Grupo III - 2 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2025

Tema: Primeira Guerra Mundial, primeiro pós-guerra e mutações socioculturais dos anos 20 · Do exame 1.ª fase (2025)

Enunciado

GRUPO III

TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS E SOCIOCULTURAIS NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX

Documento 1

«A Idade do jazz-band », conferência realizada

por António Ferro 1 no Rio de Janeiro, 30 de julho de 1922

Eu não compreendo, de modo algum, a saudade doentia das outras épocas, a nostalgia

das idades mortas [...]. [...] Amemos a nossa hora tal qual ela foi gerada, com todas as suas

monstruosidades, com toda a sua luz e com toda a sua treva... [...] As carpideiras 2 dos

séculos mortos, múmias da tradição e do preconceito, censuram, como velhas rabugentas, o

5 artificialismo da nossa época. [...]

A arte moderna revolucionou a vida, proclamou a humanidade em tudo quanto existe e

em tudo quanto não existe. [...] Todos os seres, todas as coisas, tendem a ser artificializados

[...]. [...] Para essa artificialização [...] está contribuindo, notavelmente, o jazz-band... [...] No

jazz-band, como num écran, cabem todas as imagens da vida moderna. Cabem as ruas

10 barbáricas das grandes cidades, ruas doidas com olhos inconstantes nos placards luminosos

e fugidios, ruas elétricas, ruas possessas de automóveis [...]. [...] E cabe a própria vida, a vida

industrial, que é um jazz-band de roldanas, de guindastes e motores [...]. [...]

A dança é a ideia fixa da mulher, a ideia fixa do seu corpo. [...] As mulheres não amam,

dançam... [...] A valsa é a dança sentimental, romântica, a valsa tem o ritmo de uma declaração

15 de amor... [...] No fox-trot, porém, já não há romantismo, já não há timidez, há despreocupação,

alegria, camaradagem. [...] O shimmy é a dança bolchevista, a dança que socializa todas as

partes do corpo, que as torna iguais, que lhes dá a mesma importância, a mesma função

de alegria e de abandono... [...] Desde as suas toilettes [...] às danças modernas que elas

preferem, [...] as mulheres de hoje têm sido os modelos, os manequins da inquietação do

20 século, desta inquietação cinematográfica [...] que nos renova constantemente... [...]

A Europa envelheceu [...] com as emoções da guerra. [...] Foi a América que lhe valeu,

que lhe injetou, nas veias murchas, a vida artificial do jazz-band. [...] A América é [...],

neste momento, a luz elétrica do mundo! [...] [O]rgulhemo-nos da nossa Idade, da Idade do

jazz-band. O mundo, com a guerra, sofreu como nunca [...]. É justo que o mundo se desforre,

25 que o mundo role pelo espaço no fox-trot das esferas [...].

António Ferro, A Idade do jazz-band, Lisboa, Portugália Livraria-Editora, 1924,

2.ª edição, pp. 42-84. (Texto adaptado)

1 jornalista e escritor; integrou a geração d' Orpheu.

2 mulheres contratadas para chorar nos funerais.

Documento 2

Editorial de apresentação da revista Ordem Nova 1, março de 1926

« Não queirais conformar-vos com este século ». As palavras intimativas do Apóstolo

[S. Paulo] são ainda hoje a declaração de guerra que nós fazemos ao mundo moderno, [...]

cheio de todos os pecados, corroído por todos os vícios e tresandando odores fétidos de

podridão. [...] Não nos iludamos: esta sociedade que contempla embevecida as suas últimas

5 conquistas científicas, [...] esta sociedade sem senso moral, [...] de mulheres sem pudor [...],

não ouve verdades que lhe não sejam ditas em voz bem alta [...]. [...]

Será preciso que revivamos mais uma vez essa tragédia [...] que tem sido a democracia

com as suas mentiras [...] – o sufrágio universal, a soberania nacional, o parlamentarismo, a

opinião pública? [...] Quem, em face [...] das famílias dissolvidas, dos governos impotentes e

10 corruptos [...], da vida artificializada, da matéria triunfante, [...] se recusará a ouvir as palavras

do Apóstolo [...]? [...] Se pensarmos bem, os sinais [...] de reação contra o que é moderno

não são mais do que consequências da revolta do homem contra o anti-humanismo desta

civilização da máquina, que tem por seus patronos o Oiro, a Carne e o Poder.

Anti-humano, sim, consideramos nós esse liberalismo estúpido que se apossou de todas as

15 camadas sociais, [...] negando a força do sangue, a voz dos antepassados, pondo de parte a

tradição [...]. São anti-humanos esses burgueses asquerosos [...] que amam só o imediato [...].

Gente sem fé, [...] diferente da burguesia que nós queremos, formada de elites, classe social

[...] orientada e dirigida superiormente pelo escol 2 intelectual e moral da nação – a nobreza

rural, a Igreja, a tradição e a Inteligência! E que diremos desses pretensos intelectuais que

20 para aí pululam [...], de todos os que fazem «arte pela arte» ou «arte pela vida» sem saberem

o que é a vida! [...]

Por toda a parte o clamor se ergue pedindo um chefe. Entoa-se pela Europa fora o elogio

da Autoridade. Reconhecida a gravidade do momento, requer-se que, no cortejo que passa,

o chefe seja precedido do fascio [...]. [...] Somos contrarrevolucionários e vemos na reação

25 o único remédio para o nosso mal.

«Anunciação», in Ordem Nova, 1 (1926), pp. 5-13.

(Texto adaptado)

1 revista fundada por, entre outros, Marcelo Caetano, e redigida, em grande medida, por jovens estudantes universitários.

2 elite.

2. As afirmações seguintes, sobre o novo quadro geopolítico do primeiro pós-guerra, são todas verdadeiras.

Identifique as duas afirmações que podem ser comprovadas através da análise do documento 1.

Enunciado: Grupo III - 2 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2025

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

Identifique as duas afirmações que podem ser comprovadas através da análise do documento 1.

Resposta: I e IV

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