Grupo II - 2 · Exame Nacional História A Época especial 2025

Tema: As revoluções liberais e a implantação do liberalismo em Portugal · Do exame Época especial (2025)

Enunciado

GRUPO II

LIBERALISMO E SOCIEDADE NA EUROPA DO SÉCULO XIX

Documento 1

O impacto do liberalismo na Sicília, no contexto da unificação italiana (c. 1860), segundo o romance histórico O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa 1

Membro de uma linhagem que durante séculos nunca soubera fazer a soma das suas despesas nem a subtração das suas dívidas, [...] o pobre príncipe Fabrizio vivia num descontentamento permanente [...], contemplando a ruína da sua raça e do seu património sem dar mostras de qualquer atividade e, mais ainda, sem o menor desejo de lhe pôr cobro. [...]

Ciccio Ferrara, o contabilista, entrou no escritório. Era um homem baixo e seco que ocultava a alma idealista e ambiciosa de um liberal por detrás de uns óculos tranquilizadores e de umas gravatas imaculadas. Naquela manhã estava mais alegre do que de costume [...]: «Tristes tempos, Excelência», disse ele [...] «mas, depois de um certo alvoroço e de algum tiroteio, tudo correrá pelo melhor, e novos tempos de glória virão [...].» O Príncipe resmungava sem exprimir uma opinião. [...] Estava irritado não com os acontecimentos [...], mas com a estupidez de Ferrara, que identificara imediatamente com uma das futuras classes dirigentes. [...]

Pouco depois apareceu Russo, o administrador, o homem que o Príncipe considerava como o mais expressivo dos seus subordinados. Esbelto, [...] era a expressão acabada de uma classe em ascensão. [...] Fez sinal a Russo para se sentar, olhou-o fixamente nos olhos: «Pietro, falemos de homem para homem, também estás metido nesta história?» 2. Metido não estava, respondeu, era pai de família e riscos desses são coisa para rapazes [...]. «Mas devo dizer que o meu coração está com eles, com esses bravos rapazes. [...] Vossa Excelência bem sabe; não se pode mais: buscas, interrogatórios [...] um esbirro 3 em cada esquina; um homem de bem já não é livre para tratar da sua vida. Depois, pelo contrário, teremos liberdade, segurança, impostos mais baixos, facilidades, comércio. Toda a gente vai ficar melhor: só os padres é que vão perder. O Senhor protege os pobres [...], não a eles.»

D. Fabrizio sorria [...]. Pouco depois, algumas palavras proferidas por Russo aliviaram-no. «Tudo vai ficar melhor, acredite, Excelência. Os homens honestos e hábeis poderão afirmar-se O resto ficará como dantes.» Aquela gente, aqueles liberalzecos [...] só queriam ter a possibilidade de enriquecer mais facilmente. Mais nada. [...] Teve vontade de o dizer a Russo, mas a sua delicadeza inata deteve-o: «Compreendi perfeitamente: o que vocês querem não é destruir-nos a nós [...]; o que querem é ocupar o nosso lugar. Com suavidade, com boas maneiras, metendo-nos talvez no bolso alguns milhares de ducados. Não é assim? O teu neto, caro Russo, acreditará sinceramente que é barão; e tu [...] deixarás de ser o filho de um labrego [...]. Antes disso já a tua filha terá desposado um dos nossos [...]. “Para que tudo fique como está”».

Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, Lisboa, Biblioteca Visão, 2000, pp. 9 e 26-29. (Texto adaptado)

1 publicado em 1958, O Leopardo, e o seu protagonista, o Príncipe Fabrizio de Salina, são inspirados na história e nos documentos de família do autor, um aristocrata siciliano.

2 confrontos militares contra a monarquia absoluta dos Bourbons na Sicília.

3 agente de polícia.

2. O triunfo do liberalismo no século XIX provocou profundas transformações na estrutura social herdada do Antigo Regime.

Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando-os com excertos relevantes do documento 1.

Enunciado: Grupo II - 2 · Exame Nacional História A Época especial 2025

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando-os com excertos relevantes do documento 1.

Resposta: A resposta deve expor dois argumentos fundamentados com excertos do documento 1, abordando, por exemplo: - A perda do estatuto privilegiado (ou da relevância socioeconómica) da nobreza («o pobre príncipe Fabrizio vivia num descontentamento permanente [...], contemplando a ruína da sua raça e do seu património» OU «o que querem é ocupar o nosso lugar [...], metendo-nos talvez no bolso alguns milhares de ducados.»); - A perda de poder económico e político/influência da Igreja Católica/clero («só os padres é que vão perder. O Senhor protege os pobres [...], não a eles.»); - A consolidação do poder económico da burguesia através do acesso ao poder político e medidas económicas favoráveis («era a expressão acabada de uma classe em ascensão» OU «tudo correrá pelo melhor, e novos tempos de glória virão» OU «Depois [...] teremos liberdade, segurança, impostos mais baixos, facilidades, comércio. Toda a gente vai ficar melhor» OU «aqueles liberalzecos [...] só queriam ter a possibilidade de enriquecer mais facilmente»); - A valorização do mérito individual e do empreendedorismo («a alma idealista e ambiciosa de um liberal» OU «Os homens honestos e hábeis poderão afirmar-se» OU «aqueles liberalzecos [...] só queriam ter a possibilidade de enriquecer mais facilmente»); - A afirmação social da burguesia procurando prestigiar-se e fundir-se com a nobreza em declínio («o que querem é ocupar o nosso lugar [...], metendo-nos talvez no bolso alguns milhares de ducados.» OU «O teu neto, caro Russo, acreditará sinceramente que é barão; e tu [...] deixarás de ser o filho de um labrego» OU «Antes disso já a tua filha terá desposado um dos nossos»).

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