Grupo III - 1 · Exame Nacional História A 1.ª fase 2021
Tema: Primeira Guerra Mundial, primeiro pós-guerra e mutações socioculturais dos anos 20 · Do exame 1.ª fase (2021)
Enunciado
GRUPO III
RUTURAS SOCIAIS E CULTURAIS NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX
Documento 1 (conjunto documental)
Documento 2
Uma exposição de pintura no Salão dos Independentes, em Paris,
na perspetiva do crítico de arte Louis de Vauxcelles (1910)
Quarenta e três salas! [...] Toda a gente pinta. Toda a gente expõe nos «Independentes»: artistas, porteiras, amadores, velhos ociosos, funcionários reformados, rapariguinhas boémias. É uma multidão desordenada, a imagem da sociedade contemporânea. Ausência de disciplina, ausência de ordem; a cacofonia de um encontro público. [...] As vozes discretas, harmoniosas,
5 são abafadas. [...] Cá está o temível triunfo do individualismo. [...]
O público está desorientado. [...] Imaginemos um visitante desprevenido [...]: as composições dementes enlouquecem-no, [...] os excessos artificiais, as estranhezas dos pseudoprimitivos, as manchas berrantes, os efeitos fáceis e grosseiros dos impostores desgostam-no. [...] Sai furioso, crê-se enganado. Grita contra a decadência, contra a ruína da pintura moderna,
10 modernista se preferirem. [...]
O exagero, a imitação desenfreada e enganadora, estas são as taras que estragam esta exposição [...]. O caso Matisse é grave. Este colorista [...] esquematiza cada vez mais e, para agradar a uma clientela exigente, [...] serve-lhes quadros de uma simplificação anedótica, personagens construídas sem qualquer preocupação com a forma e nas quais o interesse
15 reside apenas, acima de tudo, na sensibilidade da paleta. [...] Outros, geómetras ígnaros*, reduzem o corpo humano, a paisagem, a pálidos cubos. [...]
Expostas estas reservas essenciais, rejubilemos com a derrocada dos académicos e com o terror que lhes causam as liberdades e os excessos da geração nova.
* ignorantes.
Gil Blas, 18 de março de 1910, in https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k7527626n.item (consultado em 21/09/2020). (Texto traduzido e adaptado)
Documento 3
As transformações sociais das primeiras décadas do século XX,
nas memórias do escritor Raul Brandão (1920-1922)
A vida modificou-se nos últimos vinte anos, primeiro com lentidão e, depois da guerra, num tropel que mete medo. Ninguém pensa hoje como ontem. [...] Só uma diretriz se marca cada vez mais fundo – enriquecer e gozar. [...] A vida de família, como nós ainda a compreendemos, já se transformou. A família dissolve-se. [...]
5 A vida mudou de direção. É o bolchevismo que aí vem? [...] O ideal da vida já não é o mesmo ideal. [...] Todas as consciências se modificaram. [...] Nunca as mulheres se despiram como agora, com colares que valem uma fortuna. [...] Num espaço de quinhentos metros, pelo princípio da Avenida, há vinte, trinta casas de jogo toda a noite abertas. [...] Todos caminhamos com febre – a febre de quem não confia no dia de amanhã. O dia de amanhã
10 talvez não exista [...]. Toda a gente enriquece dum dia para o outro e toda a gente gasta, gasta, gasta. [...] O jogo tomou uma importância capital nesta sociedade que se dissolve – a vida é uma roleta. [...]
Sinto que todos os laços que outrora me prendiam à vida se quebraram, a ponto de ficar desamparado. [...] Essa sociedade anticristã que aí está, não merece ser poupada: não só
15 não crê em Deus, como só crê na matéria e no gozo. [...]
Mas não foi só a guerra. [...] Foi a morte que se aproximou de repente de nós todos [...]. A morte passou para o primeiro plano. [...] Juntem a isto a influência da máquina – aeroplano e auto –, a do desporto e do cinema. [...] Tanto como a guerra, mais talvez que a guerra, foram as máquinas que transformaram a nossa vida...
20 Houve um momento, quase a seguir à guerra, em que, pelo aumento do preço das coisas, a vida se tornou difícil para os jornaleiros. [...] Os jornaleiros começaram a olhar com desconfiança os ricos. Pulularam as fábricas, que influíram [...] na propaganda do ódio contra a classe exploradora. [...]
Lá vão, e isto dum dia para o outro, as bases duma existência que parecia indestrutível [...].
25 [São] as filhas e as netas que estavam no costume de se guardar intactas para o casamento e que se escapulem para o pagode. [...] O pecado sexual já não é pecado. [...] As que vêm agora para a vida ainda vão às igrejas [...], mas [...] não resistem às tentações e entendem que não vale a pena resistir.
Raul Brandão, Memórias. Três volumes reunidos, Lisboa, Quetzal Editores, 2017, pp. 491-499. (Texto adaptado)
1. Ordene cronologicamente as imagens A, B, C e D (documento 1), que se reportam ao ambiente político e sociocultural vivido na Europa nas primeiras décadas do século XX.
Escreva, na folha de respostas, a sequência correta das letras.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. Ordene cronologicamente as imagens A, B, C e D (documento 1), que se reportam ao ambiente político e sociocultural vivido na Europa nas primeiras décadas do século XX.
Resposta: (B); (A); (D); (C) / B, A, D, C
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