Grupo I - 3 · Exame Nacional Português 1.ª fase 2026

Tema: Saramago, contos e poesia contemporânea · Do exame 1.ª fase (2026)

Enunciado

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

PARTE A

Leia a contextualização, os dois textos e as notas. A fim de facilitar a eventual referência a elementos textuais, as linhas são numeradas sequencialmente.

Contextualização

Em Memorial do Convento, a ação decorre no século XVIII. No excerto apresentado, Baltasar Mateus, também conhecido por Sete-Sóis, é um soldado que acaba de chegar a Lisboa, vindo de Évora, onde permaneceu durante alguns meses. Aí adquiriu um gancho e um espigão de ferro que lhe substituíram a mão esquerda, perdida durante a guerra da Sucessão Espanhola.

Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, a ação decorre no século XX. No excerto selecionado, o protagonista, Ricardo Reis, recém-chegado do Brasil, após dezasseis anos de ausência, deambula pelas ruas da Baixa de Lisboa.

Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedas de cobre que soavam bem menos que os

ferros do alforge 1, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar de resolver

que passos daria a seguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar numa enxada

que requer duas, se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do sangue perdido.

5 Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mas também lhe foram dizendo que era necessário pedir

muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos, e apesar disso muitas vezes se

apagava a voz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro. Na falta, aí estavam as

irmandades para a esmola e as portarias dos conventos que proviam ao caldo e ao tassalho 2

do pão. E um homem a quem falte a mão canhota não tem muito de que se queixar se ainda

10 lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ou exigir com um ferro aguçado.

Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavam desbocadamente

aos compradores, provocavam-nos, sacudiam os braços carregados de braceletes de ouro,

batiam juras no peito onde se reuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bom ouro

brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas, arrecadas ricas que valiam

15 a mulher. Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamente asseadas, como se as não

tocasse sequer o cheiro do peixe que removiam às mãos cheias. À porta duma taberna que

ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltasar comprou três sardinhas assadas, que, sobre a

indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direção

ao Terreiro do Paço.

José Saramago, Memorial do Convento, 27.ª ed., Lisboa, Caminho, 1998, pp. 41-42.

20 Agora, sai, urbanamente deu as boas-tardes, e agradecendo saiu pela porta da Rua dos

Correeiros, esta que dá para a grande babilónia de ferro e vidro 3 que é a Praça da Figueira,

ainda agitada, porém nada que se possa comparar com as horas da manhã, ruidosas de gritos

e pregões até ao paroxismo 4. Respira-se uma atmosfera composta de mil cheiros intensos,

a couve esmagada e murcha, a excrementos de coelho, a penas de galinha escaldadas,

25 a sangue, a pele esfolada. Andam a lavar as bancadas, as ruas interiores, com baldes e

agulheta, e ásperos piaçabas, ouve-se de vez em quando um arrastar metálico, depois um

estrondo, foi uma porta ondulada que se fechou. Ricardo Reis rodeou a praça pelo sul, entrou

na Rua dos Douradores, quase não chovia já, por isso pôde fechar o guarda-chuva, olhar para

cima, e ver as altas frontarias de cinza parda, as fileiras de janelas à mesma altura, as de

30 peitoril, as de sacada, com as monótonas cantarias prolongando-se pelo enfiamento da rua,

até se confundirem em delgadas faixas verticais, cada vez mais estreitas, mas não tanto que

se escondessem num ponto de fuga, porque lá ao fundo, aparentemente cortando o caminho,

levanta-se um prédio da Rua da Conceição, igual de cor, de janelas e de grades, feito segundo

o mesmo risco, ou de mínima diferença, todos porejando 5 sombra e humidade, libertando

35 nos saguões 6 o cheiro dos esgotos rachados, com esparsas baforadas de gás, como não

haveriam de ter as faces pálidas os caixeiros que vêm até à porta das lojas, com as suas batas

ou guarda-pós 7 de paninho cinzento, o lápis de tinta entalado na orelha, o ar enfadado de ser

hoje segunda-feira e não ter o domingo valido a pena.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 17.ª ed., Lisboa, Caminho, 2007, pp. 41-42.

NOTAS

1 alforge – saco dividido em dois compartimentos, que se transporta ao ombro ou sobre o cavalo.

2 tassalho – naco; pedaço.

3 grande babilónia de ferro e vidro – referência à confusão e à desordem que existia no edifício do mercado da Praça da Figueira, em Lisboa, feito de ferro e de vidro.

4 paroxismo – auge; momento de maior intensidade.

5 porejando – destilando pelos poros.

6 saguões – pátios estreitos e descobertos, que separam as traseiras de prédios.

7 guarda-pós – peças de vestuário que se usam por cima de outra roupa para a proteger do pó.

3. Complete o texto seguinte, selecionando a opção adequada a cada espaço.

Assinale, na folha de respostas, para cada letra, o número da opção selecionada.

No excerto compreendido entre «Ricardo Reis rodeou a praça» (linha 27) e «sombra e humidade» (linha 34), o narrador privilegia o ponto de vista de Ricardo Reis sobre a cidade de Lisboa, destacando-se, nessa passagem, a ideia de (a) ______.

Já no excerto compreendido entre «como não» (linha 35) e «valido a pena» (linha 38), é a visão subjetiva do narrador que prevalece, quando este reflete sobre (b) ______.

(a)

(b)

()

()

Enunciado: Grupo I - 3 · Exame Nacional Português 1.ª fase 2026

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

Complete o texto seguinte, selecionando a opção adequada a cada espaço: (a) e (b).

Resposta: (a) (2); (b) (1)

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