Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2022
Tema: Portugal da Primeira República ao Estado Novo (1910-1945) · Do exame 2.ª fase (2022)
Enunciado
GRUPO III
A CRISE DO LIBERALISMO EM PORTUGAL: DO OCASO DA MONARQUIA À INSTAURAÇÃO DA DITADURA MILITAR
Documento 1
Discurso de Afonso Costa, chefe do Governo, proferido no Congresso da República, 26 de abril de 1917
O Governo a que [...] tenho a honra de presidir apresenta-se ao Parlamento numa hora grave da nossa vida nacional. [...] O Ministério anterior – cuja obra [...] pôde [...] prestar à Pátria os inesquecíveis serviços que lhe asseguraram já uma situação internacional merecedora do respeito e da admiração de todos os povos cultos – traduziu [...] a unânime aspiração 5 do nosso povo [...]. [...]
A obra da nossa intervenção na guerra tem demandado [...] pesados sacrifícios da Nação, pela necessidade de enviarmos importantes expedições militares para a nossa África, [...] [e] de constituirmos reservas [...] que nos permitam conservar intactas as nossas forças expedicionárias [...]. [...]
10 Os pesados sacrifícios que a guerra nos traz não são apenas representados pelos encargos já aludidos. Outros [...] [referem-se] à necessidade de defesa das nossas costas e ao encarecimento do preço das subsistências. [...] Pelo que diz respeito ao problema das subsistências, cuja gravidade o Governo não desconhece, procurará ele atenuar [...] todas as numerosas dificuldades que do mesmo emergem [...] no que diz respeito ao abastecimento de 15 produtos alimentares e de matérias-primas indispensáveis à agricultura e à indústria [...]. [...]
Entretanto, o novo Ministério cuidará zelosamente do problema das finanças públicas, solicitando a cooperação do Parlamento para a votação de todas as medidas indispensáveis para a criação de novas e mais largas receitas [...]. [...]
Na mesma orientação de garantia em todo o país, e em todos os momentos, da tranquilidade 20 indispensável, o Governo tem a decidida resolução de adotar e praticar uma política que, mantendo e revigorando o prestígio das instituições republicanas, seja [...] mais nacional do que partidária.
Para a manutenção [...] desse prestígio, o Governo velará zelosamente pelo respeito e cumprimento das leis [...] reguladoras das situações definidas do Estado e das Igrejas, 25 aplicando-as com decisão e firmeza [...] a fim de defender a paz pública e o prestígio das instituições de quaisquer perigosos e perturbadores manejos* clericais. [...]
Obra essencialmente nacional e patriótica, o Governo espera que ela terá o apoio do Parlamento, a cujas soberanas determinações a entrega, com a tranquila confiança de que assim cumpre [...] um imperioso dever.
* artimanhas.
in A. H. de Oliveira Marques, Afonso Costa, 2.ª ed., Lisboa, Arcádia, 1975, pp. 425-430. (Texto adaptado)
Documento 2
Conferência de Alfredo Pimenta* no Salão Nobre da Liga Naval Portuguesa, acerca da situação política portuguesa, 26 de fevereiro de 1918
Se, antes de 5 de dezembro, eu dissesse aos que me escutam neste momento que se ia tentar resolver o problema da ordem e que seria o Sr. Sidónio Pais que dirigiria tal tentativa, ninguém me acreditaria [...]. [...]
A nação viu com agrado [...] que se caminhava para a resolução do problema da ordem 5 pública [...]. [...] E a prova disto está em que todos nós respiramos mais tranquilamente [...], todos preferimos o Sr. Sidónio Pais, tendo na mão todos os poderes do Estado, [...] a termos a centena de legisladores no Parlamento [...]. [...]
Quando Portugal, pequeno como é, sem exército e sem marinha, vivia no regime monárquico, tinha uma situação internacional invejável [...]; e hoje, se queremos vencer a antipatia europeia, 10 temos que praticar atos que não nos dignificam nem impõem. [...]
Esta questão que se formula sobre regime parlamentar e regime presidencialista [...] ensina a opinião pública a reconhecer a possibilidade da existência de um governo responsável e independente das tricas e habilidades parlamentares. [...] A República ou é parlamentar, caminhando a passos largos para o anarquismo, ou é presidencialista [...]. Oxalá triunfe o 15 princípio presidencialista! [...]
Em homenagem à Igreja e ao sentimento católico da nação, o regime republicano devia rasgar completamente a Lei da Separação. [...] Em 1910, havia algum conflito entre o Estado e a Igreja? Não. [...] Se não havia conflito, porque foi o regime republicano levantá-lo? [...] Logo depois do 5 de Outubro, houve muitos aplausos à propaganda anticlerical, mas a nação, 20 hoje, está convencida de que o perigo clerical é uma lenda, e de que a Igreja é um elemento insubstituível de ponderação e ordem.
Alfredo Pimenta, A situação política, Lisboa, Livraria Ferreira, 1918. (Texto adaptado)
* historiador; politicamente, inicia-se no anarquismo, aproxima-se depois do republicanismo, acabando por aderir ao ideário monárquico a partir de 1915.
1. Compare as duas perspetivas sobre o regime republicano português, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.
Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. Compare as duas perspetivas sobre o regime republicano português, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.
Resposta: A resposta deve comparar as duas perspetivas relativamente a dois dos seguintes aspetos opostos, fundamentando com excertos: • Sistema político: no Documento 1 (Afonso Costa), defende-se o modelo constitucional de sujeição do poder executivo ao poder legislativo («o Governo espera que ela terá o apoio do Parlamento, a cujas soberanas determinações a entrega»); no Documento 2 (Alfredo Pimenta), defende-se um poder executivo forte / regime presidencialista («todos preferimos o Sr. Sidónio Pais, tendo na mão todos os poderes do Estado, [...] a termos a centena de legisladores no Parlamento» ou «A República ou é parlamentar, caminhando a passos largos para o anarquismo, ou é presidencialista [...] Oxalá triunfe o princípio presidencialista!»). • Ordem pública: no Documento 1, defende-se que a contenção da agitação social e da violência pode ser garantida pelo Governo («garantia em todo o país, e em todos os momentos, da tranquilidade indispensável» ou «defender a paz pública»); no Documento 2, defende-se que a ordem só se consegue com um poder autoritário («seria o Sr. Sidónio Pais que dirigiria tal tentativa [resolver o problema da ordem]» ou «todos nós respiramos mais tranquilamente»). • Questão religiosa: no Documento 1, defende-se o laicismo republicano e a aplicação da Lei da Separação («o Governo velará zelosamente pelo respeito e cumprimento das leis [...] reguladoras das situações definidas do Estado e das Igrejas»); no Documento 2, defende-se a revisão dessa legislação e a aproximação à Igreja («o regime republicano devia rasgar completamente a Lei da Separação» ou «a Igreja é um elemento insubstituível de ponderação e ordem»). • Reconhecimento internacional do regime: no Documento 1, defende-se que a participação na guerra granjeou admiração externa («situação internacional merecedora do respeito e da admiração de todos os povos cultos»); no Documento 2, defende-se que com a República Portugal perdeu o prestígio internacional («se queremos vencer a antipatia europeia, temos que praticar atos que não nos dignificam nem impõem»).
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