Grupo III · Exame Nacional História A 1.ª fase 2024
Tema: Portugal da Primeira República ao Estado Novo (1910-1945) · Do exame 1.ª fase (2024)
Enunciado
GRUPO III
RUTURAS POLÍTICAS E PROBLEMAS ECONÓMICOS EM PORTUGAL NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX
Documento 1 (conjunto documental)
A – General Gomes da Costa: «Este homem tem a força. Ajudemos este homem a salvar Portugal!»
B – Caricatura alusiva à situação socioeconómica em Portugal no contexto da Primeira Guerra Mundial.
C – Panfleto do Secretariado de Propaganda Nacional.
D – Panfleto anónimo e clandestino de contestação política, na sequência do golpe de 28 de Maio.
Identificação das fontes
Documento 1 (conjunto documental)
A – https://tinyurl.com/mwescs6c (consultado em setembro de 2023); B – https://tinyurl.com/3bfbx5a4 (consultado em setembro de 2023); C – https://tinyurl.com/btdk56uc (consultado em setembro de 2023); D – https://tinyurl.com/2p8m49u7 (consultado em setembro de 2023).
Documento 2
Intervenção de Alberto Pinheiro Torres 1 na Câmara dos Deputados
(22/12/1925)
Sr. Presidente: […] só o interesse nacional, e não o partidário, inspira as palavras que vou dizer. […] Mais um governo. […] É o record do mundo da instabilidade governamental, […] é a crise política permanente, é a ausência de autoridade e poder, é, em suma, a anarquia e a desordem em que o regime agoniza, impenitente. […]
5 O que nos alenta e revigora são os admiráveis movimentos de ressurgimento nacional […]. […] Esse movimento há de erguer-se para esmagar precisamente esses que […] ainda não souberam pôr acima de todas as suas conveniências partidárias […] os interesses da nação. […] Nós não nos podemos afastar do grande movimento geral. O dilema que foi posto ao mundo é este: ou o fascismo, […] que está alastrando pela Europa, ou o bolchevismo. Se o fascismo
10 triunfar, a civilização salva-se, se é o bolchevismo que triunfa, voltamos à barbárie […]. […]
Na verdade, […] toda a responsabilidade do atual estado de coisas deve-se ao Partido Democrático, que é, afinal, com breves intervalos, quem tem governado o país desde 5 de outubro de 1910. […]
E tem […] o país vivido com satisfação? Não. Ele tem vivido na verdade com indignação
15 e por vezes com ódio, […] [mas] sempre que se lhe tem deparado o ensejo para fugir a essa pesada e por vezes cruel ditadura, tem-se aproveitado dele com verdadeira satisfação. É ver […] esse período de repouso em que dominou Sidónio Pais, o grande morto, a quem ainda há dias um dos mais altos espíritos da França contemporânea chamava: Mussolini avant la lettre 2. […] Para o vencerem […] foi preciso matá-lo, e o seu assassino, impune, creio que vive
20 sob a proteção do Estado. […] Ainda em abril deste ano se fez uma tentativa para libertar o país do domínio democrático. […] Quando um país tem um governo que o não satisfaz, a revolução é sempre inevitável. […]
Sr. Presidente, […] vou tratar agora […] de um outro problema que me parece urgentíssimo. É o problema financeiro. […] [O]s governantes adotaram como norma a máxima desordem. E
25 é interessante que a declaração ministerial fala em equilíbrio orçamental, quando há anos não temos sequer orçamentos. […] Depois, o défice aumenta de uma forma assombrosa, […] e as contribuições estão pesando enormemente sobre a vida nacional […]. […] E os aumentos de circulação fiduciária 3 ?! Toda a economia nacional desprezada. […] [F]oi o mesmo Presidente do Conselho […] que autorizou esses aumentos e deu ordem à panificação para aumentar o
30 preço do pão e diminuir-lhe o peso.
https://debates.parlamento.pt/catalogo/r1/cd/01/07/01/009/1925-12-22 (consultado em setembro de 2023). (Texto adaptado)
1 deputado eleito nas listas do Partido Monárquico. Foi membro fundador do Centro Católico Português; aderiu ao Integralismo Lusitano.
2 no sentido de precursor do fascismo.
3 notas de banco.
1.
Ordene cronologicamente as imagens A, B, C e D (documento 1), relativas a diferentes contextos políticos em Portugal nas primeiras décadas do século XX.
Escreva a sequência correta das letras (por exemplo: B, A, D, C ou B - A - D - C).
2.
Explicite duas características da situação da economia portuguesa no primeiro pós-guerra.
Fundamente uma das características com uma informação relevante da imagem B do documento 1 e a outra característica com um excerto relevante do documento 2.
3.
A turbulência política interna e as emergentes tensões ideológicas no campo internacional conduziram, nos anos 20, à ascensão de forças políticas conservadoras em Portugal.
Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando-os com excertos relevantes do documento 2.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
1. Ordene cronologicamente as imagens A, B, C e D (documento 1), relativas a diferentes contextos políticos em Portugal nas primeiras décadas do século XX.
Resposta: (B); (A); (D); (C)
2. Explicite duas características da situação da economia portuguesa no primeiro pós-guerra.
Resposta: Duas das seguintes características fundamentadas: - Baixa produtividade agrícola ou industrialização ténue e circunscrita, agravadas pela contração do comércio internacional: «Toda a economia nacional desprezada.» (doc. 2); - Desequilíbrio financeiro crónico (défice orçamental) devido aos custos da guerra e aumento da despesa pública: «o problema financeiro» / «quando há anos não temos sequer orçamentos» / «o défice aumenta de uma forma assombrosa» (doc. 2); - Agravamento da carga fiscal para cobrir o défice: na imagem B, os «impostos» e as «contribuições» «encravam» o Zé Povinho / «as contribuições estão pesando enormemente sobre a vida nacional» (doc. 2); - Aumento acentuado dos preços (inflação galopante) e escassez de bens: imagem B evidencia a «falta de géneros», «carestia da vida» e «Zé Povão: — Sempre encravado!» / «deu ordem à panificação para aumentar o preço do pão e diminuir-lhe o peso» (doc. 2); - Desvalorização da moeda por via do aumento da circulação fiduciária: «E os aumentos de circulação fiduciária?!» (doc. 2); - Fracasso de reformas tributárias e fomento devido à instabilidade e conflitualidade social: imagem B mostra as «greves» / «[O]s governantes adotaram como norma a máxima desordem» / «há anos não temos sequer orçamentos» (doc. 2).
3. A turbulência política interna e as emergentes tensões ideológicas no campo internacional conduziram, nos anos 20, à ascensão de forças políticas conservadoras em Portugal. Exponha dois argumentos que sustentem esta afirmação, fundamentando-os com excertos relevantes do documento 2.
Resposta: Dois dos seguintes argumentos fundamentados com excertos do documento 2: - Clima de permanentes lutas político-partidárias e descrédito dos políticos republicanos: «o interesse nacional, e não o partidário» / «não souberam pôr acima de todas as suas conveniências partidárias [...] os interesses da nação»; - Instabilidade governativa crónica resultante do parlamentarismo: «Mais um governo.» / «o record do mundo da instabilidade governamental» / «crise política permanente» / «ausência de autoridade e poder» / «a anarquia e a desordem em que o regime agoniza»; - Simpatia crescente pelo autoritarismo e modelos antidemocráticos face à emergência do fascismo europeu: «Nós não nos podemos afastar do grande movimento geral.» / «o fascismo, [...] que está alastrando pela Europa» / «Se o fascismo triunfar, a civilização salva-se» / «Mussolini avant la lettre» [Sidónio Pais]; - Medo do bolchevismo e da contestação revolucionária operária: «se é o bolchevismo que triunfa, voltamos à barbárie»; - Hegemonia e clientelismo do Partido Democrático inviabilizando a alternância política: «toda a responsabilidade do atual estado de coisas deve-se ao Partido Democrático» / «libertar o país do domínio democrático»; - Intervenção e apelo à regeneração pela via militar: «os admiráveis movimentos de ressurgimento nacional» / «sempre que se lhe tem deparado o ensejo para fugir a essa pesada e por vezes cruel ditadura, tem-se aproveitado dele com verdadeira satisfação» / «período de repouso em que dominou Sidónio Pais» / «tentativa para libertar o país do domínio democrático» / «Quando um país tem um governo que o não satisfaz, a revolução é sempre inevitável.»; - Crise de legitimidade das instituições republicanas: «E tem [...] o país vivido com satisfação? Não. Ele tem vivido na verdade com indignação e por vezes com ódio».
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