Grupo II - 3 · Exame Nacional História A 2.ª fase 2025
Tema: Civilização industrial: economia, sociedade e Portugal da Regeneração à crise da monarquia · Do exame 2.ª fase (2025)
Enunciado
GRUPO II
DO LIBERALISMO MONÁRQUICO AO LIBERALISMO REPUBLICANO EM PORTUGAL
Documento 1
Indicadores da política de «melhoramentos materiais» em Portugal, segunda metade do século XIX
· 1852 · 1865 · 1881 · 1890
Estradas
(extensão da rede, em km) · 218 · 2195 · 7684 · 11 870
Caminhos de ferro
(extensão da rede, em km) · - · 694 · 1234 · 2071
Postos de telégrafo
(unidades) · - · 92 · 202 · 395
Unidades industriais
(com 100 ou mais operários) · 30 · - · 75 · 64
Energia motriz da indústria
(em cavalos-vapor) · 961 · - · 7089 · 6421
Fontes: Inquérito industrial de 1881, Lisboa, Imprensa Nacional, 1881; Inquérito industrial de 1890, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891; Guilhermino Augusto de Barros, Memória histórica acêrca da telegrafia eléctrica em Portugal, Lisboa, 1944, 2.ª ed.; David Justino, A formação do espaço económico nacional – Portugal, 1810-1913, Lisboa, Vega, 1998; Nuno Valério, Estatísticas históricas portuguesas, Lisboa, INE, 2001.
Documento 2
«A Paixão Popular», caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro publicada no jornal O António Maria, 25 de março de 1880
Legenda:
① Zé Povinho, personificação do povo português
② défice
③ impostos
④ imposto do selo
⑤ Fontes Pereira de Melo, líder do Partido Regenerador
⑥ Rodrigues Sampaio, membro do Partido Regenerador
⑦ J. Tomás Lobo de Ávila, conselheiro de Estado e par do reino
⑧ José Dias Ferreira, líder e deputado pelo Partido Constituinte
⑨ Barros Gomes, ministro dos Negócios da Fazenda; membro do Partido Progressista
⑩ A. José Braamcamp, presidente do Conselho de Ministros; membro do Partido Progressista
«Zé Povinho, amarrado pelos laços do défice à columna dos impostos, e ameaçado pela lança do selo.»
https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/1880/1880_item1/P96.html (consultado em setembro de 2024). (Adaptado)
Documento 3
A vida política nacional em finais do século XIX,
na opinião do jornalista e escritor Mariano Pina, 3 de maio de 1890
Imaginar que o sistema monárquico-constitucional, que desde o reinado de D. Maria II rege a nação portuguesa, é um sistema perfeito, [...] conservando-se indefinidamente no statu quo 1, é um absurdo, é um erro, [...] tanto para o sistema em si, como para a nação que o sofre. [...] [O] sistema tem fatalmente de se modificar, de se transformar – de progredir. Estas modificações [...] nunca se fazem, nem por vontade e livre-arbítrio do Rei, nem dos governos. Fazem-se por imposição da Nação. E o Rei e os governos submetem-se à vontade do Povo. [...]
O sistema de relojoaria política que satisfez plenamente ao ideal e às necessidades da geração que foi governada pelo sr. D. Luís I já não satisfaz à geração que vai ser governada pelo sr. D. Carlos I – que é uma nova geração que aprendeu por outros livros [...], que desde a mocidade anda agitada por outros ideais, – e que hoje vê com uma nitidez perfeita quantos erros, [...] quantos vícios borbulham na pele do atual regime monárquico-representativo.
O Estado tem o monopólio de todos os trabalhos materiais de que o país carece, para o desenvolvimento da sua agricultura, da sua indústria, do seu comércio e da sua navegação, e nós queremos [...] que eles se não transformem, nas mãos de um ministro sem escrúpulos, em instrumento odioso da mais odiosa e indecente pressão eleitoral. O Estado tem o monopólio de todos os empregos, e nós queremos que [...] a intriga e a corrupção diminuam [...].
Queremos hoje o que a nossa inteligência e a nossa consciência – acordadas por questões sociais que não agitaram o reinado do sr. D. Luís ou que pelos seus governos não foram compreendidas – reclamam a cada instante. [...] Queremos outra coisa [...]. Ora, se o atual governo monárquico entende [...] que nos há de obrigar [...] aos velhos processos fontistas, [...] – então tenha paciência a Senhora Monarquia, que o País cá vai devagarinho, mas direitinho, para a República! [...]
E como na família de Bragança já não há irmão que pugne pelo absolutismo e irmão que se bata pela liberdade [...], o Povo achou mais simples e mais ajuizado, enquanto as coisas não mudam, ir queimando velas pela República!
O espectro. Castigo semanal da política, N.º 1, Paris, 3 de maio de 1890. (Texto adaptado)
1 estado em que as coisas se encontram.
3.
Desenvolva o tema Política e fomento durante a Regeneração e os seus impactos na sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX, articulando os tópicos de orientação seguintes:
funcionamento do sistema político e programa económico-financeiro;
contestação política, intervenção cultural e transformações sociais.
Na sua resposta,
apresente três elementos para cada tópico de orientação;
evidencie a relação entre os elementos dos dois tópicos, explorando, pelo menos, duas linhas de análise;
integre, pelo menos, uma informação relevante de cada um dos documentos 1, 2 e 3.

Resolução
Segundo os critérios oficiais de classificação
3. Desenvolva o tema Política e fomento durante a Regeneração e os seus impactos na sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX
Resposta: A resposta deve articular os dois tópicos de orientação, integrando informação relevante dos três documentos: 1.º Tópico de orientação – Funcionamento do sistema político e programa económico-financeiro: - Estabilidade política alcançada através do rotativismo partidário entre Regeneradores e Progressistas/Constitucionais; - Abertura a uma maior participação política através da extensão do sufrágio e eleições diretas; - Existência de clientelismo, manipulação eleitoral e caciquismo; - Política de obras públicas («fontismo»), com grandes investimentos na rede rodoviária, ferroviária e telégrafos para unificar o mercado nacional (Doc. 1); - Fomento agrário e industrial (mecanização e energia a vapor) (Doc. 1); - Dificuldades financeiras crónicas: recurso ao endividamento externo e agravamento da carga fiscal («laços do défice» e «coluna dos impostos») (Doc. 2); - Contestação aos velhos processos fontistas e corrupção política (Doc. 3). 2.º Tópico de orientação – Contestação política, intervenção cultural e transformações sociais: - Ascensão e predomínio da grande burguesia; - Crescimento das classes médias urbanas e do operariado fabril, receptivo a novas ideologias (socialismo, anarquismo e republicanismo); - Formação de uma opinião pública crítica através da imprensa e caricatura (Doc. 2); - Emergência de uma elite intelectual crítica (Geração de 70, Conferências do Casino), aberta à modernidade cultural e ao Realismo/Naturalismo (Doc. 3); - Crescimento do republicanismo como alternativa ao desgaste do regime monárquico (Doc. 3). Relação entre os tópicos (linhas de análise): - A modernização dos transportes facilitou o contacto com ideias europeias e estimulou a contestação intelectual; - O fomento industrial concentrou o operariado, potenciando a mobilização social e sindical; - O descrédito do rotativismo, da corrupção eleitoral e do défice crónico impulsionou a afirmação do Partido Republicano.
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