Grupo IV - 2 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2021
Tema: Portugal do segundo pós-guerra à democracia: Estado Novo, guerra colonial e 25 de Abril · Do exame 1.ª fase (2021)
Enunciado
GRUPO IV
MUTAÇÕES POLÍTICAS EM PORTUGAL, DO MARCELISMO À REVOLUÇÃO DE ABRIL
Documento 1
Saudação de Mário Soares ao III Congresso da Oposição Democrática, 4-8 de abril de 1973
A realização do III Congresso da Oposição Democrática ocorre [...] quando o País [...] se
vê confrontado [...] [com] o estrondoso fracasso da política pseudo-reformista de Marcelo
Caetano, [...] de pura continuidade salazarista sem qualquer evolução significativa. Ocorre
quando os próprios parceiros e protetores do governo português, no quadro da NATO e da
5 Comunidade Europeia, se tornam [...] abertamente críticos, como se demonstra nas votações
da ONU [...]. [...]
Na verdade, não é hoje mais possível iludir a crise profunda que o País vive [...]. O País
esvazia-se de gente, deixando os campos ao abandono e as fábricas com uma carência aguda
de mão de obra; a juventude em revolta global contra o sistema recusa o prosseguimento [...]
10 de uma guerra injusta [...]; as classes trabalhadoras [veem-se] sujeitas a níveis de miséria e
privadas dos mais elementares direitos (sindicais e outros) [...]; os intelectuais e os técnicos,
sem liberdade de expressão, não conseguem escapar a um sentimento generalizado de
frustração [...], reflexo do desprestígio e do isolamento do País no mundo. [...]
Os pobres são cada vez mais pobres, desprotegidos e em maior número, cavando-se todos
15 os anos a distância que separa Portugal das nações industrializadas da Europa. [...] A chamada
ordem estabelecida não representa o consenso popular, traduzindo tão só a institucionalização
da pior violência. [...]
É neste contexto que se reúne o III Congresso da Oposição Democrática. O governo
autorizou-o, [...] como forma de [...] convite feito à Oposição para dançar a valsa eleitoral
20 quadrienal – com as restrições, sofismas* e irregularidades que todos conhecemos [...]. [...]
O objetivo do governo, para estrangeiro ver, consiste em incitar a Oposição a fazer o seu
pequeno número eleitoral e a reconduzi-la depois à impotência e ao silêncio de sempre. Com
a vantagem suplementar de ir atualizando os ficheiros da PIDE-DGS... [...]
Depois da farsa eleitoral de 1969; depois da repressão sindical dos anos 1970/71 [...];
25 depois das ondas sucessivas de repressão [...] que se vêm abatendo sobre os estudantes; [...]
depois da entronização, dir-se-ia vitalícia, do almirante Tomás na Presidência da República
[...], é forçoso reconhecer que se voltou à prática salazarista, no seu pior estilo.
http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_3387 (consultado em 09/09/2020). (Texto adaptado)
* falácias; argumentos enganosos.
Documento 2
Discurso de Américo Tomás, presidente da República, na abertura da XI Legislatura da Assembleia Nacional, 19 de novembro de 1973
Dez legislaturas decorreram sob a égide da Constituição de 1933. Inaugura-se hoje a
11.ª. Estão aqui os novos deputados eleitos pelo maior colégio eleitoral da nossa história
política. As eleições gerais, caracterizadas por significativa e consoladora afluência às urnas
[...], tiveram nítido carácter de referendo. O povo português mostrou iniludivelmente* a sua
5 fidelidade às instituições vigentes e a sua adesão à política prosseguida pelo Governo.
Essa política é a [...] do fomento da riqueza do País [...]; da melhoria da repartição dos
rendimentos provenientes da produção. É a política da luta contra a miséria, contra a doença e
contra a ignorância. A política que busca conseguir habitação decente e iguais oportunidades
de educação para todos os portugueses. [...]
10 Na sequência da obra empreendida à sombra do planeamento, estamos a atravessar
uma fase de vigoroso progresso económico e de acentuada transformação social. [...]
[S]e nos mantivermos unidos nos nossos propósitos, [...] podemos estar certos de que iremos
melhorando, cada vez mais, a forma de viver e a qualidade da vida, numa comunidade nacional
próspera e feliz. [...]
15 Continuamos a procurar manter com todos os países relações de pacífica colaboração.
[...] Nesse espírito, participamos na Organização do Tratado do Atlântico, somos membros
da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico e da Associação Europeia
de Comércio Livre, firmámos há pouco o acordo de comércio com a Comunidade Económica
Europeia, apertando os nossos laços com o Mercado Comum.
http://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/dan/01/11/01/003/1973-11-19 (consultado em 04/10/2020). (Texto adaptado)
* inequivocamente.
2. Compare as duas perspetivas sobre a situação vivida em Portugal nas vésperas da Revolução de 25 de Abril de 1974, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.
Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
2. Compare as duas perspetivas sobre a situação vivida em Portugal nas vésperas da Revolução de 25 de Abril de 1974, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.
Resposta: Comparação entre a perspetiva da Oposição Democrática (Doc. 1) e a do Regime Marcelista (Doc. 2) quanto a dois dos seguintes aspetos: 1. Desenvolvimento económico: No Doc. 1 salienta-se a crise, abandono dos campos, falta de mão de obra e atraso face à Europa («O País esvazia-se de gente...», «cavando-se todos os anos a distância que separa Portugal das nações industrializadas da Europa»); no Doc. 2 afirma-se o progresso, fomento da riqueza e planeamento («fase de vigoroso progresso económico», «fomento da riqueza do País»). 2. Qualidade de vida / situação social: No Doc. 1 aponta-se a miséria e desigualdade («as classes trabalhadoras [veem-se] sujeitas a níveis de miséria», «Os pobres são cada vez mais pobres»); no Doc. 2 defende-se a melhoria da repartição dos rendimentos, combate à doença e habitação condigna («melhoria da repartição dos rendimentos...», «política da luta contra a miséria...»). 3. Apoio nacional ao regime: No Doc. 1 denuncia-se a falta de consenso popular e a revolta da juventude («a juventude em revolta global...», «A chamada ordem estabelecida não representa o consenso popular...»); no Doc. 2 proclama-se a adesão popular e fidelidade demonstrada nas urnas («O povo português mostrou iniludivelmente* a sua fidelidade...»). 4. Integração internacional: No Doc. 1 salienta-se o isolamento e críticas externas («os próprios parceiros e protetores do governo português [...] se tornam [...] abertamente críticos...», «isolamento do País no mundo»); no Doc. 2 exalta-se a colaboração internacional pacífica e acordos com a CEE e NATO («relações de pacífica colaboração», «apertando os nossos laços com o Mercado Comum»).
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