Grupo II - Compreensão · Exame Nacional Português 2.ª fase 2021

Tema: Compreensão de texto não literário · Do exame 2.ª fase (2021)

Enunciado

GRUPO II

Leia o texto.

Um dos filósofos mais originais e discretos do século XX, o russo Pavel Florenskij, escreveu:

«A nossa vida escapa-nos como um sonho, e é possível não chegar a tempo de fazer coisa

alguma neste breve instante que é a vida. Por isso, é necessário aprender a arte de viver, a

mais difícil e a mais importante das artes: a capacidade de conferir a cada hora um conteúdo

5 substancial, conscientes de que aquela hora não tornará jamais.» Pode, de facto, acontecer-nos

«não chegar a tempo» até porque, precisamente, o tempo é uma alta febre que nos toma e que,

não raro, nos atira borda fora da nossa própria embarcação. Desde que ganhámos consciência

de que estamos dentro do tempo, de que somos seres amassados na argila do tempo, deixámos

de ter tempo. A nossa vida, quase por completo, está destinada ao fazer e ao produzir, a essa

10 luta certamente áspera, monótona ou dilacerante, mas também apaixonada, envolvente e, à

sua maneira, vital. Na verdade, não há, à partida, nenhum problema com a vida ativa da qual

dependemos, e não só para garantir a basilar luta pela sobrevivência. O coágulo forma-se

quando a atividade se torna o fim e nós os instrumentos; quando, manhã após manhã, o espelho

testemunha como nos estamos a transformar em elementos puramente instrumentais de uma

15 vida que já não quer saber de nós. Muitas vezes, a esse lampejo de consciência, reagimos

pressionando ainda com mais força o pé contra o acelerador, deixando-nos ir, aceitando que não

nos resta outra forma de aceitar a temporalidade. E tentamo-nos consolar dizendo: «não tenho

vida, mas tenho coisas», «não tenho tempo para nada, mas adquiro poder de compra».

Às nossas sociedades falta uma reflexão séria sobre a completude da experiência humana e

20 sobre as reivindicações – a maior parte delas sufocada – por um estilo de vida mais equilibrado.

O dever ou o direito de fazer não tem de se construir sacrificando a toda a linha o dever ou o

direito de ser. A estimulação para o ativismo não tem de ser tão brutal que insista em queimar

– com a rapidez com que arde um fósforo – todos os recursos, exteriores e interiores, que

alguém possui para viver. A pressa não pode ignorar por completo a lentidão. A vida ativa não

25 tem necessariamente de suprimir a necessidade que cada um de nós sente de contemplação.

Vêm-me ao pensamento os versos do «Canto Noturno de Um Pastor Errante da Ásia», do

poeta Giacomo Leopardi: «Que fazes tu no céu, ó lua? Diz-me / que fazes, silenciosa lua? [...] /

Diz-me ó lua, afinal / que vale ao pastor a sua vida, / ou para que te serve a ti a tua? Diz-me para

que direção / caminha este meu breve vagar / e para onde se dirige o teu curso imortal?» Na

30 composição, o pastor errante contempla a lua. Com que necessidade? Em busca de quê? Em

busca de uma profundidade que porventura nunca conseguiremos atingir completamente, mas

na qual precisamos de nos sentir imersos. Há um horizonte mais amplo, para lá da resolução

individual da minha existência: ficarei incompleto, alguma porção essencial de mim ficará por

se desenvolver, se nunca tiver chegado verdadeiramente a confrontar o «meu breve vagar»

35 com o «curso imortal». Na língua latina, a palavra contemplação deriva da junção de dois

termos: cum e templum, que indicava na antiguidade o espaço aberto nas cúpulas para que se

interpretassem os sinais do futuro. Contemplar é não apenas introduzir uma benéfica lentidão

no nosso olhar. É também colher o tempo da vida como um tecido relacional, uma intersecção

dialógica que dilata ao infinito o sentido da nossa existência.

José Tolentino Mendonça, «Que fazes tu no céu, ó lua?», in E – A Revista do Expresso, 18 de julho de 2020, p. 90.

1.

No primeiro parágrafo, o autor cita Pavel Florenskij com a intenção de

2.

Ao longo do texto, o autor defende que a azáfama da vida ativa

3.

De acordo com o texto, o ser humano, por norma, coloca em primeiro lugar

4.

Do ponto de vista do autor, a arte de saber viver consiste em

5.

Ao recorrer às expressões «alta febre» (linha 6) e «nos atira borda fora da nossa própria embarcação» (linha 7), o autor utiliza

Enunciado: Grupo II - Compreensão · Exame Nacional Português 2.ª fase 2021

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. No primeiro parágrafo, o autor cita Pavel Florenskij com a intenção de

Resposta: (D) defender a necessidade de harmonizar a relação com o tempo.

2. Ao longo do texto, o autor defende que a azáfama da vida ativa

Resposta: (B) pode impedir o ser humano de se realizar plenamente.

3. De acordo com o texto, o ser humano, por norma, coloca em primeiro lugar

Resposta: (C) o mundo material.

4. Do ponto de vista do autor, a arte de saber viver consiste em

Resposta: (B) conciliar o trabalho com a contemplação.

5. Ao recorrer às expressões «alta febre» (linha 6) e «nos atira borda fora da nossa própria embarcação» (linha 7), o autor utiliza

Resposta: (C) metáforas para evidenciar a intensidade da pressão do tempo, no primeiro caso, e os efeitos perniciosos do tempo, no segundo caso.

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