Grupo I · Exame Nacional Português 2.ª fase 2026

Tema: Romantismo: Garrett e Camilo · Do exame 2.ª fase (2026)

Enunciado

PARTE B

Leia o texto e as notas.

MANUEL

Oh minha filha, minha filha! (Silêncio longo.) Desgraçada filha, que ficas órfã!... Órfã de pai e de mãe... (Pausa.)... e de família e de nome, que tudo perdeste hoje... (Levanta-se com violenta aflição.) A desgraçada nunca os teve! — Oh Jorge, que esta lembrança é que me mata, que 5 me desespera! (Apertando a mão do irmão, que se levantou após dele e o está consolando do gesto.) É o castigo terrível do meu erro... se foi erro... crime sei que não foi. E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

JORGE

Paciência, paciência: os seus juízos são imperscrutáveis 1. (Acalma e faz sentar o irmão: 10 tornam a ficar ambos como estavam.)

MANUEL

Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra, posto de alvo à irrisão 2 e ao discursar do vulgo 3 ?... Manuel de Sousa Coutinho, o filho de Lopo de Sousa Coutinho, o filho de nosso pai, Jorge!

15 JORGE

Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele...

MANUEL, caindo em si

É verdade. (Pausa; e depois, como quem se desdiz.) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e bebeu até às fezes o cálix 4 das amarguras humanas... (Levantando 20 a voz.) Mas fui eu, eu que lho preparei, eu que lho dei a beber, pelas mãos... inocentes mãos!... dessa infeliz que arrastei na minha queda, que lancei nesse abismo de vergonha, a quem cobri as faces — as faces puras, e que não tinham corado doutro pejo 5 senão do da virtude e do recato... cobri-lhas de um véu d'infâmia que nem a morte há de levantar, porque lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sobre o túmulo a cobrir-lhe a memória de sombras... de 25 manchas que se não lavam! — Fui eu o autor de tudo isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles... Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

JORGE

Vê a palavra que disseste, «desonra»: lembra-te dela e de ti, e considera se podes pleitear 6 misérias com esse homem a quem Deus não quis acudir com a morte antes de conhecer 30 essoutra agonia maior. — Ele não tem...

MANUEL

Ele não tem uma filha como eu, desgraçado... (Pausa.) — uma filha bela, pura, adorada, sobre cuja cabeça — oh, porque não é na minha! — vai cair toda essa desonra, toda a ignomínia 7, todo o opróbrio 8 que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a mim, 35 para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra culpa senão a da origem que eu lhe dei.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, edição de João Dionísio,

Lisboa, INCM, 2022, pp. 237-239.

NOTAS

1 imperscrutáveis – insondáveis; misteriosos.

2 irrisão – chacota; escárnio; zombaria.

3 vulgo – povo.

4 cálix – cálice.

5 pejo – acanhamento; vergonha; pudor.

6 pleitear – disputar.

7 ignomínia – infâmia; desonra.

8 opróbrio – desonra e humilhação públicas.

4.

Infira dois traços da personalidade de Manuel evidenciados no excerto apresentado, fundamentando a sua resposta com elementos textuais pertinentes.

5.

Explicite dois objetivos subjacentes às falas de Jorge.

Enunciado: Grupo I · Exame Nacional Português 2.ª fase 2026

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

4. Infira dois traços da personalidade de Manuel evidenciados no excerto apresentado, fundamentando a sua resposta com elementos textuais pertinentes.

Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - profunda religiosidade, evidenciada na assunção de que a situação de ignomínia em que a sua filha se encontra («Órfã de pai e de mãe... [...] e de família e de nome» – ll. 1-2) é castigo de Deus pelo «erro» que cometeu («E sabe-o Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!» – ll. 6-7); - sentido de dignidade e de honra, patente no facto de se considerar «o homem mais infeliz da terra» (l. 12) por ter sido desonrado o bom nome da sua família (ll. 12-14); - racionalidade, pois, apesar do intenso sofrimento que o dilacera, ouve os argumentos do seu interlocutor e reformula o seu raciocínio («É verdade. (Pausa; e depois, como quem se desdiz.)» – l. 18); - nobreza de carácter/integridade, evidenciada no ato de assumir a responsabilidade pelo sofrimento de D. João de Portugal («bebeu até às fezes o cálix das amarguras humanas... [...] Mas fui eu, eu que lho preparei» – ll. 19-20)/pelo sofrimento que considera ter infligido a outrem, bem como pela sua «desgraça» e pela «desonra» da família («Fui eu o autor de tudo isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles...» – ll. 25-26); - abnegação/altruísmo, patente no facto de desejar que o «opróbrio» (l. 34) do mundo recaia sobre si e não sobre a sua inocente filha, que tanto ama (ll. 33-36).

5. Explicite dois objetivos subjacentes às falas de Jorge.

Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: - acalmar o ânimo exaltado de Manuel, tentando incutir-lhe «paciência» (l. 9); - questionar os pressupostos do discurso de Manuel de Sousa Coutinho («Tu chamas-te o homem mais infeliz da terra... Já te esqueceste que ainda está vivo aquele...» – l. 16); - apaziguar o sofrimento do irmão, recordando-lhe que há outras vítimas da tragédia que se abate sobre a família («lembra-te dela e de ti, e considera se podes pleitear misérias com esse homem» – ll. 28-29)/levando-o a confrontar a dimensão da sua dor com a «agonia maior» (l. 30) de D. João de Portugal, esse que «padeceu mais, padeceu mais longamente» (ll. 18-19).

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