Grupo III - 3 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2022

Tema: Portugal da Primeira República ao Estado Novo (1910-1945) · Do exame 1.ª fase (2022)

Enunciado

GRUPO III

PORTUGAL E O MUNDO, DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL AOS ANOS 30

Documento 1 (conjunto documental)

Documento 2

Excertos do diário de Thomaz de Mello Breyner* sobre política nacional e internacional, de setembro a dezembro de 1918

Da política anda isto mal por cá. [...] Da guerra sei que as vantagens dos Aliados continuam. [...] [A] telegrafista [...] comunicou-me que do Porto lhe afirmaram saber-se por um rádio que a Alemanha aceitou as condições do presidente Wilson e este as da Alemanha. [...] O curioso é que não se fala nem da França nem da Inglaterra. É como se não existissem neste momento. [...]

Ficará a Alemanha dividida em pequenos estados? Talvez como era dantes, mas não desaparecerá a raça alemã, nem a sua cultura, nem o seu comércio, nem a sua indústria. [...] Ora, tudo isso reaparecerá, com kaiser ou sem ele. [...] Parece iminente o armistício entre a Alemanha e os Aliados. Venha ele. E agora? O que virá? Temo quase mais a paz do que a guerra, com todos os seus horrores. [...] [E]u não posso nem quero regozijar-me com a queda [...] do grande Império Alemão. Foi uma espoliação à mão armada do mundo inteiro. Uma vergonha. [...]

Parece que as nações aliadas já andam com medo do bolchevismo [...] na Rússia. É que ele alastra e ameaça o resto da Europa. [...] Já se conhecem as condições do armistício. É um roubo à mão armada, é o burro aos coices no cadáver do leão. Nunca houve na história uma infâmia igual. [...]

Fala-se em greve de caminhos de ferro com carácter de revolução social. [...] Eu não creio que seja uma greve, mas sim uma tentativa revolucionária de natureza democrática. Eles, os democráticos**, organizaram a ida para a guerra e agora estão de fora no momento da paz. É bem feito. É o castigo das poucas-vergonhas que fizeram, mandando para França, como se fossem para o matadouro, soldados que ninguém pediu. [...] Alguns operários da construção civil entraram em greve bulhenta e algumas bombas se deitaram ontem à noite e hoje contra os carros elétricos. [...] Isto não foi mais que uma revolução democrática, aproveitando a excitação bolchevista que vai pelo mundo. [...]

Tivemos agora 4 dias de festança para celebrar a revolução do ano passado [...]. A verdade é que nós devemos muitos favores ao Sidónio [Pais]. Devemos-lhe nada menos que a ordem e um relativo sossego. [...] Às 9h telefonava a Teresa, do Campo Grande, dizendo que o Sidónio fora morto a tiro pouco antes da meia-noite quando na Estação do Rossio ia meter-se no comboio para ir para o Porto. [...] O que irá seguir-se? [...] Volta-se outra vez à barafunda. Em dez anos matam-se dois chefes de Estado, depõem-se outros dois, fazem-se 4 revoluções e ainda há quem pretenda ver continuar o antigo sistema.

* foi médico da Casa Real, nomeado pelo rei D. Carlos.

** referência ao Partido Democrático, liderado por Afonso Costa e dominante no sistema político-partidário da Primeira República portuguesa.

in Margarida de Magalhães Ramalho, Thomaz de Mello Breyner. Relatos de uma época. Do final da Monarquia ao Estado Novo, Lisboa, Imprensa Nacional, 2018, pp. 329-338. (Texto adaptado)

Documento 3

3. Explicite duas causas da crise do regime republicano português.

Fundamente as duas causas com excertos relevantes do documento 2.

Enunciado: Grupo III - 3 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2022

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

3. Explicite duas causas da crise do regime republicano português. Fundamente as duas causas com excertos relevantes do documento 2.

Resposta: Explicitação de duas causas da crise do regime republicano português, fundamentadas com excertos relevantes do documento 2, de entre as seguintes: - Greves (ou manifestações violentas) devido à falta de bens de consumo e ao aumento da inflação (ou do custo de vida ou à redução do poder de compra), originando instabilidade social: «greve de caminhos de ferro com carácter de revolução social» OU «operários da construção civil entraram em greve bulhenta» OU «algumas bombas se deitaram ontem à noite e hoje contra os carros elétricos»; - Participação na Grande Guerra, com a mobilização de meios humanos e financeiros, levando ao agravamento do défice orçamental do Estado (ou ao aumento da despesa pública): «mandando para França, como se fossem para o matadouro, soldados que ninguém pediu»; - Violência política associada a golpes militares (ou ao sidonismo) e a tentativas revolucionárias de tomada do poder OU provocada pela rivalidade (ou dissidência) entre diferentes fações de republicanos: «uma tentativa revolucionária de natureza democrática» OU «o Sidónio fora morto a tiro pouco antes da meia-noite» OU «Em dez anos matam-se dois chefes de Estado»; - Incapacidade governativa devido às disputas político-partidárias OU ao carácter parlamentar do regime (ou à sujeição do poder executivo ao legislativo), resultando na queda de sucessivos governos (ou presidentes) OU em tentativas de mudar o regime através de ditaduras militares: «Eu não creio que seja uma greve, mas sim uma tentativa revolucionária de natureza democrática» OU «algumas bombas se deitaram ontem à noite e hoje contra os carros elétricos. [...] Isto não foi mais que uma revolução democrática» OU «Tivemos agora 4 dias de festança para celebrar a revolução do ano passado» OU «Volta-se outra vez à barafunda. Em dez anos [...] depõem-se [...] dois [chefes de Estado], fazem-se 4 revoluções».

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