Exercício 12 · Exame Nacional Filosofia 2.ª fase 2024
Tema: Filosofia política: a justiça social (Rawls, Nozick, Sandel) · Do exame 2.ª fase (2024)
Enunciado
12. Leia o texto seguinte, da autoria de Rawls.
Uma vez encontrada a conceção da justiça, podemos dar às ideias de respeito e de dignidade humana um significado mais preciso. Entre outras coisas, o respeito pelas pessoas exprime-se tratando-as de modos que elas possam compreender que são justificados. Mas, além disso, o respeito manifesta-se no conteúdo dos princípios aos quais recorremos. Assim, respeitar as pessoas é reconhecer que elas possuem uma inviolabilidade baseada na justiça que mesmo o bem-estar da sociedade considerada no seu conjunto não pode anular. É afirmar que a perda de liberdade de alguns não é justificada pelo maior bem-estar de que outros possam beneficiar. As prioridades da justiça […] representam o valor das pessoas, que Kant dizia estar acima de qualquer preço.
J. Rawls, Uma Teoria da Justiça, Lisboa, Editorial Presença, 1993, pp. 440-441. (Texto adaptado)
12.1.
Explique o que, de acordo com o texto, significa respeitar as pessoas.
12.2.
No texto, é implicitamente criticada uma teoria moral.
Que razões são dadas no texto para fazer essa crítica?
Na sua resposta, comece por identificar a teoria moral implicitamente criticada no texto.
12.3.
Kant e Rawls defendem que o valor de cada pessoa, individualmente considerada, está «acima de qualquer preço».
Concorda com esta ideia?
Na sua resposta, deve:
– apresentar inequivocamente a sua posição;
– argumentar a favor da sua posição.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
12.1. Explique o que, de acordo com o texto, significa respeitar as pessoas.
Resposta: Explicação que integra os seguintes aspetos (ou outros equivalentes): - O modo como as pessoas são tratadas deve estar justificado, e as pessoas devem poder compreender a justificação desse tratamento; - Nos princípios a que se recorre para justificar o modo como são tratadas, é reconhecido que as pessoas «possuem uma inviolabilidade baseada na justiça», ou seja, têm direitos (ou liberdades) que em nenhuma circunstância podem deixar de ser respeitados.
12.2. Teoria moral implicitamente criticada no texto
Resposta: Utilitarismo / Teoria moral utilitarista
12.2. Que razões são dadas no texto para fazer essa crítica?
Resposta: Explicitação das razões apresentadas no texto: - A maximização do bem-estar agregado, requerida pelo princípio da utilidade ou da maior felicidade, não impede a violação das liberdades fundamentais das pessoas; - Ora, o «valor das pessoas» não é respeitado se a violação das suas liberdades fundamentais for permissível; - Só dando prioridade ao princípio da igual liberdade se garante que as pessoas «possuem uma inviolabilidade baseada na justiça».
12.3. Kant e Rawls defendem que o valor de cada pessoa, individualmente considerada, está «acima de qualquer preço». Concorda com esta ideia? Na sua resposta, deve: – apresentar inequivocamente a sua posição; – argumentar a favor da sua posição.
Resposta: Apresentação inequívoca da posição e respetiva fundamentação argumentativa plausível. Cenários de resposta: 1. No caso de concordar: - Se o valor de cada pessoa pudesse ser contrabalançado pelo bem-estar de outras pessoas, isso significaria que poderia ser medido numa escala de bem-estar (na felicidade ou acesso a bens primários) e comparado; - Admitir essa mensurabilidade implica que as pessoas têm um preço determinado pelos custos que acarretam; - Nesse caso, direitos e liberdades poderiam ser anulados por custos excessivos, o que comprometeria a dignidade inviolável da pessoa; OU: - O valor das pessoas reside na sua autonomia (capacidade de deliberação racional); - A correção dos princípios morais decorre do imperativo categórico e não das consequências para o bem-estar agregado; - Tratar as pessoas como meios para fins alheios viola o seu estatuto moral de fins em si mesmas. 2. No caso de discordar: - A felicidade agregada é prioritária em relação à individual, devendo a satisfação particular ceder face à promoção do maior bem comum; OU: - A identidade individual não é abstrata nem neutra, sendo constituída pelos laços comunitários e valores partilhados em que o indivíduo se insere (crítica comunitarista à posição original abstrata).
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