Grupo II - 3 · Exame Nacional História A Época especial 2023
Tema: As revoluções liberais e a implantação do liberalismo em Portugal · Do exame Época especial (2023)
Enunciado
GRUPO II
DOUTRINAS E DINÂMICAS ECONÓMICAS EM PORTUGAL, DO ANTIGO REGIME AO LIBERALISMO
Documento 1
Instruções políticas, por Luís da Cunha, diplomata ao serviço do rei D. João V (1736)
[O] príncipe deve contribuir ao alívio dos seus vassalos, tanto quanto for possível [...]; [...] e a primeira coisa em que o[s] poderia aliviar seria em reformar o abuso dos privilegiados, porque os tributos e encargos, de que estes são isentos, carregam sobre os mesmos povos, e por consequência prejudicam a fazenda real. [...]
A segunda, e absolutamente necessária reformação, é a do luxo, que da nobreza tem tão indignamente passado ao povo. [...] Conta a moda por um dos melhores ramos do [comércio de França]; e, pelo contrário, em Portugal é o maior da sua ruína, pois que para seguir esta quimérica 1 grandeza ou magnificência, deve tirar 2 tudo dos países estrangeiros [...]. Assim o entendeu o senhor rei D. Pedro, quando [...] proibiu os panos de fora [...].
O certo é que ele compreendia que [...] era necessário [...] impedir o luxo, favorecer o comércio e aumentar as manufaturas [...], e entretanto ficaria o dinheiro no reino, que é o que mais importa; pois que o maior avanço do comércio consiste em comprar pouco e vender muito, seja de particular a particular, ou de nação a nação. [...]
[O] príncipe que tiver muito dinheiro [...], ainda que possa comprar navios, de pouco lhe servirão [...] se não tiver marinheiros com que os animar. E isto é o que nos sucede, pois apenas os temos para a navegação das nossas frotas, nas quais não admitimos os das outras nações; e a razão porque os não temos, é porque nos falta a extensão do comércio, reduzindo-se toda a nossa marinha a uns poucos de navios, que vão e vêm do Brasil, e a um ou dois, que todos os anos também vão e vêm, ou não vêm da Índia.
Inglaterra e Holanda não são tão conhecidas pelo nome de potências marítimas por causa da sua situação, quanto pela extensão do seu comércio, com o qual aumentam as suas forças, devendo uma coisa e outra às companhias que formaram. [...]
Não há dúvida que a boa política comerciante requer que se aliviem os direitos dos géneros nacionais para que saiam, e se carreguem os estrangeiros para que não entrem, pelo menos, com tanta profusão. [...] A este propósito, [...] parece ser conveniente que Sua Majestade mandasse dar um balanço nas suas alfândegas; e achando [...] que as fazendas que entram excedem muito as que saem, veria claramente que a maioria se paga em ouro [...].
José Luís Cardoso (org.), Portugal como problema. A economia como solução, Lisboa, Fundação Luso-Americana/Público, 2006, pp. 121-141. (Texto adaptado)
1 ilusória.
2 comprar.
Documento 2
Comércio de Portugal com a Inglaterra e com o Brasil, em contos de réis 1, 1800-1830
Inglaterra · 1800-1807 · 1814-1821 · 1823-1830
Média anual das trocas · 14 685 · 15 149 · 11 197
Média anual das importações · 6210 · 9684 · 7079
Média anual das exportações · 8475 · 5465 · 4118
Média saldo anual · + 2265 · − 4219 · − 2961
Brasil · 1800-1807 · 1814-1821 · 1823-1830
Média anual das trocas · 22 320 · 15 210 · 7365
Média anual das importações · 12 773 · 8015 · 3798
Média anual das exportações · 9547 · 7195 · 3567
Média saldo anual · − 3226 · − 820 · − 231
Maria de Fátima Bonifácio, «Comércio externo e política pautal na 1.ª metade do séc. XIX», Ler História, 10 (1987), pp. 75-108. (Adaptado)
1 os totais incluem as reexportações, bem como as «exportações» de ouro e prata.
3. As perturbações políticas que afetaram Portugal nas primeiras décadas do século XIX contribuíram decisivamente para inverter o ciclo de prosperidade mercantil vivido desde os finais do século XVIII.
Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando a sua resposta com informação relevante do documento 2.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
3. As perturbações políticas que afetaram Portugal nas primeiras décadas do século XIX contribuíram decisivamente para inverter o ciclo de prosperidade mercantil vivido desde os finais do século XVIII. Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando a sua resposta com informação relevante do documento 2.
Resposta: A resposta deve expor dois dos seguintes argumentos, fundamentando com dados do documento 2: - Impacto económico da instabilidade resultante das invasões francesas (ou da revolução liberal), desestruturando os circuitos comerciais e produtivos: o saldo comercial com a Inglaterra passa de positivo (+2265 contos de réis em 1800-1807) para negativo (-4219 contos em 1814-1821), verificando-se também um aumento acentuado das importações inglesas (de 6210 para 9684 contos); - Perda do exclusivo colonial (fim do papel reexportador) devido à abertura dos portos brasileiros em 1808 (transferência da Corte): a média anual das trocas com o Brasil diminui drasticamente, passando de 22 320 contos em 1800-1807 para 15 210 em 1814-1821 e 7365 em 1823-1830; - Dependência política e económica face à Inglaterra e tratados de comércio favoráveis aos ingleses: as exportações portuguesas para a Inglaterra descem de 8475 contos (1800-1807) para 4118 contos (1823-1830), enquanto o saldo comercial se torna fortemente deficitário; - Desagregação do império atlântico após a independência política do Brasil (1822): quebra muito acentuada de todo o comércio luso-brasileiro, caindo as importações de 8015 contos (1814-1821) para 3798 contos (1823-1830) e as exportações de 7195 para 3567 contos.
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