Exercício 14 · Exame Nacional Filosofia 1.ª fase 2024

Tema: Filosofia política: a justiça social (Rawls, Nozick, Sandel) · Do exame 1.ª fase (2024)

Enunciado

14. Leia o texto seguinte.

Considere-se o caso famoso da marcha neonazi planeada para Skokie, Illinois, em 1978. Entre os habitantes de Skokie, um subúrbio de Chicago, havia um grande número de sobreviventes do Holocausto – era por isso que os neonazis queriam fazer a marcha ali. [...] Os críticos da marcha proposta [...] disseram que ela seria «ofensiva» para os sobreviventes; mas [penso que] era muito mais do que isso: era antes um desafio político – e mesmo físico – à sua existência.

[Contudo,] a União Americana das Liberdades Civis (American Civil Liberties Union – ACLU) defendeu a realização da marcha, opondo-se a todos os esforços para a impedir por parte das autoridades municipais, que invocaram as leis locais contra a desordem e o motim. Nos anos 60, no Sul [dos EUA], tinham sido invocadas leis semelhantes para impedir as marchas pelos direitos civis. Atualmente, a ACLU orgulha-se da sua corajosa defesa da liberdade de expressão. Ganhou o processo legal em Skokie, embora a marcha tenha acabado por não se realizar.

Compreendo o argumento jurídico – de que a lei deve ser a mesma para os afro-americanos que defendem a igualdade e para os nazis que defendem o genocídio. Mas penso que o adjetivo «liberal» exclui qualquer equivalência moral entre os dois grupos, ou entre o significado das suas marchas – e, se não são moralmente semelhantes [...], será que têm mesmo de ser tratadas da mesma forma? [Penso que] teria sido melhor se a ACLU tivesse defendido os manifestantes pelos direitos civis e se tivesse recusado a defender os neonazis.

M. Walzer, A Luta por Uma Política Decente – «Liberal» como Adjetivo, Lisboa, Gradiva, 2023, pp. 36-37. (Texto adaptado)

Nota – As marchas pelos direitos civis ocorreram no âmbito da luta das comunidades afrodescendentes por direitos iguais e contra a discriminação e a violência raciais. Uma das figuras centrais desta luta foi Martin Luther King.

Critique, com base na teoria da justiça de Rawls, a ideia de que há equivalência moral entre as reivindicações dos dois grupos referidos no texto.

Enunciado: Exercício 14 · Exame Nacional Filosofia 1.ª fase 2024

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

Critique, com base na teoria da justiça de Rawls, a ideia de que há equivalência moral entre as reivindicações dos dois grupos referidos no texto.

Resposta: Crítica, com base na teoria da justiça de Rawls, da ideia de que há equivalência moral entre as reivindicações dos dois grupos referidos no texto: – as pessoas são livres e iguais (e isto decorre de todas terem certas capacidades – ou poderes – morais, a saber: a capacidade para o bem, ou seja, a capacidade para adotar, prosseguir e rever uma conceção pessoal do bem, e a capacidade para a justiça, ou seja, a capacidade para avaliar, honrar e aplicar princípios de justiça); – a marcha neonazi referida no texto (que acabou por não se realizar) seria um gesto de afirmação de que algumas pessoas não são livres e iguais – no caso, os sobreviventes do Holocausto (OU os judeus) –, ao passo que as marchas pelos direitos civis foram gestos de afirmação de que todas as pessoas são livres e iguais; – (contrariamente ao que a ACLU defendeu) é falso que exista qualquer equivalência moral entre as reivindicações de quem luta por direitos iguais (designadamente, direitos civis e oportunidades iguais), combatendo discriminações injustificadas (e injustas), e as reivindicações dos neonazis (e, em geral, de todos os que se opõem aos princípios da igual liberdade e da igualdade de oportunidades). OU – o princípio da igual liberdade, que é o primeiro e mais importante princípio de justiça, estabelece um sistema inviolável de direitos e liberdades fundamentais, e desse sistema fazem parte o direito à integridade física e o direito à integridade psicológica, que são, assim, direitos fundamentais protegidos pelo primeiro princípio; – a reivindicação de direitos civis para os afro-americanos reconhece esses direitos fundamentais como aspetos indispensáveis da dignidade de qualquer pessoa, mas a reivindicação de que os sobreviventes do Holocausto não têm direito à existência não lhes reconhece a dignidade de serem pessoas; – a reivindicação que reconhece os direitos fundamentais referidos é protegida pelo primeiro princípio de justiça, mas não a reivindicação dos grupos neonazis, pelo que não há equivalência moral entre as duas reivindicações.

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