Grupo IV · Exame Nacional História A Época especial 2023

Tema: O mundo atual: fim da Guerra Fria, mundo unipolar, União Europeia e globalização · Do exame Época especial (2023)

Enunciado

GRUPO IV

O ESTADO DO MUNDO À ENTRADA DO NOVO MILÉNIO: QUADRO GEOPOLÍTICO E ELEMENTOS MARCANTES DA ATUALIDADE

Documento 1

Presença dos EUA no mundo, na perspetiva do historiador Tony Judt (2002)

A América, além de provocar ressentimento pelo que é, alimenta a antipatia pelo que faz. [...] Os Estados Unidos costumam ser um cidadão internacional delinquente. Têm relutância em aderir a iniciativas conjuntas ou a acordos internacionais [...]. [...] A atitude da América em relação às Nações Unidas e aos seus organismos é fria, para não irmos mais longe. [...] Segundo o credo unilateralista da administração Bush [...], a Guerra Fria acabou e a poeira assentou. [...] A política externa tem que ver com interesses nacionais. Os interesses nacionais são servidos pelo exercício do poder. O poder tem que ver com armas e com a vontade de as usar, e nós [americanos] temos as duas coisas. [...]

Se os Estados Unidos querem vencer a sua guerra contra o terror, se querem ter êxito na [...] liderança mundial, vão necessitar da ajuda e da compreensão de terceiros, em particular no trato com Estados árabes, muçulmanos e outros pobres e ressentidos pelo seu atraso. [...] Os «Estados falhados», em cujos detritos os terroristas florescem, têm de ser reconstruídos – os Estados Unidos são culpados de não se interessarem por esta tarefa [...], num contraste deprimente com o seu desempenho em 1945. A América bombardeia e os outros ficam com o trabalho complicado e perigoso da reconstrução.

A União Europeia [...] contribui atualmente com dez vezes mais tropas para a manutenção de paz em todo o mundo do que os Estados Unidos [...]. [...] Não obstante a gabarolice de machão que por vezes passa por análise de política externa na Washington contemporânea, os Estados Unidos dependem completamente dos seus amigos e aliados para atingirem os seus objetivos. [...]

O propósito da Nato tornou-se obscuro, e as opiniões dividem-se [...] acerca de se saber se e como os europeus se devem organizar coletivamente para a sua própria defesa na ausência da ameaça soviética. A União Europeia, livre para se alargar para leste, está absorvida por debates internos sobre a forma de o fazer e das consequências para a sua governança. [...]

Por causa do euro, a UE impôs aos seus membros restrições severas em termos de despesa [...]. E a isto há que acrescentar a retórica anti-imigração incendiária da extrema-direita.

Tony Judt, Quando os factos mudam. Ensaios 1995-2010, Lisboa, Edições 70, 2015, pp. 197-215. (Texto adaptado)

Documento 2

O papel dos EUA na política mundial, segundo o presidente norte-americano George W. Bush (2003)

Aprendemos uma lição: os perigos do nosso tempo têm de ser enfrentados de forma ativa e vigorosa, antes que os vejamos abaterem-se novamente sobre os nossos céus e sobre as nossas cidades. E estabelecemos um objetivo: não permitiremos o triunfo do medo e da violência [...]. [...] Prendemos ou afastámos muitos dos líderes da Al Qaeda. Por todo o mundo estamos a caçar os assassinos um a um. [...]

No Iraque, um ditador fabrica e oculta armas que podem permitir-lhe dominar o Médio Oriente e intimidar o mundo civilizado – não iremos permiti-lo. [...] Mesmo que tenhamos de usar a força, os Estados Unidos e a nossa coligação estão prontos para ajudar os cidadãos de um Iraque libertado. Providenciaremos cuidados médicos aos doentes e estamos agora a mobilizar quase três milhões de rações de combate para alimentar os famintos. [...] Reconstruir o Iraque exigirá um compromisso firme de muitas nações, incluindo a nossa: permaneceremos no Iraque o tempo que for necessário [...]. [...] Depois de derrotarmos os inimigos, não deixámos para trás exércitos de ocupação, deixámos constituições e parlamentos. [...]

Ao enfrentar o Iraque, os Estados Unidos demonstram também o seu compromisso com instituições internacionais eficazes. Somos um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. [...] O mundo precisa hoje e precisará no futuro de organismos internacionais com autoridade e determinação para travar a difusão do terror e das armas químicas, biológicas e nucleares. As ameaças a todos devem ser respondidas por todos. [...]

Ouvi atentamente os desejos de paz dos povos e dos líderes de todo o mundo. Todos desejamos a paz. A ameaça à paz não vem daqueles que procuram dar resposta às justas aspirações do mundo civilizado; a ameaça à paz vem daqueles que desrespeitam essas aspirações. Se tivermos de agir, agiremos para conter a violência e defender a causa da paz. [...]

Muito é pedido à América [...]. O trabalho que nos espera é exigente. [...] Contudo, a segurança da nossa nação e a esperança de milhões depende de nós, e os americanos não viram costas aos seus deveres por estes serem difíceis. Já enfrentámos grandes desafios no passado e enfrentaremos os desafios do nosso tempo.

https://georgewbush-whitehouse.archives.gov/infocus/bushrecord/documents/Selected_Speeches_George_W_Bush.pdf (consultado em 18/12/2022). (Texto traduzido e adaptado)

1.

Compare as duas perspetivas sobre a hegemonia norte-americana no mundo após o fim da Guerra Fria, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem.

Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

2.

Explicite dois desafios com que a União Europeia se confronta, no âmbito da construção do projeto comum.

Fundamente os dois desafios com excertos relevantes do documento 1.

Enunciado: Grupo IV · Exame Nacional História A Época especial 2023

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

1. Compare as duas perspetivas sobre a hegemonia norte-americana no mundo após o fim da Guerra Fria, expressas nos documentos 1 e 2, quanto a dois aspetos em que se opõem. Fundamente a sua resposta com excertos relevantes dos dois documentos.

Resposta: A resposta deve comparar dois aspetos em que as perspetivas se opõem, integrando excertos relevantes dos documentos 1 e 2, considerando tópicos como: - Papel nas instituições e acordos internacionais: no doc. 1 defende-se que os EUA desvalorizam compromissos e praticam o unilateralismo («Os Estados Unidos costumam ser um cidadão internacional delinquente»); no doc. 2 defende-se o respeito/compromisso com as instituições internacionais e o multilateralismo («Ao enfrentar o Iraque, os Estados Unidos demonstram também o seu compromisso com instituições internacionais eficazes»). - Determinantes da política externa: no doc. 1 a atuação é movida por interesses geoestratégicos nacionais («A política externa tem que ver com interesses nacionais»); no doc. 2 afirma-se a defesa de princípios universalistas de paz e liberdade («defender a causa da paz»). - Capacidade de intervenção: no doc. 1 refere-se a dependência de aliados e a insuficiência da via puramente militar («os Estados Unidos dependem completamente dos seus amigos e aliados»); no doc. 2 afirma-se a capacidade hegemónica e militar para agir («não permitiremos o triunfo do medo e da violência»). - Consequências das intervenções: no doc. 1 critica-se o abandono e a criação de desestruturação («A América bombardeia e os outros ficam com o trabalho complicado e perigoso da reconstrução»); no doc. 2 defende-se a promoção de valores democráticos e direitos humanos («deixámos constituições e parlamentos»).

2. Explicite dois desafios com que a União Europeia se confronta, no âmbito da construção do projeto comum. Fundamente os dois desafios com excertos relevantes do documento 1.

Resposta: A resposta deve explicitar dois desafios da UE fundamentados com o Documento 1, de entre os seguintes tópicos: - Manutenção da coesão do projeto europeu face ao alargamento a leste e à necessidade de ajustar as instituições e a governança a uma maior diversidade («A União Europeia, livre para se alargar para leste, está absorvida por debates internos sobre a forma de o fazer e das consequências para a sua governança»); - Afirmação do euro e gestão dos constrangimentos orçamentais e critérios de convergência impostos às economias («Por causa do euro, a UE impôs aos seus membros restrições severas em termos de despesa»); - Construção de uma política externa e de defesa comum face às resistências à transferência de soberania ou divergências com a NATO («as opiniões dividem-se [...] acerca de se saber se e como os europeus se devem organizar coletivamente para a sua própria defesa»); - Adoção de políticas consensuais para a integração de imigrantes e combate à extrema-direita e à xenofobia («E a isto há que acrescentar a retórica anti-imigração incendiária da extrema-direita»).

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