Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2025

Tema: Romantismo: Garrett e Camilo · Do exame Época especial (2025)

Enunciado

PARTE B

Leia o texto e as notas.

MANUEL

(com veemência e medo)

Então desenganas-me... desenganas-me já?... é isso que queres dizer? Fala, homem: não há que esperar?... não há que esperar dali, não é assim? dize: morre, morre?... (desanimado) Também fico sem

5 filha!

JORGE

Não disse tal. Por caridade contigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos oprimida; dormia...

MANUEL

(variando 1)

10 Se Deus quisera que não acordasse!

JORGE

Valha-me Deus!

MANUEL

15 Para mim aqui está esta mortalha 2: (tocando no hábito 3) morri hoje... vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo... não era, Jorge; tu bem sabes que não era: foi um anjo que veio do Céu para me acompanhar na peregrinação da Terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada donde viera e onde me conduzia... Separou-nos o arcanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor, que derramou sobre mim o vaso

20 cheio das lágrimas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cólera... (caindo de tom) Vou com esta mortalha para a sepultura... e, viva ou morta, cá deixo a minha filha no meio dos homens que a não conheceram, que a não hão de conhecer nunca, porque ela não era deste mundo nem para ele... (pausa) — Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso... mas hei de ir, oh! hei de ir vê-la e beijá-la antes de descer à cova... Tu não queres, não podes querer...

JORGE

25 Havemos de ir... quando estiveres mais sossegado... havemos de ir ambos: descansa, hás de vê-la. — Mas isto inda é cedo.

MANUEL

Que horas serão?

JORGE

30 Quatro, quatro e meia. (Vai à porta da esquerda e volta.) São cinco horas, pelo alvor da manhã que já dá nos vidros da igreja. Daqui a pouco iremos; mas sossega.

MANUEL

E a outra... a outra desgraçada, meu irmão?

JORGE

35 Está — imagina por ti —, está como não podia deixar de estar; mas a confiança em Deus pode muito: vai-se conformando. O Senhor fará o resto. Eu tenho fé neste escapulário 4 (tocando no hábito em cima da mesa) para ti e para ela. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os alumiou a ambos. Deixa estar; ainda pode haver dias felizes para quem souber consagrar 5 a Deus as

40 suas desgraças.

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, edição de Maria João Brilhante,

Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 193-196.

NOTAS

1 variando – alucinando; perdendo o juízo.

2 mortalha – lençol ou túnica que envolve um cadáver.

3 hábito – vestimenta usada por um(a) religioso(a).

4 escapulário – parte do vestuário monástico que cai sobre os ombros e o peito.

5 consagrar – oferecer; dedicar.

4.

Explicite a aparente contradição presente nas palavras de Manuel, nas linhas de 3 a 11, tendo em conta o estado emocional da personagem.

5.

Refira o modo como Manuel e Jorge perspetivam a decisão, tomada pelo primeiro, de seguir a vida religiosa, atendendo ao conteúdo das falas de cada uma das personagens, nas linhas de 15 a 24 e de 36 a 40.

6.

As afirmações seguintes referem-se à obra Frei Luís de Sousa.

Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do excerto apresentado:

Enunciado: Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2025

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

4. Explicite a aparente contradição presente nas palavras de Manuel, nas linhas de 3 a 11, tendo em conta o estado emocional da personagem.

Resposta: Por um lado, desesperado, Manuel questiona o irmão sobre o estado de saúde de Maria, receando que esta morra com o desgosto de saber que os pais irão ingressar no convento, deixando-a sozinha no mundo (ll. 3 a 5); por outro lado, enlouquecido, Manuel expressa o desejo de que a filha, Maria, morra durante o sono (l. 11) para escapar à infâmia/à desonra de ser uma filha ilegítima, pois sabe que esta é uma jovem frágil e doente (que ficará sujeita ao preconceito dos homens, por ser considerada fruto do «pecado» dos pais).

5. Refira o modo como Manuel e Jorge perspetivam a decisão, tomada pelo primeiro, de seguir a vida religiosa, atendendo ao conteúdo das falas de cada uma das personagens, nas linhas de 15 a 24 e de 36 a 40.

Resposta: Manuel encara o convento como uma «sepultura» (l. 21), uma «cova» (l. 24), e o hábito como uma «mortalha» (l. 15) que o tapará, agora que morreu para a vida mundana, tal como a vivera até então («morri hoje... vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim» – ll. 15-16); Jorge (sendo frade), confiando na providência divina, acredita que Manuel (tal como Madalena) ainda poderá encontrar a felicidade, oferecendo a Deus o seu sofrimento (ll. 39-40).

6. Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do excerto apresentado.

Resposta: A, B e D

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