Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2024

Tema: Os Lusíadas e Mensagem · Do exame Época especial (2024)

Enunciado

PARTE B

Leia a contextualização, o texto e as notas.

Contextualização

As estâncias 15 a 18 do Canto IV de Os Lusíadas, abaixo transcritas, integram o plano da História de Portugal, quando Vasco da Gama narra ao rei de Melinde o discurso de Nuno Álvares Pereira, proferido antes da Batalha de Aljubarrota, que opôs os Portugueses aos Castelhanos.

Est. 15

– «Como? Da gente ilustre Portuguesa

Há de haver quem refuse o pátrio Marte 1 ?

Como? Desta província, que princesa

Foi das gentes na guerra em toda parte,

5 Há de sair quem negue ter defesa?

Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte

De Português, e por nenhum respeito

O próprio Reino queira ver sujeito?

Est. 16

«Como? Não sois vós inda os descendentes

10 Daqueles que, debaixo da bandeira

Do grande Henriques 2, feros e valentes,

Vencestes esta gente tão guerreira,

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Puseram em fugida, de maneira

15 Que sete ilustres Condes lhe trouxeram

Presos, afora a presa que tiveram?

Est. 17

«Com quem foram contino sopeados 3

Estes, de quem o estais agora vós,

Por Dinis e seu filho sublimados,

20 Senão cos vossos fortes pais e avôs?

Pois se, com seus descuidos ou pecados,

Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,

Torne-vos vossas forças o Rei novo 4,

Se é certo que co Rei se muda o povo.

Est. 18

25 «Rei tendes tal que, se o valor tiverdes

Igual ao Rei que agora alevantastes,

Desbaratareis tudo o que quiserdes,

Quanto mais a quem já desbaratastes.

E se com isto, enfim, vos não moverdes

30 Do penetrante medo que tomastes,

Atai as mãos a vosso vão receio 5,

Que eu só resistirei ao jugo 6 alheio.

Luís de Camões, Os Lusíadas, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE-IC, 2003, pp. 98-99.

NOTAS

1 refuse o pátrio Marte – recuse combater pela Pátria.

2 Do grande Henriques [...] tiveram? – referência a um episódio que terá ocorrido em Arcos de Valdevez, nos princípios de 1128, quando D. Afonso Henriques invadiu a Galiza e derrotou o rei de Castela. Morreram inúmeros soldados castelhanos e foram aprisionados sete Condes e muitos outros cavaleiros.

3 contino sopeados – continuamente subjugados.

4 Rei novo – referência a D. João I, Mestre de Avis.

5 Atai as mãos a vosso vão receio – ficai imóveis, prisioneiros do vosso medo.

6 jugo – domínio; força repressiva.

4.

Explicite as razões que justificam a indignação manifestada por Nuno Álvares Pereira nos versos 1 a 20.

5.

Tendo em conta o objetivo que Nuno Álvares Pereira pretende alcançar, avalie o poder argumentativo das suas palavras nos versos 21 a 32.

Na sua resposta, comece por explicitar o objetivo do discurso de Nuno Álvares Pereira.

Enunciado: Grupo I · Exame Nacional Português Época especial 2024

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

4. Explicite as razões que justificam a indignação manifestada por Nuno Álvares Pereira nos versos 1 a 20.

Resposta: Explicitação de dois dos seguintes tópicos (ou outros igualmente relevantes): - existência de Portugueses que se recusam a combater em defesa da pátria, a qual, no passado, se destacou na guerra, em toda a parte (vv. 1-5); - falta de patriotismo revelada por alguns Portugueses (que negam a fé, o amor à pátria e o espírito combativo do povo português) ao aceitarem a possível subjugação do Reino (vv. 6-8); - contraste entre a atitude cobarde dos contemporâneos e a atitude corajosa dos antepassados que, desde os primórdios da nação portuguesa, derrotaram e subjugaram os Castelhanos (vv. 9-20).

5. Tendo em conta o objetivo que Nuno Álvares Pereira pretende alcançar, avalie o poder argumentativo das suas palavras nos versos 21 a 32.

Resposta: Abordagem dos seguintes tópicos (ou outros igualmente relevantes): - o objetivo de Nuno Álvares Pereira consiste em convencer os seus contemporâneos a lutar contra os Castelhanos, vencendo a «fraqueza» (v. 22) e o «medo» (v. 30) em que o reinado de D. Fernando os colocou; - o discurso adquire grande poder argumentativo, na medida em que o orador, utilizando um tom exortativo, enaltece o valor do «Rei novo» (v. 23), D. João I, cuja força deverá inspirar a coragem dos Portugueses e levá-los a combater, e mostra a confiança que deposita em D. João I, ao afirmar que, se mais ninguém seguir o Rei, ele próprio resistirá, sozinho, ao inimigo.

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