Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2024

Tema: Primeira Guerra Mundial, primeiro pós-guerra e mutações socioculturais dos anos 20 · Do exame 2.ª fase (2024)

Enunciado

GRUPO III

MUTAÇÕES POLÍTICAS E SOCIOCULTURAIS NO CONTEXTO DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Documento 1

Considerações de Ulrich von Brockdorff-Rantzau, chefe da delegação alemã, sobre o projeto de Tratado de Paz (29/05/1919)

Viemos a Versalhes na expectativa de receber propostas de paz assentes nos princípios acordados. [...] Esperávamos a paz justa que nos fora prometida. Ficámos horrorizados ao constatarmos nesse documento as exigências que a força vitoriosa do adversário nos impõe [...], maiores do que as que o povo alemão pode suportar.

5 Para restaurar o Estado polaco, somos obrigados a renunciar a territórios indiscutivelmente alemães [...]. Obrigam-nos a aceitar que a Prússia Oriental seja amputada do corpo do Estado, condenada a decair e despojada da sua parte norte, [...] que é autenticamente alemã. [...] Uma Alemanha assim mutilada e enfraquecida é obrigada [...] a suportar todas as despesas de guerra do adversário, quantia que ultrapassa toda a riqueza alemã [...]. [...] O povo alemão é

10 excluído da Sociedade das Nações, à qual são confiadas as questões mundiais que a todos interessam. [...]

A delegação alemã reitera o pedido de uma investigação isenta sobre a responsabilidade pela guerra [...]. [...] Apenas a confiança numa análise imparcial da questão da culpa pode incutir nos povos hostis o estado de espírito adequado à construção da Sociedade das Nações. [...]

15 É verdade que os tratados de paz das grandes potências têm, na história das últimas décadas, proclamado repetidamente o direito do mais forte. Mas cada um desses tratados deu origem à guerra mundial ou prolongou-a. Sempre que, nesta guerra, o vencedor se dirigiu ao vencido [...], as suas palavras violentas nada mais foram que sementes de discórdia. Os objetivos elevados que os nossos adversários se propuseram, [...] uma paz justa e duradoura,

20 exigem um Tratado com um espírito diferente. Só a cooperação de todos os povos [...] pode construir uma paz duradoura. Não temos ilusões quanto à força do ódio e da amargura que esta guerra gerou [...].

http://documentsdedroitinternational.fr/ressources/Versailles/Note%2016.pdf

(consultado em setembro de 2023). (Texto traduzido e adaptado)

Documento 2

Discurso de Georges Clemenceau, presidente do Conselho de Ministros francês e ministro da Guerra 1 (04/11/1919)

Responsável por crimes inomináveis, o militarismo prussiano, senhor da Alemanha, foi fulminado por um destino vingador no preciso momento em que acreditava poder consumar [...] a sujeição dos povos civilizados. [...]

Que quadro de organização europeia, ou mesmo mundial, oferece o Tratado de Paz [...]?

5 [...] Os chefes de governo das principais Nações do mundo reuniram-se em Paris [...] para redesenhar o mapa da Europa, em nome do direito dos povos à autodeterminação. Um empreendimento inédito! [...] Com a restituição dos seus territórios, quisemos dar-lhes [...] meios para proverem às necessidades da sua vida nacional, e nada foi poupado na fixação das fronteiras, de modo a excluir a possibilidade de quaisquer conflitos. [...] Pretendeu-se

10 estabelecer uma paz justa, permanente, sob os auspícios de uma Sociedade das Nações encarregada de manter e de promover todas as garantias da nova ordem. [...]

Os problemas mais difíceis da vida internacional [...] foram enfrentados com um espírito superior de justiça e de conciliação [...]. [...] Tal como está, [o Tratado] abre caminhos bastante amplos para o estabelecimento de uma justiça melhor a favor dos homens de boa vontade.

15 É preciso reconhecer [...] que as reparações a que temos direito pela terrível devastação dos dez departamentos 2 mais ricos da França nos foram concedidas com demasiada parcimónia 3. [...] [S]eria incompreensível recusar ajuda financeira à Nação que mais sofreu e que foi publicamente reconhecida como a sentinela avançada da civilização. [...]

Quer num quadro internacional quer nacional, não é a mesma organização jurídica que,

20 em todos os domínios, se impõe [...] como regra da nossa ação? Seja qual for o seu nome, os governos estão agora nas mãos dos povos. [...] A consecução da igualdade social, com a subida definitiva ao poder dos operários e dos camponeses, é o facto capital dos tempos modernos nos países civilizados. [...] Na ordem social, é necessário acabar com os conflitos nefastos entre o capital e o trabalho.

https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k204507p?rk=107296;4 (consultado em setembro de 2023).

(Texto traduzido e adaptado)

1 proferido em Estrasburgo, no contexto da campanha eleitoral para as legislativas de 16 de novembro de 1919.

2 divisões administrativas em que a França está organizada.

3 moderação.

1. Compare as duas perspetivas sobre as negociações e as consequências da paz no término da Primeira Guerra Mundial, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.

Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Enunciado: Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2024

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. Compare as duas perspetivas sobre as negociações e as consequências da paz no término da Primeira Guerra Mundial, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Resposta: A resposta deve comparar as duas perspetivas quanto a dois dos seguintes aspetos de oposição, fundamentando com excertos relevantes: 1. Processo de negociações para a paz: - *Documento 1 (Brockdorff-Rantzau):* Defende que as negociações de paz são injustas para os derrotados («Esperávamos a paz justa que nos fora prometida.» / «Ficámos horrorizados ao constatarmos [...] as exigências que a força vitoriosa do adversário nos impõe» / «os tratados de paz das grandes potências têm [...] proclamado repetidamente o direito do mais forte»). - *Documento 2 (Clemenceau):* Defende que os Aliados se guiaram por princípios de justiça e conciliação («Os problemas mais difíceis da vida internacional [...] foram enfrentados com um espírito superior de justiça e de conciliação» / «[o Tratado] abre caminhos bastante amplos para o estabelecimento de uma justiça melhor»). 2. Responsabilidade pela guerra: - *Documento 1:* Defende a recusa da culpa exclusiva da Alemanha, sugerindo uma análise imparcial («pedido de uma investigação isenta sobre a responsabilidade pela guerra» / «análise imparcial da questão da culpa»). - *Documento 2:* Atribui a culpa exclusiva ao militarismo e expansionismo alemão («Responsável por crimes inomináveis, o militarismo prussiano, senhor da Alemanha» / «no preciso momento em que acreditava poder consumar [...] a sujeição dos povos civilizados»). 3. Condições impostas à Alemanha (reparações): - *Documento 1:* Considera as reparações incomportáveis e ruinosas («é obrigada [...] a suportar todas as despesas de guerra do adversário, quantia que ultrapassa toda a riqueza alemã»). - *Documento 2:* Defende a legitimidade e necessidade das reparações para reconstruir a França («as reparações a que temos direito pela terrível devastação dos dez departamentos mais ricos da França» / «[S]eria incompreensível recusar ajuda financeira à Nação que mais sofreu»). 4. Novo ordenamento geopolítico europeu: - *Documento 1:* Denuncia a perda ilegítima de territórios alemães («somos obrigados a renunciar a territórios indiscutivelmente alemães» / «Obrigam-nos a aceitar que a Prússia Oriental seja amputada do corpo do Estado»). - *Documento 2:* Defende o redesenhar do mapa com base na autodeterminação dos povos e na prevenção de conflitos («redesenhar o mapa da Europa, em nome do direito dos povos à autodeterminação» / «nada foi poupado na fixação das fronteiras, de modo a excluir a possibilidade de quaisquer conflitos»). 5. Manutenção da paz no pós-guerra: - *Documento 1:* Alerta que a humilhação e a exclusão da Alemanha da Sociedade das Nações gerarão ódio e futuros conflitos («as suas palavras violentas nada mais foram que sementes de discórdia» / «Não temos ilusões quanto à força do ódio e da amargura que esta guerra gerou»). - *Documento 2:* Confia na Sociedade das Nações como garantia de uma ordem justa e duradoura («estabelecer uma paz justa, permanente, sob os auspícios de uma Sociedade das Nações» / «encarregada [a Sociedade das Nações] de manter e de promover todas as garantias da nova ordem»).

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