Grupo I - Parte A · Exame Nacional Português 1.ª fase 2023

Tema: Saramago, contos e poesia contemporânea · Do exame 1.ª fase (2023)

Enunciado

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

PARTE A

Leia os textos e as notas.

A rapariga 1 fica de perfil, o homem está de costas, conversam em voz baixa, mas o tom dela subiu quando disse, Não, meu pai, sinto-me bem, são portanto pai e filha, conjunção pouco costumada em hotéis, nestas idades. O criado veio servi-los, sóbrio mas familiar de modos, depois afastou-se, agora a sala está silenciosa, nem as crianças levantam as vozes, estranho caso, Ricardo Reis não se lembra de as ter ouvido falar, ou são mudas, ou têm os beiços colados, presos por agrafes invisíveis, absurda lembrança, se estão comendo. A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, ausentes. Ricardo Reis sente um arrepio, é ele quem o sente, ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da pele se arrepia, e olha fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há de ir se a não levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja aquele senhor doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por estar desse lado e ser canhota, inábil, inerte, mão morta mão morte que não irás bater àquela porta. Ricardo Reis observa que os pratos da rapariga vêm já arranjados da copa, limpo de espinhas o peixe, cortada a carne, descascada e aberta a fruta, é patente que filha e pai são hóspedes conhecidos, costumados na casa, talvez vivam mesmo no hotel.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 10.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 26-27.

Nem sempre o trabalho corre bem. Não é verdade que a mão esquerda não faça falta 2. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de limpar o sujo que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da guerra, mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois braços, ou as duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los ou por isso mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais 3 no pano de vela, mas as coisas obedecem mal quando lhes falta a carícia da pele humana, cuidam que se sumiram os homens a quem se habituaram, é o desconcerto do mundo. Por isso, Blimunda vem ajudar, e, chegando ela, acaba-se a rebelião, Ainda bem que vieste, diz Baltasar, ou sentem-no as coisas, não se sabe ao certo.

Uma vez por outra, Blimunda levanta-se mais cedo, antes de comer o pão de todas as manhãs 4, e, deslizando ao longo da parede para evitar pôr os olhos em Baltasar, afasta o pano e vai inspecionar a obra feita 5, descobrir a fraqueza escondida do entrançado, a bolha de ar no interior do ferro, e, acabada a vistoria, fica enfim a mastigar o alimento, pouco a pouco se tornando tão cega como a outra gente que só pode ver o que à vista está. Quando isto fez pela primeira vez e Baltasar depois disse ao padre Bartolomeu Lourenço, Este ferro não serve, tem uma racha por dentro, Como é que sabes, Foi Blimunda que viu, o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou, Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.

José Saramago, Memorial do Convento, 27.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1998, pp. 91-92.

NOTAS

1 a rapariga – referência a Marcenda Sampaio.

2 que a mão esquerda não faça falta – referência ao facto de Baltasar ter regressado da Guerra da Sucessão Espanhola sem a mão esquerda, que foi substituída por um gancho e por um espigão.

3 olhais – aberturas ou aros em que entra um espigão.

4 antes de comer o pão de todas as manhãs – referência ao facto de Blimunda possuir poderes extraordinários que lhe permitem, quando se encontra em jejum, ver «o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra».

5 obra feita – referência à construção da passarola, uma máquina voadora idealizada pelo padre Bartolomeu Lourenço.

1.

Compare, com base em dois aspetos distintos, o modo como Marcenda e Baltasar reagem à impossibilidade de usarem a mão esquerda.

2.

A forma como pai e filha são tratados no hotel permite concluir que são clientes habituais. Apresente duas evidências que comprovem esta afirmação.

3.

Explique em que medida se pode afirmar que as expressões «Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras» (linhas 40 e 41) e «Lua onde estás, Sol aonde vais» (linha 44) evidenciam a relação que, no excerto, se estabelece entre Baltasar e Blimunda.

Enunciado: Grupo I - Parte A · Exame Nacional Português 1.ª fase 2023

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. Compare, com base em dois aspetos distintos, o modo como Marcenda e Baltasar reagem à impossibilidade de usarem a mão esquerda.

Resposta: Marcenda adota uma atitude passiva, nunca usando a mão esquerda (que trata com extremo cuidado e que permanece inerte, no seu colo ou em cima da mesa, como se estivesse morta), ao passo que Baltasar adota uma atitude pró-ativa, pois, apesar da aparente incapacidade física, trabalha na construção da passarola. Enquanto Marcenda revela resignação face à sua dependência, necessitando de ajuda para executar tarefas quotidianas, como alimentar-se, Baltasar revela vontade de ultrapassar os condicionalismos inerentes à sua situação / faz da sua fraqueza força, recorrendo ao espigão e ao gancho para executar autonomamente tarefas penosas e que exigem força (embora aceite a ajuda de Blimunda para limpar as costas da mão direita e para realizar trabalhos que exijam alguma minúcia e precisão).

2. A forma como pai e filha são tratados no hotel permite concluir que são clientes habituais. Apresente duas evidências que comprovem esta afirmação.

Resposta: O modo como o criado interage com o pai e a filha é o de quem já conhece a família («familiar de modos» – linha 3). A comida vem já preparada da copa, para que a filha possa ingeri-la sem esforço (o peixe limpo de espinhas, a carne cortada e a fruta descascada e aberta).

3. Explique em que medida se pode afirmar que as expressões «Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras» (linhas 40 e 41) e «Lua onde estás, Sol aonde vais» (linha 44) evidenciam a relação que, no excerto, se estabelece entre Baltasar e Blimunda.

Resposta: As expressões sugerem que o Sol e a Lua formam um todo, não existindo um sem o outro. Essa mesma relação de complementaridade existe entre Baltasar e Blimunda, na medida em que Blimunda (ao invés de assumir um papel de subalterna, característico das mulheres da época) colabora na construção da passarola, fazendo o que ele não consegue fazer (por exemplo, limpar a sujidade agarrada ao dorso da mão) / inspecionando a qualidade dos materiais (graças ao dom de ver os corpos por dentro).

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