Grupo I - Parte C · Exame Nacional Português 1.ª fase 2023

Tema: Poesia trovadoresca, Fernão Lopes e Gil Vicente · Do exame 1.ª fase (2023)

Enunciado

PARTE C

Leia a cantiga de amor a seguir transcrita, tendo em vista o estabelecimento de uma comparação com o soneto camoniano apresentado na Parte B desta prova.

A dona que eu am'e tenho por senhor

amostrade-mi-a, Deus, se vos en prazer for 1,

senom dade-mi 2 a morte.

A que tenh'eu por lume 3 destes olhos meus

5 e por que choram sempr', amostrade-mi-a, Deus,

senom dade-mi a morte.

Essa que vós fezestes melhor parecer

de quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer 4,

senom dade-mi a morte.

10 Ai Deus! que mi a fezestes mais ca mim amar 5,

mostrade-mi-a, u 6 possa com ela falar,

senom dade-mi a morte.

Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, Vol. I, edição de Graça Videira Lopes, Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, 2016, pp. 151-152.

NOTAS

1 amostrade-mi-a, Deus, se vos en prazer for – mostrai-ma, Deus, se vos agradar.

2 dade-mi – dai-me.

3 lume – luz.

4 fazede-mi-a veer – fazei-me vê-la.

5 mi a fezestes mais ca mim amar – fizeste com que eu a amasse mais do que a mim próprio.

6 u – onde.

PARTE B

Leia o poema e as notas.

Quem vê, Senhora, claro e manifesto 1

o lindo ser de vossos olhos belos,

se não perder a vista só em vê-los,

já não paga o que deve a vosso gesto 2.

5 Este me parecia preço honesto;

mas eu, por de vantagem merecê-los,

dei mais a vida e alma por querê-los,

donde já me não fica mais de resto.

Assi que a vida e alma e esperança

10 e tudo quanto tenho, tudo é vosso,

e o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança 3

o dar-vos quanto tenho e quanto posso

que, quanto mais vos pago, mais vos devo.

Luís de Camões, Rimas, edição de A. J. da Costa Pimpão, Coimbra, Almedina, 1994, p. 125.

NOTAS

1 claro e manifesto – de forma clara e incontestável.

2 gesto – rosto.

3 bem-aventurança – grande felicidade.

7.

Escreva uma breve exposição na qual compare os poemas das partes B e C quanto às ideias expressas.

A sua exposição deve incluir:

uma introdução;

um desenvolvimento no qual explicite um aspeto em que os poemas se aproximam e um aspeto em que os poemas se distinguem;

uma conclusão adequada ao desenvolvimento do texto.

Enunciado: Grupo I - Parte C · Exame Nacional Português 1.ª fase 2023

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

7. Escreva uma breve exposição na qual compare os poemas das partes B e C quanto às ideias expressas.

Resposta: Exposição estruturada em três partes (introdução, desenvolvimento e conclusão). Aspetos de aproximação (abordar um dos tópicos seguintes, ou outro igualmente relevante): – ambos os sujeitos poéticos revelam uma profunda devoção pelas suas senhoras, o que se evidencia no facto de o sujeito poético do soneto de Camões descrever a amada como aquela a quem deu «a vida e alma e esperança / e tudo quanto tenho, tudo é vosso» (vv. 9 e 10), enquanto o sujeito poético da cantiga de amor descreve a amada como a luz dos seus olhos (v. 4)/aquela que ama mais do que a si mesmo (v. 10)/aquela a quem serve/presta vassalagem (v. 1); – ambos os sujeitos poéticos enaltecem as damas por quem estão apaixonados, destacando a sua beleza, o que está patente no facto de o sujeito poético do soneto de Camões descrever a «Senhora» como alguém cujos olhos belos fascinam quem a vê («o lindo ser de vossos olhos belos, / se não perder a vista só em vê-los» – vv. 2 e 3), enquanto o sujeito poético da cantiga de amor descreve a amada como um ser criado por Deus, que a fez a mais bela de todas as mulheres (vv. 7 e 8). Aspetos de distinção (abordar um dos tópicos seguintes, ou outro igualmente relevante): – no soneto, o sujeito poético exprime comprazimento na entrega total de si à dama, o que se evidencia, por exemplo, nos versos 7 e 8 («dei mais a vida e alma por querê-los, / donde já me não fica mais de resto.») e nos versos 12 e 13 («é tamanha bem-aventurança / o dar-vos quanto tenho e quanto posso»), enquanto, na cantiga de amor, o sujeito poético expressa o seu sofrimento amoroso (coita d'amor), pedindo a Deus que lhe dê a morte, se não puder ver a amada (vv. 2 e 3, 5 e 6, 8 e 9) ou com ela falar (vv. 11 e 12); – no soneto, o sujeito poético faz referência aos olhos femininos para enfatizar a beleza da «Senhora», como se constata em «Quem vê, Senhora, claro e manifesto / o lindo ser de vossos olhos belos» (vv. 1 e 2), enquanto, na cantiga de amor, o sujeito poético se refere aos seus próprios olhos para evidenciar o seu sofrimento devido à ausência da amada, como se verifica em «destes olhos meus / e por que choram sempr'» (vv. 4 e 5).

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