Exercício 4 · Exame Nacional Português 1.ª fase 2024
Tema: Compreensão de texto não literário · Do exame 1.ª fase (2024)
Enunciado
GRUPO II
Leia o texto.
A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada ou profana; pode revigorar, atrair,
inspirar ou arrepiar. Pode afetar-nos de inúmeras maneiras. Todavia, nunca a olhamos com
indiferença: a beleza exige visibilidade. Ela fala-nos diretamente, qual voz de um amigo íntimo.
Se há pessoas indiferentes à beleza, é porque são, certamente, incapazes de a perceber.
5 No entanto, os juízos de beleza dizem respeito a questões de gosto e este pode não ter
um fundamento racional. Mas, se for o caso, como explicar o lugar de relevo que a beleza
ocupa nas nossas vidas e porque lamentamos o facto – se disso se trata – de a beleza estar
a desaparecer do nosso mundo? Será verdade, como sugeriram tantos escritores e artistas
desde Baudelaire a Nietzsche, que a beleza e a bondade podem divergir e que uma coisa pode
10 ser bela precisamente por causa da sua imoralidade?
Além disso, uma vez que é natural que os gostos variem, como pode o gosto de uma pessoa
servir de critério para aferir o de outra? Como é possível dizer, por exemplo, que um certo tipo
de música é superior ou inferior a outro, se os juízos comparativos refletem apenas o gosto
daquele que os faz?
15 Este relativismo, hoje familiar, levou algumas pessoas a rejeitarem os juízos de beleza
por serem puramente «subjetivos». Os gostos não se discutem, argumentam, pois, quando
se critica um gosto, mais não se faz do que expressar um outro; assim sendo, nenhum
ensinamento ou aprendizagem pode vir de uma «crítica». Esta atitude tem posto em questão
muitas das disciplinas que tradicionalmente pertencem às humanidades. Os estudos de arte,
20 música, literatura e arquitetura, libertados da disciplina imposta pelo juízo estético, dão a
sensação de terem perdido a sustentação firme na tradição e na técnica, que tinha levado
os nossos predecessores a considerarem-nos nucleares ao currículo. Daí a atual «crise das
humanidades»: haverá alguma razão para estudar a nossa herança artística e cultural, se o
juízo acerca da sua beleza é destituído de alicerces racionais? Ou, se resolvermos estudá-la,
25 não deveria esse estudo ser feito com um espírito cético, questionando as suas pretensões ao
estatuto de autoridade objetiva, desconstruindo a sua pose de transcendência?
Roger Scruton, Beleza: Uma Muito Breve Introdução, trad. Carlos Marques, Lisboa, Guerra & Paz, 2023, pp. 9-10.
4. Nas expressões «qual voz de um amigo íntimo» (linha 3) e «alicerces racionais» (linha 24) está presente
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Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
4. Nas expressões «qual voz de um amigo íntimo» (linha 3) e «alicerces racionais» (linha 24) está presente
Resposta: (B) uma comparação, no primeiro caso, e uma metáfora, no segundo caso.
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