Grupo II - 2 · Exame Nacional História A Época especial 2022
Tema: Civilização industrial: economia, sociedade e Portugal da Regeneração à crise da monarquia · Do exame Época especial (2022)
Enunciado
GRUPO II
PORTUGAL NO CONTEXTO DA CIVILIZAÇÃO INDUSTRIAL DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX
Reflexões sobre os problemas económicos e políticos do período da Regeneração,
por Augusto Fuschini* (1899)
O ministério de 1886, nos quatro anos de governo, manifestou o último grau de decadência moral, de desordem da administração e de cinismo político. [...] Barros Gomes**, no silêncio da nossa chancelaria, prepara os elementos do mapa cor-de-rosa, que nos deve assegurar a África da costa oriental à ocidental, e, com a sua diplomacia, [...] vai acumulando no horizonte as nuvens negras do ultimato inglês [...]. [...]
[D]urante quarenta anos [1852-1892], sob a influência das teóricas doutrinas do livre-cambismo, [...] os estadistas portugueses deixaram atrasar e esmorecer a nossa indústria e sair em ondas o ouro, [...] sob a forma de onerosos empréstimos externos. [...] Assim como o nosso ouro toma o caminho dos mercados ingleses e franceses, onde vamos fornecer-nos dos melhores produtos, que a nossa indústria protegida poderia produzir, milhares de cidadãos portugueses abandonam o solo pátrio e procuram na emigração refúgio contra a miséria que invade as classes pobres na mãe pátria. [...]
[N]os últimos quarenta anos, as contas públicas [...] manifestam sem exceção défices anuais [...]. [...] É evidente que os défices só podiam ser cobertos por empréstimos levantados no país e no estrangeiro. [...] Os defensores interessados deste sistema de administração preconizavam o desenvolvimento dos grandes fatores materiais da riqueza pública, caminhos de ferro, estradas, portos de mar, etc., etc. [...], como compensando com largueza os encargos dos empréstimos contraídos para os construir. O argumento é assaz contestável, porque [...] parte dos capitais pedidos ao crédito cobriram despesas de carácter diverso, não reprodutivas [...]. [...]
Na monarquia inglesa, verdadeiro culto cerca a pessoa do monarca; todavia, em país algum tem menos força e importância política o poder moderador. Na monarquia portuguesa, observa-se o contrário, apesar de o poder moderador avassalar os restantes poderes do Estado! [...]
A república, que amanhã irradiará da vontade da nação, far-se-á com aqueles [...] que mantiveram sempre puro o seu culto ideal. [...] Serão estes [os republicanos] os salvadores da pátria, que por outra forma não pode ter regeneração. [...]
O que vale entre nós o parlamento [...] todos o sabem: desmoraliza os cidadãos [...]. [...] Apenas os dois partidos de rotação constitucional podem levar representantes à assembleia legislativa. As vantagens partidárias do sistema são de sobra conhecidas. Uma falsa aparência de discussão cobre os acordos prévios. [...] O sistema parlamentar entre nós é, pois, completa ficção.
Augusto Fuschini, O presente e o futuro de Portugal, Lisboa, Companhia Typographica, 1899. (Texto adaptado)
* Ministro da Fazenda em 1892; foi membro do Partido Regenerador.
** Ministro dos Negócios Estrangeiros (1886-1890).
2. Explicite duas causas da crise do sistema político da monarquia constitucional nos finais do século XIX.
Fundamente as duas causas com excertos relevantes do documento.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
Explicite duas causas da crise do sistema político da monarquia constitucional nos finais do século XIX. Fundamente as duas causas com excertos relevantes do documento.
Resposta: A resposta deve explicitar duas das seguintes causas (ou outras equivalentes), acompanhadas dos respetivos excertos: - Repercussão político-social do ultimato inglês a Portugal na sequência da apresentação do projeto do «Mapa Cor-de-Rosa», face à cedência do governo português (ou do monarca) às ambições imperialistas (ou colonialistas) de Inglaterra: «com a sua diplomacia, [...] vai acumulando no horizonte as nuvens negras do ultimato inglês»; - Descrédito público do monarca devido ao seu envolvimento na instabilidade governativa OU na conflitualidade político-partidária, decorrente do exercício do poder moderador: «Na monarquia inglesa, verdadeiro culto cerca a pessoa do monarca; todavia, em país algum tem menos força e importância política o poder moderador. Na monarquia portuguesa, observa-se o contrário, apesar de o poder moderador avassalar os restantes poderes do Estado!»; - Afirmação dos ideais republicanos através de propaganda que explora o descontentamento social com a monarquia, resultando no crescimento da expressão eleitoral do Partido Republicano Português: «A república, que amanhã irradiará da vontade da nação, far-se-á com aqueles [...] que mantiveram sempre puro o seu culto ideal.» OU «Serão estes [os republicanos] os salvadores da pátria, que por outra forma não pode ter regeneração.»; - Ineficácia do sistema político assente no rotativismo partidário (ou alternância no poder dos dois principais partidos), marcada pelo clientelismo OU pela defesa dos interesses pessoais dos governantes em detrimento da governação do reino: «Apenas os dois partidos de rotação constitucional podem levar representantes à assembleia legislativa.» OU «As vantagens partidárias do sistema são de sobra conhecidas. Uma falsa aparência de discussão cobre os acordos prévios.» OU «O sistema parlamentar entre nós é, pois, completa ficção.».
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