Grupo IV - 4 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2024

Tema: O mundo atual: fim da Guerra Fria, mundo unipolar, União Europeia e globalização · Do exame 1.ª fase (2024)

Enunciado

GRUPO IV

O SISTEMA GEOPOLÍTICO DA GUERRA FRIA E O SEU DESFECHO

Documento 1

Impactos na Europa do fim da Guerra Fria, segundo John J. Mearsheimer 1 (1990)

Se a Guerra Fria terminar, penso que aumentará bastante a probabilidade de grandes crises e de guerras na Europa [...]. Numa Europa sem as superpotências, é provável que, nas próximas décadas, [...] haja mais propensão para a violência do que nos últimos 45 anos. [...] [A] ausência de guerra na Europa, desde 1945, foi consequência de três fatores: a distribuição bipolar do poder militar no continente; a idêntica capacidade militar [...] dos Estados Unidos e da União Soviética; e o facto de ambas as superpotências estarem armadas com um vasto arsenal nuclear. [...]

No pós-Guerra Fria, os dois Estados mais poderosos da Europa serão provavelmente a Alemanha e a União Soviética. [...] A Europa Ocidental não mudará muito, embora os Estados desta região tenham de se preocupar com uma possível ameaça alemã no seu flanco oriental. O potencial de conflito [...] será considerável. [...] Sem militares estacionados nos Estados adjacentes à Alemanha, nem soviéticos nem norte-americanos poderão ajudar a conter o poder alemão. [...]

No rescaldo da Guerra Fria, o cenário mais provável será o de maior proliferação nuclear na Europa. Este prognóstico está carregado de perigos [...]. [...] Proliferação desmedida, mesmo que bem gerida, aumentará os riscos resultantes de haver muitos dedos no botão nuclear – acidente, uso não autorizado ou irracional, ou captura por terroristas. [...]

Os custos da Guerra Fria foram, sem dúvida, consideráveis. [...] Consumiu riqueza nacional ao originar grandes e dispendiosas estruturas defensivas [...]. Multiplicou conflitos sangrentos no Terceiro Mundo. [...] Contudo, os custos materiais e humanos [...] foram bem menores que os da ordem europeia de 1900-1945, com a sua enorme violência e sofrimento. [...]

Ao Ocidente interessa assegurar a paz na Europa. Interessa-lhe, portanto, manter a ordem da Guerra Fria [...]. Todavia, o epílogo da Guerra Fria está, sobretudo, nas mãos da União Soviética, [...] [que] é a única superpotência que pode ameaçar seriamente invadir a Europa; a ameaça soviética é a cola que mantém a NATO unida. Afastada essa ameaça, é provável que os Estados Unidos abandonem o continente e que a aliança defensiva que lideram há quarenta anos se desintegre. Isto acabaria com a ordem bipolar que tem caracterizado a Europa nos últimos 45 anos.

John J. Mearsheimer, «Back to the future: instability in Europe after the Cold War», in International security, 15/1 (1990), pp. 5-56. (Texto traduzido e adaptado)

1 professor de Ciência Política na Universidade de Chicago, EUA.

Documento 2

Impactos na Europa do fim da Guerra Fria, segundo Stephen Van Evera 1 (1990)

Alguns observadores advertem que a Europa pode voltar ao seu passado belicoso logo que as superpotências desapareçam. Tal visão sustenta que um sistema bipolar é intrinsecamente mais pacífico que um multipolar. [...]

Defendo que [...] estas visões pessimistas assentam em receios infundados e que o risco [...] é baixo. As guerras europeias deste século resultaram sobretudo de fatores militares e de condições internas que, em grande parte, desapareceram e não voltam. [...] O retorno ao multipolarismo não colocará especiais riscos [...]. A Alemanha passou por uma transformação social que removeu as raízes da sua agressividade pretérita, e é expectável que uma Alemanha reunificada permaneça um membro responsável da Comunidade Europeia. [...]

A possibilidade da proliferação nuclear deve ser vista como benéfica para a paz na Europa. A proliferação comportará riscos óbvios. [...] Contudo, estes riscos podem ser controlados pelas atuais potências nucleares. [...] Se a proliferação for contida e controlada [...], pode reforçar a paz na Europa ao inviabilizar as [guerras de] conquista. [...]

É plausível [...] que os Estados Unidos continuem a exercer um papel ativo no equilíbrio, pelo menos, da Europa Ocidental, mesmo depois da retirada soviética da Europa de Leste. Por isso, é improvável que, na nova Europa, ressurja o perigo de equilíbrios diplomáticos instáveis. [...] O mundo do pós-Guerra Fria ainda não emergiu, mas os primeiros sinais indicam que os que preveem uma completa retirada norte-americana da Europa estão enganados.

Stephen Van Evera, «Primed for peace: Europe after the Cold War», in International security, 15/3 (1990), pp. 7-57. (Texto traduzido e adaptado)

1 professor de Ciência Política no Massachusetts Institute of Technology, EUA.

4. Compare as duas perspetivas sobre o equilíbrio político europeu do pós-Guerra Fria, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.

Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Enunciado: Grupo IV - 4 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2024

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

4. Compare as duas perspetivas sobre o equilíbrio político europeu do pós-Guerra Fria, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Resposta: A resposta deve comparar as perspetivas dos documentos 1 e 2 quanto a dois dos seguintes aspetos em que se opõem, fundamentando com excertos relevantes: - Segurança europeia: no Documento 1 defende-se que o fim do equilíbrio bipolar poderá conduzir ao ressurgimento de conflitos ou crises («aumentará bastante a probabilidade de grandes crises e de guerras na Europa»), enquanto no Documento 2 se sustenta que a Europa está apaziguada e que o multipolarismo não trará perigo («estas visões pessimistas assentam em receios infundados», «o retorno ao multipolarismo não colocará especiais riscos»). - Reunificação alemã: no Documento 1 receia-se o ressurgimento da ameaça alemã sem a tutela das superpotências («possível ameaça alemã», «conter o poder alemão»), enquanto no Documento 2 se defende que a Alemanha passou por transformações que removeram a sua agressividade e permanecerá integrada na Comunidade Europeia («a Alemanha passou por uma transformação social que removeu as raízes da sua agressividade pretérita»). - Proliferação nuclear: no Documento 1 é vista com perigo acrescido de conflito («cenário [...] de maior proliferação nuclear na Europa. Este prognóstico está carregado de perigos»), enquanto no Documento 2 é considerada um fator de dissuasão e benefício («proliferação nuclear deve ser vista como benéfica para a paz na Europa»). - Aliança transatlântica / Presença dos EUA: no Documento 1 antevê-se a retirada norte-americana e a desintegração da NATO («provável que os Estados Unidos abandonem o continente e que a aliança defensiva [...] se desintegre»), enquanto no Documento 2 se afirma a continuidade do papel ativo dos EUA na segurança europeia («é plausível [...] que os Estados Unidos continuem a exercer um papel ativo no equilíbrio»).

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