Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2026

Tema: Portugal da Primeira República ao Estado Novo (1910-1945) · Do exame 1.ª fase (2026)

Enunciado

GRUPO III

PORTUGAL NO CONTEXTO INTERNACIONAL DO PRIMEIRO PÓS-GUERRA

Documento 1

Intervenções parlamentares de Querubim Guimarães 1

na sessão do Senado de 9 de outubro de 1923

Aos 13 anos dum regime novo que se implantou [...] porque a velha monarquia constitucional caiu por si [...], nada se tem feito do que era exigido pelo povo português como essencial à sua vida. [...] Verificamos, lamentavelmente, que o país se debate numa crise angustiosíssima de economia e de finanças, devido à ruinosa administração dos governos da República. [...]

Como medida de salvação pública, [...] levou-se o país à guerra. Dizia-se que assim era preciso para honra do país, [...] sem se querer saber se tínhamos aqueles elementos necessários que, porventura, nos fizessem suportar as extraordinárias despesas que nos acarretou esse nosso ato, por virtude do qual criámos uma dívida de guerra que não sei quando poderá ser paga [...]. [...] E então o que é que se fez? Lançou-se mão do recurso dos impostos. [...]

Acima da crise financeira e económica, há a crise moral, que é grande [...]. Nós estamos aqui com uma venda nos olhos, não querendo ver o que se passa por esse mundo além, onde [...] há uma ânsia de ordem [...]. Se olho para o Oriente, vejo uma ditadura vermelha encarnada em Lenine, e se olho para o Ocidente, vejo Mussolini. [...] Sr. presidente, é precisamente por isso que nós, [...] combatendo por um ideal [...] que há de ser com certeza o ideal do futuro, porque estamos em face duma verdadeira derrocada das democratizações, é por isso que nós temos muito cuidado [...] na propaganda que continuamos fazendo da restauração do regime velho. [...]

Ainda não me convenci de que dessa intervenção [de Portugal na guerra] tivessem resultado aqueles benefícios que o Sr. presidente do Ministério apresentou, nem ainda me convenci de que [...] fosse uma necessidade duramente imposta pelas circunstâncias. [...] Não é a cegueira política que me leva a ver só erros, a ver só ruínas para o país por parte da administração republicana; são os factos dolorosos, é a verdade palpável.

Disse há pouco que estamos atravessando uma situação económica e financeira difícil, ao que [...] respondeu dizendo que não havia povo nenhum que não sentisse ainda hoje o abalo que trouxe a conflagração tremenda da Europa. O que nós vemos, porém, é que as nações [...] que mais sofreram com a guerra estão fazendo a sua reconstituição económica [...]. [...] O povo português não se ilude já, Sr. presidente, com cantigas. A única coisa que há a fazer é uma obra ditatorial. Eu [...] não me importaria que viesse neste momento um homem nestas condições, tornando o nosso país próspero e desafogado.

https://debates.parlamento.pt/catalogo/r1/cs/01/06/01/077/1923-10-09 (consultado em setembro de 2025). (Texto adaptado)

1 senador eleito por Aveiro, em representação da minoria monárquica.

Documento 2

Intervenções do presidente do Ministério, António Maria da Silva 1,

na sessão do Senado de 9 de outubro de 1923

Alguma coisa tenho feito pela República, e não só pela ordem pública, [...] mas também porque alguma coisa os meus camaradas 2 realizaram, provocando encómios 3 merecidos [...]. [...] De facto, a reconstituição económica do país está-se fazendo [...]. Tudo o que tínhamos direito a receber da Alemanha o temos recebido e [...] muito mais havemos de conseguir. Isto deve provar àquelas pessoas que dizem que entrámos na guerra sem absolutamente nada obtermos, que elas não estão na boa doutrina. [...] Fomos com a consciência de um povo livre, conhecedor dos seus direitos e deveres e pronto a honrar a sua aliança com a Inglaterra. [...]

Eu não estranho nem posso revoltar-me contra o Sr. Querubim Guimarães, porque este regime não é o que ele deseja. Devo, porém, dizer que mesmo antes desta grande conflagração europeia, o problema que assediava todos os economistas era o aumento da carestia da vida. [...] Veio a guerra, com o seu cortejo, e a situação de equilíbrio levará alguns anos a alcançar-se [...]. [...]

O país o que deseja é que os poderes do Estado [...] conquistem algumas vantagens para a sua terra. Lá fora, os representantes da nação envidam todos os esforços para que ela mereça o crédito de todos, e [...] a posse do chefe de Estado a outros deve levar o conhecimento de que Portugal não é um país abandonado. Eu, quando sair, [...] já levo a satisfação de ver o país colocado por tal forma, e receber tais provas de estima [...] de países estrangeiros, [...] que por esse momento feliz para a minha alma de patriota julgo-me pago de todas as injustiças que me têm sido feitas.

https://debates.parlamento.pt/catalogo/r1/cs/01/06/01/077/1923-10-09 (consultado em setembro de 2025). (Texto adaptado)

1 líder do 37.º governo da Primeira República; membro do Partido Republicano Português/Partido Democrático.

2 referência aos ministros das Finanças, Marinha e Agricultura, presentes na sessão.

3 elogios.

1. Compare as duas perspetivas sobre a governação republicana em Portugal, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.

Fundamente a sua resposta, articulando-a com excertos relevantes dos dois documentos.

Enunciado: Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2026

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. Compare as duas perspetivas sobre a governação republicana em Portugal, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta, articulando-a com excertos relevantes dos dois documentos.

Resposta: Na resposta, devem ser explorados dois dos seguintes tópicos (ou outros relevantes): - [capacidade governativa] enquanto no documento 1 se defende que os governos republicanos são incapazes de aplicar políticas para o desenvolvimento do país («ruinosa administração dos governos da República» ou «Não é a cegueira política que me leva a ver só erros... são os factos dolorosos...»), no documento 2 defende-se a capacidade governativa dos republicanos, patente no reconhecimento internacional e no cumprimento do dever («Alguma coisa tenho feito pela República... provocando encómios merecidos» ou «satisfação de ver o país colocado por tal forma...»); - [situação económica do país] enquanto no documento 1 se argumenta que o país atravessa uma profunda crise económica e financeira («crise angustiosíssima de economia e de finanças» ou «criámos uma dívida de guerra que não sei quando poderá ser paga»), no documento 2 salienta-se que a recuperação económica está em curso, apoiada nas indemnizações de guerra da Alemanha («a reconstituição económica do país está-se fazendo» ou «Tudo o que tínhamos direito a receber da Alemanha o temos recebido»); - [participação na guerra] enquanto no documento 1 se critica a intervenção de Portugal no conflito como precipitada e onerosa («extraordinárias despesas que nos acarretou esse nosso ato» ou «Ainda não me convenci de que dessa intervenção... tivessem resultado aqueles benefícios...»), no documento 2 afirma-se que a participação foi um imperativo de honra pela aliança com a Inglaterra e trouxe compensações («Fomos com a consciência de um povo livre... e pronto a honrar a sua aliança com a Inglaterra» ou «Tudo o que tínhamos direito a receber da Alemanha o temos recebido»); - [soluções políticas para os problemas governativos] enquanto no documento 1 se defende a necessidade de um regime autoritário/ditatorial («A única coisa que há a fazer é uma obra ditatorial [...] tornando o nosso país próspero e desafogado»), no documento 2 defende-se a continuidade das instituições democráticas republicanas e a estabilização face à conjuntura pós-bélica («o problema que assediava todos os economistas era o aumento da carestia da vida. [...] Veio a guerra... e a situação de equilíbrio levará alguns anos a alcançar-se»).

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