Grupo I · Exame Nacional Português 1.ª fase 2026

Tema: Realismo: Eça de Queirós e Cesário Verde · Do exame 1.ª fase (2026)

Enunciado

PARTE B

Leia as cinco estrofes seguintes, extraídas da primeira parte do poema «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde, e as notas.

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado 1 inglês vogam os escaleres 2;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

5 Num trem de praça arengam 3 dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins 4 do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;

10 Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras 5;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras 6;

15 E algumas, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas,

20 E o peixe podre gera os focos de infeção!

Cesário Verde, Cânticos do Realismo. O Livro de Cesário Verde, Lisboa, INCM, 2015, p. 123.

NOTAS

1 couraçado – navio de guerra.

2 escaleres – pequenas embarcações para transporte de pessoas de um navio para terra.

3 arengam – discutem.

4 querubins – anjos.

5 obreiras – trabalhadoras.

6 pilastras – pilares; colunas.

4.

Refira duas situações observadas pelo sujeito poético – uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais – nas quais sejam evidentes os contrastes no modo como são representados estes elementos da paisagem física e humana.

5.

Explicite dois sentimentos revelados pelo sujeito poético, tendo em conta o modo como este descreve as varinas. Fundamente cada um desses sentimentos através da referência a um recurso expressivo relevante, ilustrado com um elemento textual.

Enunciado: Grupo I · Exame Nacional Português 1.ª fase 2026

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

4. Refira duas situações observadas pelo sujeito poético – uma relativa à cidade de Lisboa e outra relativa aos seus tipos sociais – nas quais sejam evidentes os contrastes no modo como são representados estes elementos da paisagem física e humana.

Resposta: Devem ser abordados os tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes: O sujeito poético observa contrastes, por exemplo: – Na cidade de Lisboa: • entre a riqueza da cidade cosmopolita, caracterizada pelos «hotéis da moda» que «Flamejam» (v. 4), e a pobreza dos bairros «aonde miam gatas, / E o peixe podre gera os focos de infeção» (vv. 19-20). – Nos tipos sociais: • entre a vida mais fácil de alguns tipos sociais, como a dos dois dentistas, que se deslocam «Num trem de praça» (v. 5)/a dos «querubins do lar» que «flutuam nas varandas» (v. 7)/a dos lojistas que se aborrecem às portas das lojas (v. 8), e a vida difícil das varinas, que se deslocam a pé, descalças, e que trabalham «Desde manhã à noite» nas «descargas de carvão» (vv. 17-18).

5. Explicite dois sentimentos revelados pelo sujeito poético, tendo em conta o modo como este descreve as varinas. Fundamente cada um desses sentimentos através da referência a um recurso expressivo relevante, ilustrado com um elemento textual.

Resposta: Devem ser abordados dois dos tópicos seguintes, ou outros igualmente relevantes, correspondendo cada um dos tópicos a um dos sentimentos: – Por um lado, o sujeito poético revela compaixão/indignação perante a vida difícil das varinas, o que está patente, por exemplo, no recurso: • à metáfora presente em «embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas» (vv. 15-16), através da qual se sugere o destino cruel que condena os seus filhos desde a nascença; • à exclamação presente em «Descalças!» (v. 17), que enfatiza a dureza das condições em que executam diariamente os seus trabalhos, «Nas descargas de carvão, / Desde manhã à noite» (vv. 17-18); • a vocábulos como a forma verbal «apinham-se», o adjetivo «podre» e a expressão nominal «focos de infeção», sugestivos das péssimas condições sanitárias dos bairros sobrelotados onde habitam (vv. 19-20); • à exclamação presente no verso 20 («E o peixe podre gera os focos de infeção!»), que reforça a insalubridade dos bairros onde moram. – Por outro lado, o sujeito poético revela uma profunda admiração pela robustez física e pela atitude das varinas, o que se evidencia, por exemplo, no recurso: • à metáfora presente em «cardume negro» (v. 11), para representar a sua força coletiva/o luto pela morte de entes queridos; • à hipérbole presente em «hercúleas»/à adjetivação em «hercúleas» (v. 11), «opulentas» (v. 13) e «varonis» (v. 14), para enaltecer a sua resistência extraordinária/a sua força física (semelhante à força dos homens)/à adjetivação em «galhofeiras» (v. 11), para exprimir a sua alegria, apesar do trabalho árduo e da vida difícil; • à exclamação integrada no verso 13 para transmitir não só a imponência física destas figuras, mas também a ideia de movimento e de sensualidade – «Vêm sacudindo as ancas opulentas!»; • à comparação presente em «recordam-me pilastras» (v. 14)/ao gerúndio «Correndo» associado à expressão nominal «com firmeza» (v. 12), para traduzir a ideia de vigor físico/vitalidade.

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