Grupo III - 3 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2021

Tema: Portugal da Primeira República ao Estado Novo (1910-1945) · Do exame 2.ª fase (2021)

Enunciado

GRUPO III

DO COLAPSO DA PRIMEIRA REPÚBLICA À INSTAURAÇÃO DO ESTADO NOVO EM PORTUGAL

Documento 1

Discurso de António de Oliveira Salazar

na Sala do Conselho de Estado, 30 de julho de 1930

A Ditadura [...] é um fenómeno da mesma ordem dos que por esse mundo fora [...] se observam, tentando colocar o Poder em situação de prestígio e de força contra as arremetidas da desordem, e em condições de trabalhar e de agir pela Nação, sobranceiramente às divisões e ódios dos homens e aos interesses particulares dos grupos. [...]

Todos sabem de onde vimos – de uma das maiores desorganizações que em Portugal se devem ter verificado na economia, nas finanças, na política [...]. Divisões intestinas, [...] desordem constitucional permanente, sucessivas revoluções que [...] fizeram perder a fé no Estado [...]. Debruçado tristemente [...] sobre as ruínas, as misérias, a desorganização [...], o País caiu na «apagada e vil tristeza» do poeta e parecia ter desistido de viver um grande pensamento de renovação interior [...].

Atravessa-se, na ordem interna e na ordem internacional, uma época de [...] fraqueza do Estado [...]. Há que contrapor [...] o Estado forte, mas limitado pela moral, pelos princípios do Direito das gentes, pelas garantias e liberdades individuais [...]. [...]

Não há Estado forte onde o Poder Executivo o não é, e o enfraquecimento deste é a característica geral dos regimes políticos dominados pelo liberalismo individualista ou socialista, pelo espírito partidário e pelos excessos e desordens do parlamentarismo. [...]

Nós temos visto que a adulação* das massas pela criação do «povo soberano» não deu ao povo [...] aquilo de que o povo mais precisa – soberano ou não – que é ser bem governado. [...] Na crise de autoridade que o Estado atravessa, dar-lhe autoridade e força para que mantenha imperturbável a ordem [...]; definir os direitos e garantias dos indivíduos e das coletividades, e estabelecê-los e defendê-los de tal modo que o Estado os não possa desconhecer [...] – isto é liberdade.

Arrancar o poder às clientelas partidárias; sobrepor a todos os interesses o interesse de todos – o interesse nacional; [...] organizar a Nação, [...] e integrar este todo no Estado, que será assim a sua expressão viva – isto é dar realidade à soberania nacional.

Salazar, Antologia. Discursos, notas, relatórios, teses, artigos e entrevistas: 1909-1955, Lisboa, Editorial Vanguarda, 1955, pp. 214-219. (Texto adaptado)

* enaltecimento excessivo.

Documento 2

A institucionalização do Estado Novo,

segundo um manifesto político de Bernardino Machado* (1933)

O abatimento das instituições é deveras inquietante. A imprensa e a tribuna garrotadas [...] pela censura e autorização prévia [...]. Os partidos [...] acham-se imobilizados para os grandes debates que devem iluminar e orientar a consciência nacional. [...] A justiça vilipendiada, ferida na sua dignidade independente [...]. A polícia pratica as violências, as congregações* propagam o terror [...]. [...]

E como há de o povo dar-lhes [a governos tirânicos] o apoio da opinião, se são eles que a abafam [...], como há de rodeá-los e segui-los com fé ardente [...], se não vê diante de si senão os déspotas de hoje, que serão os déspotas de amanhã? [...]

Quem tem ela [a ditadura] consigo? [...] Fala e escreve por ela toda Salazar [...]. Não se atreve a ir à urna dos comícios. [...] Não tem organização eletiva: não há maior medo do que o seu ao livre sufrágio. [...] A ditadura tem abatido, desmantelado, as nossas livres instituições, mas nada com seiva criadora lhes substitui. Tanto apregoa a sua obra de reorganização, e não faz senão derrocar, dissolver, incapaz da mínima ação construtiva. [...]

A ditadura, por mais que fale em ordem, em nacionalismo, nasce e vive da desagregação nacional. [...] Nada há que garanta o direito. Abolição absoluta da lei. [...] Para Salazar não existem normas jurídicas. [...] A sua única lei é que não há nenhuma neste mundo terreno. [...] Até apregoa, no mais inconsciente desvario, [...] que vai dar à nação uma mentalidade nova! Imaginem!

Bernardino Machado, Manifestos políticos (1927-1940), ed. A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Palas Editores, 1978, pp. 461-487. (Texto adaptado)

* Presidente da República em dois mandatos, destituído em ambos por golpes de Estado (1917 e 1926).

** amordaçadas.

*** ordens religiosas.

3. As afirmações seguintes, sobre o salazarismo nos anos 30, são todas verdadeiras.

I. Artistas e escritores contribuíram para a difusão do ideário salazarista.

II. Um dos desígnios do regime consistia em elevar a mente dos portugueses.

III. O Secretariado da Propaganda Nacional promoveu a arte modernista.

IV. A difusão da informação e a opinião eram controladas pelo regime.

V. As exposições então organizadas tinham uma dimensão propagandística.

Identifique as duas afirmações que podem ser comprovadas através da análise do documento 2.

  1. I. Artistas e escritores contribuíram para a difusão do ideário salazarista.
  2. II. Um dos desígnios do regime consistia em elevar a mente dos portugueses.
  3. III. O Secretariado da Propaganda Nacional promoveu a arte modernista.
  4. IV. A difusão da informação e a opinião eram controladas pelo regime.
  5. V. As exposições então organizadas tinham uma dimensão propagandística.

Enunciado: Grupo III - 3 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2021

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

Identifique as duas afirmações que podem ser comprovadas através da análise do documento 2.

Resposta: II e IV

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