Grupo II - 2 · Exame Nacional História A Época especial 2021

Tema: Antigo Regime: absolutismo, sociedade de ordens, mercantilismo e Luzes · Do exame Época especial (2021)

Enunciado

GRUPO II

TENDÊNCIAS DA ECONOMIA PORTUGUESA NO CONTEXTO DO ANTIGO REGIME

Cálculo sobre a perda do dinheiro do reino, dirigido a D. João V

por Alexandre de Gusmão (1748)

O dinheiro é o sangue das monarquias, e, extraído do corpo delas, enfraquecem da mesma

forma que acontece aos corpos humanos quando se lhes tira o sangue; a este modo de

fraqueza se vai conduzindo Portugal, pois que tanto se trabalha em extrair-lhe a moeda quanto

ele caminha para a pobreza, e, por conseguinte, para a ruína. As causas motoras deste dano

5 têm muitos e diversos princípios [...].

Os povos, [...] para viverem em todas as terras do reino, necessitam fornecer-se uns aos

outros de géneros e manufaturas, [...] suprindo-se* estes e aquelas com dinheiro, quando os

não há igualmente de ambas as partes, para fazer-se a balança do comércio [...]. Assim nos

acontece em Portugal, de que [...] resulta fazermos comércio passivo, que é o pior de todos,

10 porque pagamos sempre com dinheiro [...] [os] géneros e manufaturas que não temos e de

que necessitamos.

Não seria o nosso comércio passivo se metêssemos no reino anualmente tanta quantidade

de moeda como dele se extrai, para pagarmos os géneros e manufaturas que necessitamos

comprar [...]. Assim comerciávamos nós no tempo em que fomos senhores dos géneros e

15 manufaturas da Ásia, que vinham pelo Cabo da Boa Esperança, e também [...] enquanto vinha

muito ouro das minas, e valiam os géneros da América. Mas agora, que vem cada vez menos

e os géneros abateram [...] [no] valor, pelos que concorrem no comércio produzidos em outras

colónias novas**, [...] havemos de fazer um comércio passivo.

É impossível suprirmos com a moeda que entra no reino a muita que dele sai [...]. Isto

20 sucede assim porque cada vez vem menos ouro das minas e se aumenta mais a extração do

dinheiro do reino [...]. Segue-se de tudo o referido que [...] há de perder o reino a maior parte

da moeda que agora possui [...].

Como seja do ministério dos soberanos procurar a conservação e a felicidade dos povos [...],

suplicam os portugueses, fiéis vassalos de Vossa Majestade, [...] que diminua o luxo com

25 alguma lei sumptuária; [...] que se estabeleçam as fábricas, aumentando-se por toda a parte

a indústria; e que, finalmente, se favoreça o comércio, dentro e fora do reino, sem o qual não

pode haver Estado rico, poderoso, nem florescente.

Desta sorte, senhor, é que o reino precisa de providências, [...] pois ninguém como Vossa

Majestade tem os meios para estes fins; e já que Deus permitiu, por sua incompreensível

30 bondade (como protetor de todos os reinos), que Vossa Majestade possua os referidos

meios, [...] com justa razão espera o reino que Vossa Majestade lhe procure [...] as felicidades

que ele pode gozar debaixo do seu poderoso governo.

Francisco Solano Constâncio, Leituras e ensaios de economia política (1808-1842), Lisboa,

Banco de Portugal, dir. José Luís Cardoso, 1995, pp. 306-309. (Texto adaptado)

* substituindo-se.

** referência às colónias europeias das Antilhas.

2. Explicite duas características da doutrina económica refletida no pensamento de Alexandre de Gusmão.

Fundamente as duas características com excertos relevantes do documento.

Enunciado: Grupo II - 2 · Exame Nacional História A Época especial 2021

Resolução

Segundo os critérios oficiais de classificação

2. Explicite duas características da doutrina económica refletida no pensamento de Alexandre de Gusmão. Fundamente as duas características com excertos relevantes do documento.

Resposta: Explicitação de duas das seguintes características fundamentadas com excertos do documento: - A riqueza (ou o poder) de um Estado assenta na acumulação de metais preciosos (ou de moeda), através do fomento do comércio externo: «O dinheiro é o sangue das monarquias» OU «tanto se trabalha em extrair-lhe [de Portugal] a moeda quanto ele caminha para a pobreza»; - Manutenção de uma balança comercial equilibrada (ou aumento das exportações e diminuição das importações), como forma de captação de riqueza ou de impedir a saída de moeda: «Não seria o nosso comércio passivo se metêssemos no reino anualmente tanta quantidade de moeda como dele se extrai, para pagarmos os géneros e manufaturas que necessitamos comprar»; - Necessidade de promulgação de leis pragmáticas para interditar a importação de produtos de luxo, impedindo a saída de moeda OU estimulando a produção nacional: «que diminua o luxo com alguma lei sumptuária»; - Fomento manufatureiro para aumentar a competitividade (ou a capacidade de exportação) e abastecer o mercado interno (ou diminuir as importações): «que se estabeleçam as fábricas, aumentando-se por toda a parte a indústria»; - Valorização da atividade mercantil (ou incremento do comércio externo OU defesa do exclusivo colonial), para controlo de mercados de abastecimento de matérias-primas (ou de colocação de produtos manufaturados): «que [...] se favoreça o comércio, dentro e fora do reino, sem o qual não pode haver Estado rico, poderoso, nem florescente»; - Defesa do intervencionismo do Estado na economia (ou adoção de medidas protecionistas OU monopolistas) para estimular a produção nacional OU para diminuir as importações: «ninguém como Vossa Majestade tem os meios para estes fins».

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