe se não estariam envenenados com o gás da cozinha! Senti-me verdadeiramente inquieto. Se não fosse ali o Chevrolet, havia de julgar que já tinham saído. E era às sete que isto... Ah, mas lá vinha um padeiro, com a toalha branca do cabaz cheia de sol festivo. Ora bom dia! Felizmente há sempre um vizinho que se levanta cedo ao domingo, e come pão fresco ao pequeno-almoço. (Também havia padeiros ao domingo!)
Entrei atrás dele e subi ao último andar. Diante da porta detive-me um momento a escutar: silêncio. Então, quase capaz de me ir embora, de voltar para a minha Umbelina e para o meu domingo, e em todo o caso com uma vontade cruel de fazer violências, carreguei demoradamente no botão da campainha que fazia vibrar a porta de alto a baixo. Aquilo não era campainha, era um motor de avião. Até parecia que as paredes tremiam, e aquela gente sem acordar! Então, danado por me terem forçado a deitar-me tarde e a sair da cama ao cantar do galo, assentei quatro murros na porta, fenomenais. Fiquei com as mãos dormentes.
José Rodrigues Miguéis, «Uma Viagem na Nossa Terra», in Léah e Outras Histórias, 7.ª ed., Lisboa, Estampa, 1982, pp. 46-47.
4.
Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.
Na descrição da fachada e do prédio (linhas 2 a 4), são utilizados alguns recursos expressivos, nomeadamente, a ________, presente em «O próprio prédio parecia dormir, sereno, sorrindo ao sol». Através deste recurso, o narrador transmite ideias ________.
5.
Analise a evolução do estado de espírito do narrador ao longo do excerto.
6.
Refira duas marcas linguísticas que comprovem o uso de um registo que se aproxima da oralidade. Transcreva, para cada uma delas, um exemplo significativo.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
4. Selecione a opção de resposta adequada para completar as afirmações abaixo apresentadas.
Resposta: (B) personificação ... de bem-estar e de sossego
5. Analise a evolução do estado de espírito do narrador ao longo do excerto.
Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - inicialmente, a perplexidade e a apreensão, ao constatar que em casa do Fonseca não há indícios de atividade, pelo que, provavelmente, este não terá feito os preparativos necessários para a viagem e estará ainda a dormir; - em seguida (pela acumulação de indícios que confirmam a impressão inicial), uma crescente irritação relativamente ao comportamento do Fonseca e ao atraso que esse comportamento irá provocar; - finalmente (apesar de, por momentos, o narrador ser atravessado por um sentimento de inquietação/apesar de o narrador pôr a hipótese de uma desgraça), um estado de fúria, patente na forma violenta como toca à campainha e nos quatro murros que assenta na porta.
6. Refira duas marcas linguísticas que comprovem o uso de um registo que se aproxima da oralidade. Transcreva, para cada uma delas, um exemplo significativo.
Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - as interjeições – «hum!» (l. 2)/«Ó senhor» (l. 19)/«Ah» (l. 23); - as exclamações – «Mas que silêncio nesta rua nova!» (ll. 5-6)/«imagine-se!» (l. 12); - as interrogações – «Mas tocariam as campainhas?» (l. 7)/«já teria o pneu cheio?» (l. 12); - os diminutivos – «calçadinha» (l. 6)/«pauzinho» (l. 16); - o registo de língua informal/familiar – «A coisa estava bonita» (l. 15)/«desatarraxei» (l. 16)/«pinga de água» (l. 17)/«Fui-me à campainha» (ll. 19-20)/«carreguei-lhe furiosamente» (l. 20)/«danado» (l. 32)/«sair da cama ao cantar do galo» (ll. 32-33).
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